“Já não temos medo da morte, mas de como vão nos matar”

Histórias de raptos assustam a população civil síria. Corre entre as pessoas muitas histórias sobre tortura e estupro de meninas Foto: Reuters

Histórias de raptos assustam a população civil síria. Corre entre as pessoas muitas histórias sobre tortura e estupro de meninas Foto: Reuters

"Nós vivemos em constante medo e tememos que a situação em Lataquia piore. Na minha cidade há muitas pessoas vindas de outras cidades e regiões da Síria que fugiram da guerra. Mas para onde fugiremos nós, habitantes de Lataquia, se a guerra chegar aqui?”, indaga jovem Chirin.

Ao longo dos últimos dois anos e meio a mídia internacional transmite continuamente notícias sobre a Síria: quais territórios foram ocupados pelas tropas governamentais e quais estão sob o domínio das forças de oposição, quantas pessoas foram mortas ou feridas etc. Relatos que refletem o sofrimento diário dos sírios comuns e como suas vidas mudaram drasticamente ainda impressionam.

Um deles é o de Chirin (que não quis revelar o sobrenome), jovem de cerca de 25 anos que vive em Lataquia. Psicóloga escolar que cursa mestrado na Universidade de Damasco, ela foi obrigada a suspender seus estudos por causa da guerra.

"Eu costumava passar o dia em Damasco e regressar para Lataquia no ônibus noturno. Mas nas condições atuais isso deixou de ser real: há muitos postos de controle militar na estrada e, além disso, caem bombas perto da universidade", conta ela.

Apesar disso, Chirin tenta terminar sozinha a sua tese científica.

"Vou continuar o meu trabalho e esperar que a situação melhore. Isso me dá estímulo para viver. Mas não vou sofrer demais se não conseguir defender a minha tese. O principal para mim agora é que a vida na Síria regresse à normalidade."

Mesmo em Lataquia, onde não há combates, a vida cotidiana mudou muito. A cidade foi dividida em distritos com inúmeros postos de controle do Exército, nos quais é preciso esperar em longas fila para a inspeção. Mas isso parece não incomodar Shirin, uma vez que são esses mesmos postos que previnem o transporte de armas e explosivos.

"Nós vivemos em constante medo e tememos que a situação em Lataquia piore. Na minha cidade há muitas pessoas vindas de outras cidades e regiões da Síria que fugiram da guerra. Mas para onde fugiremos nós, habitantes de Lataquia, se a guerra chegar aqui? Ouvimos todos os dias sobre massacres brutais, da profanação de cadáveres. Já não temos medo da morte, mas de como vão nos matar".

Chirin ficou muito preocupada quando soube do massacre nos povoados perto de Lataquia.

"Quando soube que famílias inteiras foram mortas, recordei da minha amiga que vive na área com os seus dois filhos pequenos. Tentei telefonar, mas não consegui contato. Não consegui dormir durante dois dias pensando que ela e os filhos poderiam ser brutalmente assassinados. Mas descobri o número de telefone do irmão dela, que me contou que ela conseguiu fugir a tempo com os filhos, mas que outros parentes haviam sido mortos. Ouvi dizer que algumas das moças se suicidaram com medo de serem feitas prisioneiras e estupradas."

Histórias de raptos assustam a população civil síria. Corre entre as pessoas muitas histórias sobre tortura e estupro de meninas e meninos.

"Eu conheço garotas da cidade de Homs que levam o tempo todo em suas bolsas granadas para se matarem caso sejam raptadas. Eu espero sinceramente não ter que andar com uma granada ou pistola na minha bolsa, embora pense que tudo aponte para isso."

No entanto, apesar de todas as conversas sobre desaparecimento de pessoas, assassinatos e raptos que Chirin ouve falar, ela tenta levar uma vida normal.

 "Continuo saindo e passeando pela minha cidade. Quando me encontro com meus amigos, tentamos não falar sobre a guerra nem sobre a situação tensa em que vivemos. Mas muitas vezes é impossível e então tentamos olhar com outros olhos para a situação."

Apesar de tudo o que aconteceu até agora, Chirin acredita na possibilidade de restaurar a paz e a harmonia na sociedade síria. Ela não consegue aceitar a ideia de que os horrores da guerra não terão fim.

"Nunca consegui entender qual a essência da guerra. Quando li ‘A Imortalidade’, de Milan Kundera, ri da teoria que ele desenvolve logo no início do livro. Ele tenta provar que a humanidade necessita periodicamente de guerra e que um período de violência se alterna com um de paz. Naquela altura, eu acreditava que a humanidade estava seguindo no caminho do progresso contínuo em direção a um mundo mais humano e melhor. Hoje, quando me lembro de Kundera, já acredito nas palavras dele, mas espero que chegue rapidamente o período de amor e paz ao meu país e que este pesadelo termine rapidamente."

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