Posto de trânsito disponibilizado pela Rússia à Otan em Ulianovsk fica sem uso

Os representantes da Otan insistiram na transferência do direito de todo o transporte para uma empresa estrangeira designada pela própria Otan Foto: Getty Images / Fotobank

Os representantes da Otan insistiram na transferência do direito de todo o transporte para uma empresa estrangeira designada pela própria Otan Foto: Getty Images / Fotobank

Posto serviria para OTAN transportar carga oriunda do Afeganistão, mas acabou não sendo utilizado; instituição não teria concordado com as tarifas das empresas de transporte russas.

O posto de trânsito de Ulianovsk, que a Rússia pôs à disposição da Otan no ano passado para o transporte de carga oriunda do Afeganistão, acabou não sendo utilizado. Até agora, os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) não assinaram nenhum contrato com transportadoras russas autorizadas a operar em Ulianovsk. Pessoas contatadas pelo jornal “Kommersant” no quartel-general da Otan se queixam de que as empresas russas cobram preços muito elevados. Já uma fonte no governo assegurou que a Otan tem receio de ficar dependente de Moscou. 

O projeto para a criação de um posto de trânsito através de Ulianovsk, lançado há precisamente um ano, foi considerado pela Rússia e pela Otan como um exemplo bem sucedido de cooperação. Moscou contava que grande parte dos mais de 100 mil contêineres e 60 mil veículos que a Força Internacional de Assistência para Segurança (ISAF, na sigla em inglês) planejava tirar do Afeganistão seria enviada para a Europa através de Ulianovsk. Mas nenhum pedido de utilização dessa rota foi feito até agora.

Fontes no quartel-general da Otan explicam que o problema está nos preços elevados.

"Ao abrir caminho através de Ulianovsk, as autoridades russas insistiram que ele fosse servido apenas por transportadoras russas. Acontece que estas subiram de tal modo os preços que nenhum dos países-membros da ISAF considera esta rota atraente", disse uma das pessoas contatadas pelo jornal.

Entretanto, foi precisamente a Otan que em 2011 apelou a Moscou para considerar a possibilidade de o trânsito reverso do Afeganistão ser feito através do território da Federação da Rússia. Na véspera, o Paquistão, depois de um conflito com os Estados Unidos, fechara por completo as suas fronteiras aos transportes da OTAN, enquanto o Uzbequistão e o Quirguistão se recusavam a deixar passar carga na direção oposta.

Uma rota através do território da Federação Russa, denominada de "Rede de Distribuição do Norte" e através da qual se realiza o transporte para o Afeganistão de mais de 60% das mercadorias não-bélicas da ISAF, já funciona. Elas são levadas por via aérea e ferroviária, mas sem transbordo.

No início de 2012, a Rússia concordou em abrir uma rota para o transporte de retorno, sugerindo a inclusão do aeroporto Vostotchni, em Ulianovsk. Em agosto, o projeto foi lançado.

Segundo uma outra fonte da Otan, muitos membros da ISAF demonstraram imediato interesse no trânsito através de Ulianovsk. Em dezembro de 2012, os britânicos fizeram testes com o envio de dez contêineres para a base de Camp Bastion, no Afeganistão, e de volta. Uma fonte no governo britânico informou que o envio foi considerado um sucesso.

No entanto, os britânicos nunca assinaram qualquer contrato. Um interlocutor do jornal explicou que Londres prefere outras rotas, principalmente através do Paquistão e das repúblicas da Ásia Central, que recentemente levantaram as objeções à passagem da carga da Otan vinda do Afeganistão.

"A existência de várias opções de rota permite tornar os deslocamentos mais flexíveis e garante uma melhor relação preço/qualidade", disseram os britânicos.

Uma fonte diplomática de um dos países europeus membros da ISAF que se interessou no transporte através de Ulianovsk acrescentou que, de acordo com as estimativas de seu governo, o transporte de um contêner proveniente do Afeganistão através do aeroporto Vostotchni custa € 50 mil, enquanto que através da uzbeque Termez sai por € 30 mil.

Em Moscou, a situação é analisada de maneira diferente. Uma fonte do governo  explicou que o trânsito através de Ulianovsk foi concebido principalmente como um projeto comercial. O interlocutor do “Kommersant” reconheceu que o trânsito bimodal através de Ulianovsk (até ao aeroporto por via aérea e depois por trem) é mais caro do que as rotas alternativas, mas ressaltou: "É mais rápido e mais seguro".

De acordo com a parte russa, a Otan não começou a usar Ulianovsk "por razões conjunturais".

"Eles não querem pagar à Rússia nenhum dinheiro a mais”, disse o funcionário.

“Além disso, não quiseram ficar dependentes de uma única via: a Rede de Distribuição do Norte. A Otan teme que a Rússia possa, através da via do transporte, exercer influência sobre ela, do mesmo modo que a Gazprom o faz sobre a Europa através da via do gás. Isso é tudo bobagem.”

Fontes próximas às estruturas comerciais que deveriam ser chamadas a atuar no trânsito em Ulianovsk apontam ainda outras causas para a derrapagem do projeto. Os representantes da Otan insistiram na transferência do direito de todo o transporte para uma empresa estrangeira designada pela própria Otan. As funções dessa empresa incluiriam a assinatura de acordos com seus participantes diretos. Mas a proposta foi rejeitada pela parte russa, inclusive por razões de segurança nacional.

Outra fonte disse que os representantes da Otan efetuaram consultas paralelas com os Estados mais próximos da Ásia Central e que estes, ao se darem conta de que poderiam ficar de fora, levantaram as objeções ao trânsito reverso e apresentaram preços mais baixos do que a Rússia.

Publicado originalmente pelo Kommersant.

 

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