“Conflitos no Oriente Médio não têm como meta instaurar a democracia”

Ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Walid al Muallem (esq.) e chanceler russo, Serguêi Lavrov (dir.) Foto: ITAR-TASS

Ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Walid al Muallem (esq.) e chanceler russo, Serguêi Lavrov (dir.) Foto: ITAR-TASS

Em entrevista à Gazeta Russa, o presidente do Instituto de Estudos sobre o Oriente Médio, Evguêni Satanóvski, comenta por que a Rússia é contra a intervenção externa na Síria e traça possíveis roteiros para chegar a uma solução rápida e eficaz.

Gazeta Russa: Por que a Rússia se opõe à intervenção militar dos EUA na Síria?

Evguêni Satanóvski: A Rússia avalia a intenção dos Estados Unidos como uma tolice, na melhor das hipóteses, e uma provocação, na pior, uma vez que os incidentes com armas químicas foram tentativas da oposição de provocar um ataque a Assad. O exército dele não tinha necessidade de usar armas químicas na presença de inspetores da ONU, num momento em que ele, sem isso, já está ganhando a guerra civil. Para Assad, isso seria um suicídio político. Já para a oposição, que está perdendo a guerra, esta era única chance de inverter a situação. Sozinha, ela não está em condições de vencer, nem mesmo com o apoio dos terroristas jihadistas do mundo inteiro.

GR: Isso quer dizer que essa guerra civil não busca instaurar uma democracia?

ES: Nenhuma guerra no Oriente Médio eclodiu com o objetivo de alcançar a democracia. Lá, as guerras são direcionadas contra regimes islâmicos autoritários, entre o mundo islâmico contra Israel ou de sunitas contra os xiitas e xiitas contra sunitas. A derrubada do regime de Assad não resultará em democracia, mas sim no genocídio de cristãos, xiitas (alauíta, jafaritas, ismaelitas, drusos etc.), bem como das minorias étnicas dos curdos e turcomanos.

GR: Na sua opinião, qual é exatamente a causa do conflito? 

ES: A política agressiva do bloco sunita islâmico: da Turquia e de duas monarquias wahabitas – Qatar e Arábia Saudita – na redestribuição do mundo islâmico e, especialmente, árabe; a tentativa de formar um novo califado. E para Doha e Riad, a razão adicional para atacar Assad é a sua aliança com o Irã xiita. Além disso, os alauítas que governam a Síria são, sob o ponto de vista dos ulemás wahabis, hereges e devem ser derrubados e aniquilados.

GR: Existe a ideia de que a Rússia se opõe à intervenção dos EUA para poder continuar o seu fornecimento de armas a Assad e manter uma base naval na Síria...

ES: Isso é um absurdo. A Rússia não tem nem nunca teve base naval na Síria. O que existia lá era um ponto logístico de abastecimento em Tartus: dois cais flutuantes e uma cabana em meio hectares de terra, onde se guardava água e combustível, e onde também se encontrava uma equipe técnica de reparação.

Se os navios russos não forem para a Síria, eles irão ser consertados e abastecido na cipriota Limassol, ou em Haifa, no território de Israel, onde já estiveram antes. Do ponto de vista da Rússia, a intervenção na Síria é inaceitável, do mesmo modo que o foi na Líbia, no Iraque e na Iugoslávia. Na questão da Líbia, a Rússia acabou concordando com a proposta do Ocidente, acreditando que eles não partiriam para a intervenção, mas foi enganada. 

Evguêni Satanóvski

GR: A deterioração da situação na Síria e as tensões no Oriente Médio levam ao aumento dos preços do petróleo. Esse é outro motivo sugerido por alguns para a não intervenção russa, já que o conflito seria rentável para o país. O que acha sobre isso? 

ES: O conflito na região é estimulado pelo Qatar, Arábia Saudita e Turquia. É para eles que esse conflito é rentável. Aos dois primeiros, devido ao aumento do preço do petróleo e do gás. À Turquia, por suas ambições geopolíticas.

A Rússia não está fomentando o conflito no Oriente Médio, mas também não está disposta a ajudar os terroristas, que têm o apoio do Ocidente. Para a Rússia, essas pessoas são os inimigos. A verdadeira questão a ser posta é por que razão os Estados Unidos, França e Reino Unido apoiam a Turquia, Arábia Saudita e Qatar, que são os principais patrocinadores de terroristas islâmicos. Muito provavelmente a resposta a esta questão irá refletir os interesses pessoais dos líderes desses países.

GR: A maioria dos estrangeiros acredita que, agora, a Rússia irá retardar deliberadamente a adoção de soluções sobre a questão síria nas Nações Unidas...

ES: A Rússia tem uma posição clara sobre a Síria. E esse posicionamento coincide com a da China. São cinco os países do Conselho de Segurança da ONU que têm poder de veto. Três deles estão a favor da intervenção. Dois, contra. Se a posição da Rússia e da China forem levadas em conta, então não haverá intervenção. Se não, o problema não é da Rússia.

Quanto a querer encontrar uma solução rápida, não há nada mais idiota do que a destruição de um país estável por causa dos terroristas islâmicos, independentemente do grau de riqueza dos patrocinadores que organizaram a guerra civil na Síria. A solução mais rápida e eficiente para pará-los é bombardear Doha, Riade e Ancara.

GR: É possível evitar um ataque americano à Síria? 

ES: Não. A liderança norte-americana decidiu atacar a Síria; caso contrário, os terroristas apoiados por seus parceiros turcos e árabes perdem a guerra. Depois da Síria, a nova questão será o ataque ao Irã. Para a Arábia Saudita, essa é a única chance de sobrevivência. O confronto direto com o Irã, que está se aproximando, pode destruí-la, a menos que os EUA ataquem o Irã primeiro.

GR: E como resolver esse impasse? 

ES: Parar imediatamente o financiamento e fornecimento de armamento aos guerrilheiros. Acabar com o recrutamento de terroristas feito por Doha e Riad em todo o mundo islâmico. Eliminar as bases terroristas na Turquia e Jordânia. Entrar em negociações com aqueles que estão dispostos a, juntamente com Assad e o governo central de Damasco, restabelecer a ordem na Síria.

Qualquer outra solução irá levar à desintegração da Síria, ao genocídio dos alauítas e de todos os outros xiitas, à aniquilação dos cristãos, à guerras dos curdos e druzos sírios com os árabes-sunitas e à transformação da Síria em um novo Líbano, com uma guerra civil de décadas entre as diferentes comunidades.

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