“Segurança da informação é primordial”

Foto: Kommersant

Foto: Kommersant

Secretário-geral da OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva) fala sobre relações com a Otan e resistência às ameaças internas e externas.

Há um ano, a OTSC, organização composta pela Armênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia e Tadjiquistão, fez um pronunciamento apelando à Otan para que fossem estabelecidas relações oficiais.

Em entrevista ao jornal “Kommersant”, o secretário-geral da OTSC, Nikolai Bordiuja, explicou por que a Aliança ocidental não respondeu à proposta e falou sobre as novas medidas assumidas para resistir às ameaças internas e externas.

Kommersant: Alguns membros da Otan não são contra o estabelecimento de uma cooperação formal entre a Aliança e a OTSC, mas essa ideia é rejeitada pelos líderes da Aliança ocidental. Como o sr. vê essa questão?

Nikolai Bordiuja: Não me incomoda de modo algum. O problema das relações com a Otan não é um tema vital para nós. Somos uma organização autossuficiente. Temos uma ampla frente de trabalho, programas e iniciativas que implementamos tendo em vista os interesses dos nossos Estados.

Nós propusemos à Otan o trabalho em conjunto porque vemos que os desafios com os quais se deparam os países membros da OTSC estão em sintonia, ou são praticamente idênticos, aos enfrentados pelos membros da Otan.

Vamos tomar como exemplo o Afeganistão. A Otan está no interior do Afeganistão e nós, no perímetro de suas fronteiras. Poderíamos coordenar os nossos esforços pelo menos em relação a problemas, como o narcotráfico, afinal, ele acaba alcançando a Europa de qualquer maneira. Mas, por enquanto, eles não amadureceram para isso. 

Afeganistão pós-Otan

Na próxima terça-feira (2), cientistas políticos e especialistas dos países-membros da OTSC estarão reunidos na conferência “OTSC e as questões relacionadas à garantia da segurança na Ásia Central”, em Bishkek, para discutir a garantia de segurança nos países da região da Ásia Central após a saída das tropas da Otan no Afeganistão.

K.: Por quê?

N. B.: Basta ler na página do WikiLeaks os telegramas do Departamento de Estado dos EUA. Está tudo claro lá. “O irmão mais velho” não permite, os outros se submetem.

 

K.: A segurança cibernética está se tornando um dos temas-chave para a Otan. A Aliança está desenvolvendo uma estratégia própria nessa esfera. Tanto que, na Estônia, estão simulando guerras cibernéticas e alguns dos países da organização estão desenvolvendo armas cibernéticas de ataque. Isso não preocupa a OTSC?

N.B.: Atualmente, a segurança da informação é uma questão primordial. Não há necessidade de tropas nem de uma quantidade enorme de armas para desestabilizar o ambiente em qualquer país. Pode-se simplesmente apontar para ele os seus recursos de informação e abalar a sua situação através da influência exercida sobre a opinião pública.

Esse instrumento é muito eficaz, como demonstrou a prática nos últimos tempos. Como começou a Primavera Árabe? A partir da influência exercida pela informação sobre a população. Por isso, compreendendo que essa esfera é fundamental para a garantia da segurança coletiva, já estamos nos ocupando dela há alguns anos.

K.: O senhor disse que a Primavera Árabe foi estimulada pelo exterior. Mas quem a inspirou?

N.B.: Os diferentes meios de informação são utilizados por diversas forças: pelas organizações extremistas, estruturas religiosas ou, simplesmente, por organizações criminosas. Também por países específicos que almejam atingir seus objetivos políticos por meio do uso de tecnologias da informação.

K.: A OTSC irá desenvolver tecnologias cibernéticas de ataque?

N.B.: Não, esse tema não está em discussão. Estamos falando de defesa; o nosso bloco só está preocupado em garantir a segurança dos Estados.

A OTAN tem um status um pouco diferente. Nós não nos posicionamos como uma organização global. Não almejamos, como a Otan, participar de operações no Afeganistão ou na Líbia, ou seja, além dos limites dos países-membros.

K.: Há poucos dias, foi criada na OTSC uma Associação Analítica reunindo centros de análises de informação. Quais serão suas funções?

N.B.: Fazem parte das obrigações da OTSC as questões relativas à análise da situação, dos riscos e das ameaças, assim como a elaboração de medidas preventivas que não permitam a esses desafios se tornarem acentuados. Desenvolvemos um sério trabalho analítico no âmbito da Secretaria, mas nem sempre esses esforços são suficientes. Gostaríamos de receber informações de outras fontes para que pudéssemos avaliar as situações de maneira mais objetiva.

Por isso, sugerimos aos líderes de uma série de centros de análises dos países-membros da OTSC que passassem a fazer parte dessa estrutura. A ideia é promover a troca de informações, realizar encontros periódicas e discutir os temas que preocupam a todos.

K.: Mas eles estão focados nas ameaças externas?

N.B.: Não. Tudo que diz respeito à segurança nos interessa, independentemente da fonte das ameaças, seja ela externa ou interna. Outra coisa é como reagir a essas ameaças e decidir se vale a pena conectar a OTSC a isso. Existem algumas coisas que são proibidas para nós. Em primeiro lugar, estão os processos políticos internos. Apesar disso, temos o dever de tomar conhecimento deles, assim como devemos fazer prognósticos em relação à evolução de determinado cenário.

 

Publicado originalmente pelo Kommersant

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.