Restrições à importação de produtos ucranianos é vista como guerra comercial pelos vizinhos

No final de julho, o Serviço de Inspeção da Rússia proibiu a entrada na Rússia de produtos da empresa Roshen (um dos principais produtores ucranianos de doces), após a detecção de benzopireno Foto: ITAR-TASS

No final de julho, o Serviço de Inspeção da Rússia proibiu a entrada na Rússia de produtos da empresa Roshen (um dos principais produtores ucranianos de doces), após a detecção de benzopireno Foto: ITAR-TASS

Vários especialistas ucranianos afirmam que Moscou quer forçar Ucrânia a se juntar à União Aduaneira (Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão) e não assinar acordo com a União Europeia em novembro. Parte russa está convencida de que o que aconteceu não pode ser qualificado como guerra comercial.

Em 14 de agosto, o Serviço Aduaneiro da Federação Russa incluiu todos os exportadores ucranianos em uma lista qualificada como de "alto risco", segundo dados fornecidos pela Federação Ucraniana de Empresários (FRU, na sigla em russo).

Políticos ucranianos interpretaram as restrições impostas à exportação dos produtos da Ucrânia para a Rússia como uma guerra comercial. Especialistas russos, no entanto, acreditam que Kiev está fazendo tempestade em copo d'água. 

As mudanças significam que os produtos dessas empresas estarão sujeitos a um controle pormenorizado. A FRU informou que, desde o final de julho, os produtores ucranianos enfrentam inúmeras inspeções. A organização afirmou que as perdas sofridas pelas empresas ucranianas devido às medidas tomadas pelo serviço alfandegário da Rússia podem alcançar US$ 2,5 bilhões. 

De acordo com os serviços aduaneiras da Rússia, o comércio entre a Rússia e a Ucrânia diminuiu durante o primeiro semestre quase 20% (até US$ 18 bilhões). Esta diminuição aconteceu por causa da desaceleração do crescimento econômico dos países e por causa das barreiras artificiais erguidas entre a Rússia e a Ucrânia 

No final de 2012, a Rússia reduziu a cota de importação de tubos ucranianos. Em resposta, na primavera, a Ucrânia introduziu taxas especiais para a importação de carros com mais  de 1.000 cilindradas. 

Por sua vez, em julho, a Rússia informou a Organização Mundial de Comércio sobre a intenção de aumentar as taxas para uma série de produtos da Ucrânia, inclusive chocolate, açúcar e carvão. No final de julho, o Serviço de Inspeção da Rússia proibiu a entrada na Rússia de produtos da empresa Roshen (um dos principais produtores ucranianos de doces), após a detecção de benzopireno. 

Muitos políticos e especialistas ucranianos interpretaram as medidas tomadas pelo país vizinho como uma declaração de guerra comercial. 

O partido ucraniano Udar definiu as inspeções aduaneiras russas como uma “demonstração de força". Vários especialistas ucranianos afirmam que, com a introdução de novas barreiras à importação de produtos da Ucrânia, Moscou quer forçá-la a se juntar à União Aduaneira e não assinar o acordo de associação com a União Europeia em novembro. 

De acordo com os dados do Centro de Estudos Razumkov, cerca de 42% dos ucranianos apoiam a integração com a Europa, enquanto 31% da população apoia a ideia de se juntar à União Aduaneira (Rússia, Cazaquistão e Bielorrússia). 13% dos entrevistados afirmaram que a Ucrânia deve ficar fora da UE e da União Aduaneira.

No entanto, a parte russa está convencida de que o que aconteceu não pode ser qualificado como uma guerra comercial. O porta-voz do governo russo declarou que as decisões sobre a regulamentação das importações da Ucrânia foram adotadas pelas autoridades aduaneiras e não pelo governo da Rússia. 

O vice-primeiro-ministro da Ucrânia, Nikolái Azarov, tentou minimizar o problema e apelou à convergência das regulamentações técnicas dos dois países. Ele acrescentou que a Ucrânia continuará a desenvolver a cooperação com os países da Europa e da União Aduaneira ao mesmo tempo.

De acordo com especialistas russos, as ações de Moscou não são extraordinários. "Qualquer país tem o direito de endurecer as normas, especialmente quando encontra problemas relacionados à qualidade de produtos", disse o economista-chefe do Deutsche Bank Rússia, Iaroslav Lisovolik. 

Segundo ele, a convergência entre os mecanismos de controlo aduaneiro beneficiaria  ambos os países. "A Rússia e a Ucrânia aspiram à integração, o que reflete positivamente o crescimento econômico dos dois países. No entanto, essa integração pode ser realizada apenas nas condições de aumento do comércio”, completou Lisovolik.                             

De acordo com o diretor-geral da Agência de Comunicações Políticas e Econômicas, Dmítri Orlov, as ações da Rússia não podem ser interpretados como uma declaração de guerra comercial porque as medidas não afetarão as relações bilaterais a longo prazo.

"O conflito vai afetar principalmente a Ucrânia, porque quase 25% das suas exportações vão para a Rússia. Se o problema não for resolvido rapidamente, Kiev enfrentará o risco de perder uma parte significativa da receita e o risco da desvalorização da moeda ucraniana no final de 2013 ou no início de 2014”, diz Orlov. 

O economista do ING Bank Rússia Dmítri Polevoi afirma que o conflito não prejudicará a Rússia. “Moscou provavelmente poderá compensar a escassez dos bens ucranianos com aumento da produção das empresas locais ou com aumento das importações da Bielorrússia", completou.

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