Preço do café despenca enquanto seu consumo cresce na Rússia

Safra do Brasil para o ano agrícola 2013-2014 foi apontada como uma das ameaças que estimula a atual queda Foto: AP

Safra do Brasil para o ano agrícola 2013-2014 foi apontada como uma das ameaças que estimula a atual queda Foto: AP

As expectativas de uma grande safra de café derrubaram os preços até o menor valor observado em 4 anos. O consumo da bebida na Rússia está crescendo paulatinamente, mas no atual ritmo não será suficiente para ajudar a conter a queda dos preços.

Na metade deste ano, os preços do café caíram para o nível mais baixo dos últimos 4 anos. As expectativas de que o tempo seco no Vietnã, principal produtor da variedade “Robusta”, iria reduzir a produção de café no próximo ano agrícola não se concretizaram. Com o início das chuvas na região, os preços desabaram. Algumas razões globais explicam a queda dos preços.

Em primeiro lugar, o prognóstico para a produção de café no mercado mundial, associado a uma previsão de aumento das safras do Vietnã e da Colômbia, está exercendo pressão sobre os preços. Pela previsão atualizada do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA na sigla em inglês), serão produzidas cerca de 146 milhões de sacas de café no ano agrícola de 2013-2014, enquanto o consumo será de aproximadamente 142 milhões de sacas. Além disso, o dólar vem se valorizando em relação à moeda dos países produtores de café, o que torna as exportações mais rentáveis em comparação com as vendas no mercado interno do produtor e a consequente redução dos preços de exportação.

A analista da consultoria Investkafe, Daria Pitchugina, informou que o Brasil também está dando a sua parcela de contribuição na queda dos preços, já que as expectativas para sua colheita também são altas. O governo brasileiro entende a ameaça da queda dos preços de um produto de exportação importante e está elevando o preço de compra do café para adquirir a mercadoria dos produtores.

A Rússia continua a ser um dos países onde a demanda por café cresce de forma constante, já que não toda seu consumo se baseia na importação. Segundo Andrei Filkov, diretor do departamento de avaliação e modelização financeira da empresa de consultoria FCG, a demanda por café na Rússia é de cerca de 5 milhões de sacos por ano e, em termos reais, cresce a uma taxa de 5%.

Além disso, ultimamente, o preço do café na Rússia depende não só da conjuntura mundial ou da relação entre o rublo e o dólar. Outro fator aqui foi a diminuição da popularidade do café instantâneo de baixo custo e um crescente interesse pelo produto natural  e mais caro. A expectativa é que até 2014 o café será consumido diariamente por mais de um terço dos russos.

Mudança de hábito

Segundo os dados do grupo de mídia RBC, a Rússia tinha 80 redes de cafeterias e cafés-confeitarias no final de 2012. Ao calcular por unidades, chega-se ao número de 5.212 cafeterias. As  taxas de crescimento em termos anuais atingem os 30%, mas elas não podem ser comparadas com os indicadores pré-crise, quando o número de tais estabelecimentos aumentava a uma taxa de 40% ao ano.

“No todo, os cafés, como outros estabelecimentos ligados a alimentação pública na Rússia, estão deixando de ser um elemento de luxo: cerca de 60% dos russos frequentam regularmente os cafés, principalmente para encontros com amigos. Em Moscou e em São Petersburgo a saturação do mercado chega a 70%”, expõe Filkov.

A característica distintiva do mercado russo de casas de café é a ausência de um segmento de baixo custo”. Até 93% do mercado é controlado pelo segmento de médio custo, como as redes "Chocolate Girl", "Coffee House" e Starbucks.

“O consumo de café na Rússia está crescendo graças às tendências da moda entre a população urbana, do tipo ‘café para viagem”, diz o analista sênior do grupo MFH FIBO, Anatóli Voronin. Mas ele não espera saltos bruscos de consumo porque o crescente interesse da população em relação a uma alimentação saudável se contrapõe à tendência de aumento do consumo de café. “Existirá um crescimento, mas ele será expresso por uma porcentagem de 1 dígito, de 3 a 7% ao ano”, supõe Voronin.

“Na maioria das vezes, as cafeterias são um lugar de entretenimento para aqueles que têm um tempo livre, é um ponto de encontro, uma oportunidade de usar o Wi-Fi gratuito. Elas ocupam o nicho dos restaurantes acessíveis, e não constituem uma cultura do consumo de café”, continua o analista. “Na maioria das cafeterias, a proporção de bebidas constitui apenas de 15% a 40% da conta final, embora existam redes onde essa proporção pode chegar até 80%.”

Ao longo dos últimos anos, gigantes da indústria como Starbucks e Costa chegaram à Rússia, assim como muitas marcas nacionais similares. No entanto, as mudanças afetaram principalmente as cidades grandes. “Nas cidades com um pequeno número de habitantes esse mercado não se desenvolveu”, observa Pitchugina.

O consumo de café na Rússia está seguindo a trilha do Ocidente. No início dos anos 1980, nos EUA, o café instantâneo também ocupava posições de liderança, mas depois de 10 anos as parcelas do consumo de café solúvel e as do café em pó ou em grãos se equipararam.

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