Rússia vai abordar questão síria na cúpula do G8

Kremlin espera que uma das questões-chave do encontro do G8 seja a Síria Foto: Kommersant

Kremlin espera que uma das questões-chave do encontro do G8 seja a Síria Foto: Kommersant

Prioridade para Moscou não será a agenda econômica, mas negociações à margem do tema oficial.

A cúpula do G8, que inicia em 17 de junho, em Lough Erne, na Irlanda do Norte, será formalmente focada nos problemas da economia global, mas o principal tema informal será, sem dúvida, a Síria.

Desde o início do ano, fontes diplomáticas ouvidas pela Gazeta Russa tinham dúvidas se seria Pútin, que voltou ao Kremlin depois de uma pausa de quatro anos, ou o primeiro-ministro Dmítri Medvedev quem participaria do encontro. Pútin decidiu comparecer.

Será a primeira vez em seis anos que Moscou será representada por Pútin na reunião de cúpula do grupo.

Segundo uma fonte da Gazeta Russa no Kremlin, Moscou está interessada, mais do que nunca, nos esforços coletivos para a solução de questões internacionais, inclusive devido ao fato de que, em setembro deste ano, a Rússia sediará, em São Petersburgo, a Reunião de Cúpula do G20. Em 2014, será transferido para a Rússia o bastão da cúpula do G8.

Síria

Mesmo com o Reino Unido afirmando que, sob a sua presidência, os problemas da economia global serão o tema principal na reunião (são eles que aparecem no artigo com a programação do evento que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, publicou no “Wall Street Journal"), funcionários russos apontam que a prioridade para Moscou não será a agenda oficial, mas as negociações à margem do tema principal.

O Kremlin espera que uma das questões-chave seja a Síria. "As reuniões de Cúpula do G8 há muito assumiram o caráter de eventos sociais em grande escala, nos quais o importante não é o que foi anunciado, mas sim o que realmente está sendo discutido, principalmente em encontros bilaterais", confirma Fiódor Lukianov, editor-chefe da revista “Rússia na Política Global”, bem familiarizado com o clima vigente na administração do presidente.

Desde o momento em que começou o conflito entre a oposição e o regime de Bashar al-Assad, a Rússia, juntamente com a China, por meio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, bloqueou todas as tentativas do Ocidente de intervir no conflito.

De acordo com os interlocutores da Gazeta Russa, a posição intransigente de Moscou pode ser explicada por alguns fatores. Em primeiro lugar, a Rússia e, em particular, Pútin, se opõem à interferência da comunidade internacional nos assuntos de países autônomos, posição essa conhecida desde 2003, quando George Bush começou a guerra no Iraque.

Em segundo lugar, a questão da Líbia serve como precedente negativo para Moscou. Em terceiro lugar, a Rússia tem interesses comerciais e militares importantes na Síria, incluindo os contratos de fornecimento de armas e o pequeno porto de Tartus.

No entanto, nas últimas semanas, as posições da Rússia e do Ocidente começaram a se aproximar. Em abril, Tom Donilon, assessor do presidente dos EUA em questões de segurança, visitou Moscou. Em seguida, veio o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry. Recentemente, Pútin discutiu “o problema da Síria” com Cameron em Sôtchi.

Como resultado dessas conversações, decidiu-se realizar uma conferência de paz sobre a Síria em Genebra. A Rússia convida a oposição da Síria a apoiar essa iniciativa após os encontros entre seus representantes na Turquia e na Espanha.

“É importante que os participantes das duas reuniões manifestem um apoio claro à iniciativa russo-americana de implementar o Comunicado de Genebra”, advertiu Serguêi Lavrov, Ministro dos Negócios Estrangeiros russo.

De acordo com fontes da Gazeta Russa, nessas condições, a tarefa mínima que a Rússia terá que realizar na Reunião de Cúpula do G8 será conseguir o apoio de todos os participantes para a ideia da Conferência em Genebra e a inclusão desse item no relatório final dos líderes.

A tarefa máxima será a harmonização de um plano comum de ação para evitar uma guerra civil de grandes proporções na Síria. Mas, nesse ponto, o Kremlin espera encontrar dificuldades.

Em primeiro lugar, Moscou ainda considera Assad um presidente legítimo e tem preocupações em relação à oposição Síria. Em segundo lugar, as autoridades russas acreditam que Arábia Saudita, Catar e Turquia estão fazendo o seu jogo na Síria, portanto, sem coagi-los a seguir uma linha comum com o G8, será difícil conseguir um progresso.

