Rússia pode retornar ao Afeganistão

Crianças brincam sobre restos de tanque soviético em Herat, no oeste do Afeganistão Foto: AFP / East News

Crianças brincam sobre restos de tanque soviético em Herat, no oeste do Afeganistão Foto: AFP / East News

Autoridades do Ministério da Defesa russo vão se reunir com representantes da Otan para discutir a possibilidade de criar bases para manutenção de equipamento militar no Afeganistão. Se a ideia for aprovada, será a primeira vez desde 1989 que os soldados russos voltariam ao país. Paralelamente, especialistas preveem a restauração da influência do Kremlin na região.

O chefe do Departamento para Cooperação Militar Internacional do Ministério da Defesa, Serguêi Kochelev, declarou na última quarta-feira (3) que as autoridades russas e os representantes da OTAN irão discutir a criação de bases para manutenção de armamento e equipamento militar no Afeganistão durante a Conferência Internacional sobre Aspetos Políticos e Militares da Segurança Europeia, que acontecerá em Moscou nos dias 23 a 24 de maio.

“A manutenção dos equipamentos militares afegãos continua a ser uma tarefa importante”, disse Kochelev, ao ressaltar que a situação local após a retirada das tropas da Otan, em 2014, poderia ter um impacto negativo sobre a segurança da Rússia e de outros países europeus. 

Segundo Aleksandr Gruchko, representante permanente da Rússia na Otan, os diplomatas russos também querem ampliar a cooperação com a Aliança no Afeganistão depois que a Força Internacional de Assistência para Segurança da Otan (Isaf, na sigla em inglês) se retirar do país.

“Não descartamos novas áreas de cooperação [com a Otan] no Afeganistão. Tudo vai depender da presença das missões no país depois de 2014 e das tarefas que ainda precisam ser concluídas no Afeganistão”, afirmou Gruchko à agência de notícias RIA Nóvosti.

O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, declarou recentemente que a retirada das tropas ajudará a aumentar a segurança. “Isso ajudará a começar, pela primeira vez, as negociações diretamente com Talibã”, disse Karzai. Acredita-se que tais negociações possam ser realizadas no Qatar, que recentemente recebeu a primeira “missão oficial do Talibã”.

O ex-secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, disse também que as autoridades do Afeganistão estão garantindo a segurança de 75% da população do país.

“Eles estão cumprindo as funções que foram determinadas no ano passado [durante a cúpula da Otan] em Chicago”, disse Panetta. “As forças afegãs estão preparadas para assumir a liderança e a responsabilidade pela segurança do país. No entanto, precisamos de um compromisso para continuar a desenvolver forças afegãs depois de 2014”, completou. 

Influência russa

De acordo com o coronel Anatóli Tsiganuk, especialista do Centro de Previsões Militares e membro do Conselho Civil do Ministério da Defesa da Rússia, a intervenção russas nos assuntos internos do Afeganistão é uma ação obrigatória.

“Os norte-americanos deixarão cerca de 30% de seus equipamentos no país e é preciso fazer manutenção desse aparato. Além disso, muitos dos equipamentos usados atualmente são russos ou soviéticos e precisam ser consertados”, disse Tsiganuk ao jornal “Vzgliad”.

A comunidade internacional de especialistas militares mostra preocupação com a iniciativa dos EUA de deixar seus equipamentos em países da Ásia Central.

“Se os equipamentos permanecerem, isso significa que um certo número de especialistas americanos também ficarão na região”, justifica Tsiganuk

Vadim Kozúlin, professor da Academia de Ciências Militares, acredita que a Rússia não deve voltar ao Afeganistão.

“A maior parte de equipamentos russos fica no Afeganistão desde a era soviética. Tem boa qualidade e os pilotos afegãos estão familiarizados com equipamentos russos”, diz Kozúlin. “Os helicópteros russos adquiridos pelo Afeganistão hoje são fáceis de operar e conhecidos pela maioria dos pilotos locais.” 

Ainda assim, Kozúlin sugere que a influência de Moscou nessa região não deve aumentar pelo possível retorno de especialistas russos ao Afeganistão, mas por causa de fatores geopolíticos. 

“O aumento da influência é inevitável. Depois da saída dos americanos, a União Europeia e os EUA vão perder o interesse na região. Logo que as tropas saírem, toda a responsabilidade cairá ao países-vizinhos que são nossos aliados da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), como, por exemplo o Uzbequistão”, acrescenta o especialista. “O jogo americano logo acabará, e é hora de começar o nosso próprio jogo e assumir a responsabilidade.”


Publicado originalmente pela revista International Vzgliad

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