Importação de carne suína do Brasil está a prestes ser interrompida

Ao todo, Brasil importou 10% a menos de carne súina no segundo trimestre deste ano Foto: PhotoExpress

Ao todo, Brasil importou 10% a menos de carne súina no segundo trimestre deste ano Foto: PhotoExpress

Autoridades apontam defeitos sistemáticos no funcionamento da produção brasileira. País é o maior exportador de carne suína para a Rússia.

Ao longo dos primeiros cinco meses de 2013, o volume de importação da carne suína brasileira destinada ao consumo da população russa atingiu 47,9 mil toneladas, somando um total de US$ 161,7 milhões. De acordo com os dados estatísticos da Abipecs (Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína), a Rússia é o principal destino de exportação do produto, respondendo por 28,7% da quantidade total de carne suína exportada pelo Brasil.

Porém, o futuro da parceria comercial russo-brasileira se tornou incerto desde que as agências regulatórias da Rússia identificaram o estimulador de crescimento muscular ractopamina no processo de produção dos fabricantes brasileiros. “Se as avaliações das novas inspeções de produtores da carne suína brasileira não mudarem, a importação desse produto poderá ser proibida”, avisou Serguêi Dankvert, presidente do Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária (Rosselkhoznadzor), em uma entrevista na semana passada.

A última missão no Brasil foi realizada entre o final de junho e metade de julho deste ano, com o objetivo de verificar o cumprimento das exigências da União Aduaneira Eurasiática (composta pela Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão) referentes ao uso de ractopamina no processo de produção por 16 fornecedores de carne suína brasileira.

Os especialistas russos relataram que o serviço de vigilância brasileiro não tomou as medidas necessárias para corrigir suas falhas anteriores. “Os defeitos detectados ainda em 2011 e 2012 não foram completamente eliminados, apesar das garantias apresentadas pelo Ministério da Agricultura brasileiro”, lamenta Dankvert. “Por exemplo, na última inspeção, os fornecedores não conseguiram apresentar os resultados de todos os testes de matéria-prima e produto pronto que seguem os índices de segurança usados pela Rússia e pela União Aduaneira.”

“Há uma série de defeitos sistemáticos no funcionamento da agência veterinária brasileira, em múltiplas situações”, afirmou uma fonte do Rosselkhoznadzor à Gazeta Russa. Umas dessas falhas se refere ao programa nacional de análise de qualidade, que exige testes com um número de amostras de matéria-prima e produto pronto inferior à quantidade necessária para garantir a segurança de todo o volume do produto fornecido. Além disso, nos últimos anos, as instalações e ambientes dos fabricantes inspecionados não foram submetidos ao monitoramento do conteúdo de mercúrio, pesticidas, dioxina e radionuclídeos.

Os resultados das inspeções anteriores apontaram contaminação da carne produzida com listeria, salmonella, bactérias Escherichia coli e antibióticos do grupo das tetraciclinas.
Este ano, o conteúdo residual de ractopamina, segundo Dankvert, será verificado em 30 amostras da carne de vaca e na mesma quantidade de amostras da carne suína da origem brasileira. “No momento, o Brasil possui 29 milhões de suínos, portanto, não há nenhuma garantia de segurança desse tipo de carne em termos de ractopamina”, acredita especialista.

Por ordem da Rosselkhoznadzor, estabelecida em dezembro de 2012, as agências veterinárias brasileiras, mexicanas, americanas e canadenses devem anexar os comprovantes de ausência de ractopamina, uma substância proibida em outros 159 países, nos certificados emitidos para exportação dos seus produtos. Inclusive, a descoberta de ractopamina nos intestinos do gado brasileiro levou ao embargo à importação do produto desde abril deste ano.

As novas medidas adotadas pelo governo russo em combinação com a suspensão temporária de importação da carne suína brasileira emitida pelas autoridades ucranianas, em vigor entre março e junho deste ano, reduziram o volume de exportação da carne suína brasileira até 240,5 mil toneladas – 10% a menos do que no mesmo período do ano passado.

Em entrevista à Gazeta Russa,
Roberto Azevêdo, diplomata brasileiro que assumirá o cargo do diretor da Organização Mundial de Comércio a partir de ° de setembro, afirmou que, considerando os embargos temporários à importação da carne nacional anunciados anteriormente, o Brasil não apresentou à OMC nenhuma queixa referente à decisão do governo russo. “Preferimos resolver nossos conflitos sem ajuda de terceiros, e espero que as autoridades russas e brasileiras encontrem a melhor solução para ambas as partes”, afirmou diplomata.

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