Fonte de muitas dúvidas no Kremlin é a iniciativa divulgada pelo primeiro-ministro britânico David Cameron de adotar um padrão uniforme para a divulgação de todos os pagamentos realizados pelas empresas captadoras de recursos a favor dos governos.

De acordo com a opinião de alguns funcionários, a iniciativa poderia ser uma ferramenta contra empresas da Rússia ou da China. Por isso, o acordo requer uma avaliação cuidadosa. Com muito mais entusiasmo é assimilada a ideia da criação de um padrão para o intercâmbio de informações entre as autoridades fiscais de diversos países.

A busca de soluções para a saída da crise da zona do euro também consistirá em um tema importante, especialmente à luz dos recentes acontecimentos no Chipre.

“A Alemanha, aparentemente, tem algum tipo de plano próprio e bem delineado, que, por enquanto, não divulgará, mas que já está começando a implementar. Por isso, é importante para a Rússia entender o que irá acontecer de uma maneira geral na União Europeia e, mais especificamente, na zona do euro", afirma Fiódor  Lukianov, editor-chefe da revista “Rússia na Política Global”.

Lukianov observa que apesar de o encontro de junho não contar com  representantes da Arábia Saudita e do Catar, isso não impedirá a discussão do problema dentro do círculo do G8.

Depois de Magnítski

No Kremlin, as maiores esperanças estão sendo depositadas nas negociações russo-americanas. Pútin e Obama realizarão uma reunião bilateral, que será uma preparação para o seu diálogo em São Petersburgo.

O presidente do Centro de Estudos Políticos da Rússia, Vladímir Orlov, afirma que "Obama tem disposição e vigor para desenvolver um diálogo sobre assuntos estratégicos e econômicos com a Rússia. Provavelmente, o ponto crítico nas relações bilaterais já foi superado".

Realmente, após um período de frieza no ano passado, está se delineando uma tendência positiva.

Temas como a "A lista de Magnítski”, “A lei de Dima Iakovlev” e as críticas sobre as relações entre o governo e a oposição podem passar para um segundo plano no dia 17 de junho.

O mais provável é que a discussão em Loch Erne seja construída em torno das questões que Obama esboçou em uma carta a Pútin e entregue por Donilon.

Nesse caso, o tema dominante será a segurança nuclear, a qual Obama tem intenção de tornar uma das prioridades de seu segundo mandato. De acordo com a carta, em São Petersburgo, Obama espera anunciar o início de novas negociações com Moscou para a redução de armas nucleares. O tom deste diálogo será definido na Reunião de Cúpula do G8.

Supõe-se que também devem ser abordadas outras questões em matéria de segurança. Em particular, o programa Nunn-Lugar, segundo o qual, desde o início dos anos 1990, estão sendo eliminados os excedentes de armas nucleares e armas químicas da Rússia com recursos dos EUA. O programa expira na metade de julho deste ano.

Orlov acredita que na Irlanda do Norte “serão apresentados documentos que irão criar os novos quadros jurídicos e políticos  para a cooperação, vantajosos tanto para os Estados Unidos, como para a Rússia, nos quais ambos os lados serão parceiros com direitos iguais, cada qual contribuindo para a causa da não-proliferação".

Essa possibilidade também é confirmada por fontes ouvidas pela Gazeta Russa,  enfatizando, no entanto, que a pressa nessa questão não ajudará a causa.

"Temos a intenção de trabalhar ativamente de acordo com a ordem do dia proposta e não ficar torpedeando iniciativas, a menos que seja absolutamente necessário. Isso é especialmente importante, tendo em conta o fato de que em setembro nós vamos receber o G20 e estamos interessados na obtenção de decisões concretas”, conclui a fonte de dentro do governo.

Outro tópico relacionado à segurança é o tema do escudo antimíssil. Washington propõe assinar um acordo executivo sobre o não direcionamento do sistema contra a Rússia, mas ele seria válido apenas durante a administração de Obama. Moscou exige garantias mais confiáveis.

“As propostas dos EUA satisfazem em 30% a 40% os interesses russos. Se forem estendidas até 50%, já existirá uma base para o diálogo. O impulso para as negociações pode ser dado por Obama e Pútin na Irlanda do Norte”, enfatiza Orlov.

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