Repressão rigorosa no Daguestão alimenta insatisfação local

Frente aos Jogos Olímpicos de Inverno 2014, forças governamentais russas lançaram grande ofensiva contra os insurgentes islâmicos neste verão. Mas muitas famílias no Cáucaso do Norte alegam ter se tornado alvos aleatórios, que, por sua vez, estimulam mais radicalismo entre os jovens.

                                

Com seis meses para o início das Olimpíadas de Sôtchi, as forças governamentais russas lançaram uma grande ofensiva contra o fundamentalismo islâmico do Daguestão neste verão. Muitas famílias de Buinaksk, no Norte do Cáucaso, que abriga uma grande base militar russa, afirmaram se tornar alvo de operações militares.

Antes de julho, as autoridades detonaram explosivos em pelo menos três casas particulares em Buinaksk. O diretor-geral de Assuntos Internos da região confirmou que as buscas dentro de casas fazem parte da grande operação contraterrorista declarada em Buinaksk no dia 1º de abril. Aparentemente, as explosões de casas foram realizadas para reforçar a repressão.

“Nenhum documento legal é apresentado para justificar as explosões”, disse à Gazeta Russa a ativista da organização de direitos humanos Pravozachita, Aisha Selimkhanova.

A campanha tem todas as características de esforços anteriores que apenas tornaram as pessoas mais radicais, garantem os analistas e observadores de direitos humanos do Cáucaso.

O conflito no Daguestão

Depois do atentado durante a maratona de Boston, os americanos descobriram que Tamerlan Tsarnaev, o suspeito tchetcheno que foi morto em uma troca de tiros com a polícia, tinha viajado para o Daguestão na primavera anterior. De repente, a região entrou novamente para o mapa internacional, embora poucos americanos realmente entendessem o conflito local.

O confronto é travado entre a polícia, que é composta em sua maioria por muçulmanos sufistas, agentes dos serviços de segurança, soldados e tropas do Ministério do Interior, vários grupos criminosos e facções islâmicas radicais. Até o final da Segunda Guerra Tchetchena, que aconteceu de 1999 de 2009, a maior parte da resistência islâmica se espalhou pelo vizinho Daguestão. Desiludidos com a corrupção e o desemprego, os jovens muçulmanos se juntaram ao maior dos vários grupos de radicais islâmicos.

Tajuddin Kurakhmaiev, um homem de cavanhaque grisalho, é engenheiro sênior na sede de distribuição elétrica de Buinaksk. Kurakhmaiev conta que seus vizinhos foram chamá-lo no trabalho na manhã de 13 de maio de 2013, com a notícia de que suas casas estavam sob cerco. Ele foi correndo para casa, que estava rodeada de veículos policiais, exigindo que seu filho de 24 anos, Zaurbek Kurakhmaiev, saísse. A polícia suspeitava que seu filho estivesse contribuindo com a insurgência islâmica.

Kurakhmaiev convenceu a polícia a colocá-lo à frente do batalhão de policiais armados para que, juntos, entrassem em casa. Ao entrar, o seu filho Zaurbek estava de pé na cozinha, desarmado. A polícia deteve o garoto e deu sequência a uma revista minuciosa pela casa, onde encontraram uma pistola registrada. Mas esse não foi o desfecho da operação especial. “Oito atiradores chegaram com ​​sacos cheios de explosivos em minha casa para explodi-la”, disse.

Kurakhmaiev conseguiu defender sua casa, e os oficiais do Serviço Federal de Segurança levaram os sacos com explosivos para longe. Kurakhmaiev procurou seu filho por três dias, e foi encontrá-lo no Comitê de Investigação regional da capital do Daguestão, Makhatchkalá, com hematomas nos pulsos e queimaduras nos pés. “Graças a Deus, apesar da tortura, o meu filho não tinha assinado uma confissão de qualquer envolvimento com o terrorismo”, acrescentou Kurakhmaiev.

