As lições dos parceiros da Rússia no Brics

Rússia deve prestar atenção às vias de desenvolvimento dos outros países do BRICS Foto: AP

Rússia deve prestar atenção às vias de desenvolvimento dos outros países do BRICS Foto: AP

Na medida que as economias do Brics continuam a desacelerar, Rússia é cada vez mais vista como o elo fraco do grupo informal dos países emergentes.

No início deste ano, os economistas Nouriel Roubini e Ian Bremmer anunciaram, no Fórum Econômico Mundial de Davos, que a Rússia deveria ser substituída pela Indonésia ou pela Turquia no grupo do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Para que isso não aconteça, a Rússia deve prestar atenção às vias de desenvolvimento dos outros países do bloco nos últimos anos e tirar as devidas conclusões. 

É esta a opinião do coletivo de cientistas e investigadores russos que elaboraram  recomendações para as autoridades do país, a partir da experiência dos parceiros da Rússia no Brics. 

Estas recomendações estão contidas numa monografia editada no âmbito de um projeto de modelação matemática da dinâmica global e regional em meio à modernização dos sistemas de ciência e educação. 

Entre os peritos estão Ascar Akaev, ex-presidente da Quirguistão e membro da Academia das Ciências da Rússia, Andrêi Korotaev, professor catedrático da Faculdade de Processos Globais da Universidade Estatal de Moscou, Serguêi Malkov, coordenador científico do Instituto de Economia da Academia das Ciências da Rússia, bem como outros cientistas dos mais importantes centros científicos da Rússia.

Os autores da iniciativa não estão inclinados a acreditar na iniciativa privada. A maior parte dos seus conselhos se orienta para a participação ativa do Estado na economia.

Parceiros estão nos deixando para trás?

Na última década, os Brics foram um centro de atração para investidores.

Mesmo durante a crise de 2008 e 2009, quando os países desenvolvidos entraram em recessão, os resultados das economias em desenvolvimento foram bastante satisfatórios.

Os da economia russa, que atrasou-se tanto em relação aos Brics como aos países desenvolvidos, não: em 2009, a taxa de crescimento caiu 7% em relação ao ano anterior. Foi nessa altura que surgiram rumores de que a Rússia não teria mais seu lugar entre países tão bem sucedidos.

No curto prazo, a Rússia será submetida à nova prova: no primeiro trimestre deste ano, o PIB da China cresceu “apenas” 7,5%.

No ano passado, o crescimento da economia brasileira não passou de 0,9%, enquanto em 2013, segundo o FMI, deverá alcançar 2,5% (em 2010, o crescimento foi três vezes superior).

Os ritmos de crescimento da Índia baixarão duas vezes em comparação com 2010. O crescimento do PIB russo, na opinião do FMI, cairá para metade, mas poderá acontecer ainda pior, o que faria com que a questão da exclusão da Rússia do Brics se resolvesse por si só.

Para alcançar Brasil, Índia, China e África do Sul e não deixar vergonhosamente o conjunto das economias promissoras, o governo russo deve, desde já, “arregaçar as mangas” e começar a trabalhar, na opinião dos especialistas.

Enfim, o que aconselham eles às autoridades russas?

Construir habitações e estradas, como na China

Projetos de infraestrutura de grande envergadura são “motores” de crescimento na China. A Rússia poderia optar por um grandioso programa de construção e melhora das rodovias.

A China conseguiu uma atmosfera de intensa competição e até de dura concorrência na luta pelos ritmos de crescimento, volume de capital investido, recursos e criação de postos de trabalho através do estímulo e repreensão de dirigentes, trabalho ideológico e planificação. Como consequência, surgiu um impulso interior ao desenvolvimento econômico.

Os dirigentes chineses recorrem ativamente aos seus homens de negócios para concretizar projetos de infraestrutura. Por um lado, os homens de negócios são pressionados pelas autoridades; por outro, as autoridades retribuem-lhes com proteção, ajuda e melhora do seu estatuto social. 

Introduzir a planificação da economia, como na Índia

Torna-se imperioso impulsionar o setor estatal da economia para lançar e desenvolver os ramos necessários que não despertam o interesse do setor privado, de forma a impedir os monopólios privados e assegurar receitas orçamentais.

É preciso fazer crescer um setor privado não através da privatização de empresas públicas, mas apoiando o lançamento de novas empresas.

É necessário construir um sistema de planejamento estatal adaptado à economia de mercado, visando a modernização e progresso socioeconômico, bem como a conjugação de esforços da comunidade científica e de especialistas, sendo este um modo de atrair a sociedade civil.

Uma região, um investidor, como no Brasil

Há muito que se tornou necessário implantar um sistema fiscal progressivo, como no Brasil. Ali, as receitas excedentes foram canalizadas para a Educação e a Saúde, o que possibilitou melhorar consideravelmente a qualidade da mão de obra. A consequência foi a aceleração do ritmo do crescimento econômico.

A estratégia brasileira de captação de investimentos poderá funcionar na Rússia: detectar em cada região os ramos que possam suportar o crescimento econômico, procurar no mercado internacional os necessários investidores e trabalhar para leva-los para cada uma das regiões em questão.

O governo brasileiro autoriza, desde há pouco tempo, o estabelecimento no país de bancos estrangeiros e empresas “venture”, impondo-lhes como condição que concedam empréstimos apenas a ramos concretos e invistam na inovação, em vez de se dedicarem à especulação financeira.

Dar mais direitos às mulheres, como na África do Sul

Uma sólida infraestrutura financeira, elevados padrões de auditoria e contabilidade e um seguro sistema bancário são ingredientes da receita de sucesso da África do Sul, que está entre os dez países do mundo com melhor financiamento a longo prazo e à frente dos outros países dos Brics no que toca à qualidade da organização dos negócios.

O país pôs em marcha um programa de zonas industriais, isto é, parques técnicos especializados, com ligação a um aeroporto internacional ou porto marítimo, que contemplam uma zona alfandegária livre. Os integrantes dos parques tecnológicos não pagam taxas de importação sobre equipamentos e ativos, por exemplo. Está em prática uma política de subsídios aos investimentos estrangeiros, que inclui a importação de novas máquinas e equipamentos.

Uma questão muito atual na Rússia é a ampliação dos direitos das mulheres na política. A percentagem de mulheres no Parlamento sul-africano cresceu de 27,8%, em 1994, para 44%, em 2009, enquanto nos órgãos legislativos provinciais esse aumento foi, no mesmo período, de 25,4% para 42,4%.


Publicado originalmente pela Interfax.ru

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