Cinco lições sobre o golpe militar no Egito

Segundo especialistas, Mursi errou na composição e prioridades do governo Foto: Reuters

Segundo especialistas, Mursi errou na composição e prioridades do governo Foto: Reuters

Revoluções e golpes de Estado no Oriente Médio se tornaram mais frequentes do que as eleições no Ocidente. Observadores identificam as principais tendências evolutivas na região e alertam que o caos pode rapidamente se espalhar às fronteiras do sul da Rússia.

Lição 1: Quer tirar o poder de alguém? Comece pelo celular.

A declaração dos generais egípcios colocada no Facebook anunciando que o objetivo dos militares era defender a nação “contra terroristas, extremistas e ignorantes” pode ser considerada o gatilho para o golpe contra Mohammed Mursi. A investida chegou ao fim quando tiraram o celular de Mursi com o qual se comunicava pelo Twitter.

Após se ver privado de seu celular, Mursi, que ficou detido em uma das instalações das forças armadas egípcias, não postou mais nenhum comentário – estava desarmado e indefeso. Essa é uma característica distintiva do golpe de Estado dos tempos modernos: começam no espaço virtual e terminam quando uma das partes se vê privada do acesso aos meios de comunicação.

Lição 2: Primeiro alimente, depois governe

A principal queixa da multidão enfurecida em relação a Mursi e à Irmandade Muçulmana não era tanto a islamização da sociedade, mas o fato de não se ver nenhuma outra reforma além da ideológica. A tentativa de usurpar o poder sem solucionar os problemas que causaram a revolução em 2011 (principalmente os problemas socioeconômicos) levou rapidamente à decepção.

Embora a maioria da população do Egito seja muçulmana, a construção de um Estado islâmico sem prosperidade econômica não é, certamente, o que eles esperavam após a queda de Mubarak. Muitas das pessoas que um ano atrás se reuniram na Praça Tahrir, no Cairo, começam agora a constatar que no lugar do antigo ditador pode vir um novo. É a alteração da forma, sem a alteração do conteúdo. À crescente irritação dos cidadãos – o pedido de renúncia de Mursi foi assinado por mais de 22 milhões de egípcios – foi somada a força física do exército.

Lição 3: Tudo piora depois da revolução

“A lição é que não devemos levar a situação até um estado de revolução”, explica ao “Moskóvskie Nóvosti” o decano da Faculdade de Economia Mundial e Política Internacional da Escola Superior de Economia, Serguêi Karaganov. “Partamos do princípio de que uma revolução é, na maior parte das vezes, um tumulto. Um evento desses está predestinado a terminar mal, a trazer degradação à sociedade egípcia, que continuará posteriormente se degradando. E ninguém sabe até quando.”

A segunda onda da revolução trouxe consigo não só um sentimento de alívio, com a derrota da Irmandade Muçulmana no Egito, mas também problemas adicionais, sendo o mais grave uma possível ameaça de fome no país.

Lição 4: Depois do tumulto, forme um governo profissional

Os especialistas avaliam a revanche dos militares no Egito como a derrota da Primavera Árabe e da democracia islâmica. Uma coisa que se pode dizer com certeza é que o islã político lida mal com a estrutura do Estado. O principal critério de Mursi para selecionar os quadros do governo foi a lealdade, e não as competências profissionais. Por isso, sugere-se agora formar uma equipe de gestores que deverá se ocupar não da política, mas da economia do país.

Lição 5: A crise pode brotar em qualquer lugar

Com todos os erros e falhas de Mursi, convém não esquecer de que ele foi o primeiro presidente democraticamente eleito do Egito. E o fato de ter sido retirado do poder com à força não é um sinal positivo. Isso é, antes, uma consequência do crescimento do caos geral na região do Oriente Médio.

De acordo com especialistas, desse conjunto caótico nascerá um novo Oriente Médio, com uma configuração de forças completamente nova. Porém, não há nenhuma garantia de que a crescente onda de crises políticas não venha a afetar os países que fazem fronteira direta com o território sul da Rússia.

No Oriente Médio surgiu uma força chamada “rua”, que dita a sua vontade aos políticos e na qual se podem apoiar radicalmente certos grupos da elite do país. “Infelizmente, temos de conviver por décadas com o desmoronamento e reformulação do Oriente Médio, de onde chegarão ameaças de instabilidade e terrorismo, sobretudo para a Rússia”, conclui Karaganov.

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