Muitos pais no Cáucaso do Norte vivem com medo constante de que seus filhos se juntem à insurgência “florestal”. A floresta é um termo amplo usado para se referir aos Emirados do Cáucaso, uma organização terrorista que vem tentando se estabelecer. Em janeiro passado, Zuleikha Karanaieva, 41 anos, uma figura delicada sob um hijab preto, soube que seu filho mais novo Khan tinha se unido aos insurgentes. A polícia revistava sua casa a cada duas semanas até que, recentemente, as forças especiais pediram a todos para sair de casa. Meia hora depois, ela ouviu uma explosão. Metade da fachada estava nos ares. “Todo dia eu peço para Allah manter meu filho vivo”, disse Zuleikha em meio à casa arruinada. 

Violência gera violência 

No início deste mês, uma declaração em vídeo publicada na internet pelo comandante dos Emirados do Cáucaso, Doku Umarov, instigava seus militantes a realizar atentados durante os Jogos Olímpicos de Sôtchi, em fevereiro de 2014.

“Violência gera a violência”, dizem os moradores do Daguestão, uma república com mais de 30 grupos étnicos entre os seus 2,9 milhões de habitantes. A agência de notícias Caucasian Knot, o único meio de comunicação que tenta fornecer um relatório preciso e independente sobre a violência no Daguestão, afirma que 413 vítimas morreram em 2011 e 405, em 2012. Muitos outros foram gravemente feridos.

Em junho, as autoridades ordenaram a prisão do prefeito de Makhatchkalá, Said Amirov. Atualmente sob custódia em Moscou, ele é acusado de encomendar o assassinato do investigador público Arsen Gadjibekov.

Homens-bomba miram a polícia, os agentes do serviço de segurança, juízes e outros representantes das autoridades. Os guerrilheiros lutam para separar o Daguestão do país e transformá-lo em um Estado islâmico independente, com um sistema jurídico islâmico. Até que isso aconteça, dizem eles, também lutam para impor a lei islâmica sobre população atual. Por causa disso, várias bombas foram detonadas na primavera passada.

Medidas contraproducentes

Em 2010, o então presidente Dmítri Medvedev inspirou as negociações de paz entre os dois grupos de muçulmanos sufis e salafis, Especialistas independentes afirmaram na época que se tratava da estratégia mais sensata conduzida pelo Kremlin no Cáucaso do Norte ao longo da última década. Grupos fundamentalistas islâmicos foram parcialmente legalizados. O diálogo conduzido pelo mufti do Daguestão e líder sufista Akhmad-Khaji Abdullayev de um lado e os representantes da associação de acadêmicos salafistas chamada Ahlu-Sunna do outro lado se deu em diversas mesas redondas durante os últimos três anos. Com medo de uma guerra civil eclodir, os muçulmanos pacíficos assinaram uma resolução de paz em abril passado.

Para trazer tirar os rebeldes da “floresta” de forma pacífica, o então presidente da república, Magomedsalam Magomedov, tomou a decisão de criar comissões para trazer os insurgentes dali de volta à vida civil. Vários combatentes que se renderam e recorreram à comissão foram autorizados a voltar para casa.

A nova estratégia de ampliar a presença militar e caçar terroristas em todas as regiões do Daguestão parece contraproducente, dizem os especialistas. “Estamos preocupados que a nova política energética vai desacelerar o diálogo construtivo, não deixando espaço livre para os salafistas moderados, o que causará uma radicalização ainda maior”, disse Selimkhanova.

Ironicamente, algumas semanas antes de sua prisão, o prefeito admitiu que o terrorismo não pode ser combatido separadamente da luta contra a corrupção. “Dez Amirovs virão para tomar o seu lugar”, disse o líder sindical dos policiais e ativista de direitos humanos Magomed Chamilov. “A única solução para o terrorismo é uma grande campanha anticorrupção”, concluiu.

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