“Fixar prazos para a solução do problema sírio é contraproducente”

Chanceler russo Serguêi Lavrov alerta para as limitações implícitas na próxima conferência sobre a Síria Foto: Rossiyskaya Gazeta / Serguêi Zavrazhin

Chanceler russo Serguêi Lavrov alerta para as limitações implícitas na próxima conferência sobre a Síria Foto: Rossiyskaya Gazeta / Serguêi Zavrazhin

Em entrevista ao jornal “Rossiyskaya Gazeta”, o chanceler russo Serguêi Lavrov falou sobre a preparação de uma conferência internacional sobre a Síria, problemas da segurança no Ártico e a resposta russa à mensagem do presidente dos EUA, Barack Obama, sobre a dificuldades na relações bilaterais entre os países.

Rossiyskaya Gazeta: O senhor não acha que a próxima conferência sobre a Síria pode ser uma armadilha para a Rússia? Em caso de fracasso, os norte-americanos podem dizer: “Vejam só, a Rússia insistia em realizar negociações de paz. Fizemos isso, mas nada aconteceu. Agora vamos agir do nosso jeito”.

Serguêi Lavrov: A armadilha pode existir se agirmos com pressa. Em primeiro lugar, precisamos obter o consentimento das principais partes interessadas. O governo sírio disse que está pronto para isso e, em princípio, reagiu de forma construtiva, embora duvide que a oposição deseja buscar acordos sem condições prévias, conforme previsto pelo Acordo de Genebra.

A conferência deve ser presenciada por todos os grupos da oposição síria, inclusive aqueles que atuam fora do país. Estamos trabalhando nesse sentido, enviando sinais a todos os grupos oposicionistas. Em alguns deles, temos uma influência maior; em outros, menor. Outros ainda estão sob a influência do Ocidente, países do Golfo e da Turquia. Portanto, deve haver uma “divisão do trabalho”.

R.G.: Mas há outras partes interessadas como, por exemplo, o Irã, sem as quais a conferência sobre a Síria dificilmente poderá ser bem-sucedida...

S.L.: Parece que todos estão de acordo com a tese de que aqueles que estiveram presentes na reunião de Genebra, em junho de 2012, serão automaticamente convidados a participar da conferência. No entanto, o Irã e a Arábia Saudita faltaram à reunião de Genebra no ano passado. A participação iraniana foi contestada pela então administração Barack Obama e a Arábia Saudita não foi convidada como “contrapartida” da ausência do Irã. Consideramos isso como uma decisão infantil e falta de seriedade em relação ao problema. Devemos decidir entre assegurar a representatividade total para exercer influência sobre todas as partes sírias ou sacrificar o sucesso da conferência levando em conta ambições e ofensas particulares.

R.G: O senhor acredita ser possível acabar com o impasse do problema sírio em poucos dias de trabalho da próxima conferência?

S.L.: Alguns de nossos parceiros, inclusive [o secretário de Estado americano] John Kerry, acreditam que alguns dias ou uma semana seriam suficientes para isso. Em minha opinião, isso seria contraproducente. As conferências que conseguiram estabelecer a paz em algumas regiões duraram meses, para não dizer anos. Claro que não quero que a mesma coisa aconteça no caso da Síria. Mesmo assim, fixar prazos para a solução do problema sírio é contraproducente.

R.G.: Quando saberemos até onde a oposição síria está disposta a ir?

S.L.: Nesta quinta-feira, haverá duas conferências: uma em Istambul, onde a oposição síria se reunirá sob a supervisão da   e das Forças Revolucionárias, e outra em Madri. Nesta mesma semana, o núcleo dos “Amigos da Síria” se reunirá para discutir a iniciativa russo-norte-americana. Devemos esperar por um sinal da oposição, que sempre tem sido contra negociações sem condições prévias. Se o sinal for positivo, então poderemos pensar sobre a lista de participantes da conferência, seu regimento, regras a seguir pelos atores externos etc. Só depois disso poderemos anunciar a data do evento.

R.G.: Especialistas dizem que as divergências entre a Rússia e os EUA quanto à Síria se resumem uma resposta para a pergunta-chave: o primeiro passado deve ser a renúncia do presidente sírio, Bashar al-Assad, ou as negociações de paz? Em seus últimos quatro encontros com John Kerry, os senhores conseguiram chegar a acordo sobre esse assunto?

S.L.: A iniciativa russo-americana de 7 de maio não estipula nenhuma pré-condição.

R.G.: Também é esperado que, em um futuro próximo, o presidente dos EUA, Barack Obama, receba uma resposta do presidente da Rússia, Vladímir Pútin, à sua mensagem sobre os problemas bilaterais entre os dois países. Quais são as expectativas?

S.L.: Não podemos pular etapas. Barack Obama enviou uma carta a Vladímir Pútin, e o presidente russo a leu. Em sua resposta, ele vai expor sua visão dos problemas-chave de nosso relacionamento bilateral, defesa antimíssil, estabilidade estratégica e de todos os fatores que dizem respeito a tal questão. Depois disso, basta aguardar pela reação norte-americana.

R.G.: Nos dias 14 e 15 de maio, o senhor esteve na cidade sueca de Kiruna para participar de uma reunião do Conselho do Ártico. A Rússia tem sido criticada pelos países ocidentais por tentar supostamente lançar uma corrida armamentista na região. Qual é sua resposta a essas acusações?

S.L.: Os países com fronteira no Norte devem cuidar de sua segurança na região, assim como em qualquer outra parte de seu território nacional. Esse é um axioma. Independentemente de seus vizinhos, é preciso pensar na segurança, inclusive militar. É ingênuo pensar que esse princípio não funciona no Ártico. Paralelamente, nossa estratégia para o Ártico prevê a mais ampla e intensa cooperação internacional.

 

Publicado originalmente pela Rossiyskaya Gazeta

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