Previsões pessimistas para Afeganistão pós-retirada da Otan

"Três em cada dez recrutas do Exército Nacional Afegão fogem do serviço  militar, morrem ou são feridos em combates ou feitos prisioneiros" Foto: AP

"Três em cada dez recrutas do Exército Nacional Afegão fogem do serviço militar, morrem ou são feridos em combates ou feitos prisioneiros" Foto: AP

Países da OTSC se preparão para agravamento da situação no país e possível tomada de regiões vizinhas, como o Tadjiquistão.

Os países integrantes da aliança militar OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva), composta por Rússia, Belorus, Cazaquistão, Armênia, Quirguistão e Tadjiquistão, estão se preparando para um agravamento da situação no Afeganistão após a retirada das tropas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) prevista para 2014.

O tema foi pauta de uma reunião informal dos ministros das Relações Exteriores e da Defesa e dos secretários dos conselhos de segurança dos países da OTSC em Bishkek, capital do Quirguistão, na última segunda-feira (27).

"Quanto mais a retirada da Força Internacional do Afeganistão se aproxima, mais o país toma espaço na agenda internacional", disse o embaixador da Rússia na OTSC, Ígor Liakin-Frolov, às vésperas da reunião. 

Rússia aumenta potencial de combate no Quirguistão

Na última segunda-feira (27), o ministro da Defesa russo, Serguêi Choigu, ordenou a realização de uma série de medidas para reforçar a base área russa em Kant, no Quirguistão, e a conclusão, o mais rápido possível, de obras inacabadas em suas instalações.

A decisão foi tomada logo após o anúncio de que o Centro de Trânsito em Manas, uma instalação militar norte-americana localizada no Aeroporto Internacional de Manas, próximo à capital quirguiz Bishkek, irá encerrar operações.

A base russa de Kant poderá reforçar o potencial de combate da Força Conjunta de Reação Rápida da OTSC. O Quirguistão, porém, considera  exagerada a ameaça do Taleban na região.

A base aérea de Kant foi fundada em 2003 para prestar apoio à Força Conjunta de Reação Rápida da OTSC. Em 2009, a Rússia e o Quirguistão assinaram um acordo de arrendamento da base por 49 anos. Segundo o documento, Moscou deve pagar anualmente ao governo de Bishkek uma quantia de mais de US$ 4,5 milhões.

Desde que assumiu a pasta da Defesa, em novembro de 2012, Serguêi Choigu,  começou a expandir a presença militar russa em ex-repúblicas soviéticas.

Publicado originalmente pelo Vziglad

"É difícil dizer o que vai acontecer no futuro. A tensão pode aumentar, enquanto as ameaças provenientes do Afeganistão podem se agravar e tomar as regiões vizinhas, inclusive os países da OTSC", completa.

Segundo fonte do jornal russo Kommersant, os especialistas da OTSC têm previsões diferentes para a situação no Afeganistão após a retirada da maior parte do contingente militar da Otan e das tropas norte-americanas. A previsão mais realista é negativa, segundo o secretário-geral da OTSC, Nikolai Bordiuja.

O representante especial da presidência para o Afeganistão e diretor do Departamento de Ásia II do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Zamir Kabulov, tem opinião semelhante.

"Se o desafio de aumentar o potencial de combate das forças de segurança nacionais do Afeganistão não for resolvido, a influência dos extremistas no país irá aumentar, e como consequência pode haver confrontos de toda a espécie, inclusive uma guerra civil, e a divisão étnica do país", disse Kabulov.

A previsão sombria decorre da atual situação no país. "Segundo fontes norte-americanas, apenas 7% das unidades do exército e 9% das unidades da polícia do Afeganistão possuem habilidades suficientes para atuar sozinhas ou com apoio mínimo da força internacional", disse Kabulov.

"Três em cada dez recrutas do Exército Nacional Afegão fogem do serviço  militar, morrem ou são feridos em combates ou feitos prisioneiros. Nos últimos três anos, o número de desertores ultrapassou para 63 mil, ou seja, um terço do contingente do exército", adiantou  Kabulov.

Entre outros temas abordados em Bishkek, estiveram também as ameaças enfrentadas ainda hoje por alguns países vizinhos do Afeganistão - só o Tadjiquistão tem mais de 1,3 mil km de fronteira comum com o país. Entre as mais graves, estão o fluxo de drogas, o risco de invasão de unidades paramilitares treinadas em território afegão e de disseminação de ideias religiosas radicais, apoio aos fundamentalistas locais na Ásia Central e contrabando de armas. Depois de 2014, todos esses problemas podem se agravar ainda mais.

Mesmo assim, os países da OTSC não estarão presentes militarmente no Afeganistão, revelou uma fonte da delegação russa. Outros tema importante da reunião foi a formação e treinamento da Força Conjunta de Reação Rápida da OTSC.

 

Publicado originalmente pelo Kommersant

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