“Cipriotas preferem os russos à Comissão Europeia"

Foto: Reuters

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Economista acredita que negociação com a Rússia poderia assumir especial relevância no futuro econômico do Chipre.

Preocupadas com as consequências da crise no Chipre, as autoridades estão reunidas no país e o ministro das Finanças cipriota, Michael Sarris, e o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, permanecem em Moscou procurando uma solução para a crise financeira que assola a ilha.

Na última terça-feira (19), o parlamento cipriota rejeitou a proposta de aplicação de um imposto sobre os depósitos bancários no país, uma das medidas solicitadas pelos credores internacionais para a concessão de um resgate financeiro internacional.

A recusa do parlamento complicou ainda mais as negociações sobre o futuro financeiro do Chipre, e os bancos do país, que prontamente suspenderam suas atividades, não deverão voltar à ativa antes da próxima semana.

Mesmo assim, o Banco Central Europeu definiu que o Chipre terá até segunda-feira da semana que vem para levantar cinco bilhões de euros com o objetivo de acordar um pacote de resgate financeiro.

Em entrevista ao jornal russo “Kommersant”, o sócio-gerente da empresa de auditoria russa Korpus Prava, Artiom Paleev, falou sobre a atual situação econômica e as perspectivas do Chipre.

Kommersant: Onde os cipriotas e visitantes sacam dinheiro se os bancos tem atividades suspensas e os caixas eletrônicos também não estão funcionando?

Artiom Paleev: Os caixas eletrônicos estão funcionando. O Banco Central tem reservas de caixa suficientes para não afetar a população. Os bancos estão com as atividades suspensas, mas os caixas eletrônicos estão funcionando normalmente.

K: Você acredita que os bancos cipriotas podem não reabrir as portas?

A.P: Claro que não. No entanto, poderão permanecer com as atividades suspensas ao longo desta semana.

K.: Isto é, podem não reabrir as portas nesta quinta-feira?

A.P. Exatamente.

K.: Existem previsões de como vai decorrer a nova rodada de negociações e qual será o resultado do futuro encontro entre o presidente do Chipre e a chanceler alemã?

A.P.: No Chipre, a principal fonte de informação são os rumores que circulam no fórum. Desde o último domingo, não há nenhum documentos nem declarações oficiais. Tudo o que temos é a proibição imposta no último sábado pelo Banco Central do país à realização de operações bancárias e um projeto de lei rejeitado pelo parlamento cipriota.

K.: Como os cipriotas reagiram à decisão de seu parlamento?

A.P. A reação foi, sem dúvidas, positiva.

K.: O que os cipriotas esperam das negociações do ministro das Finanças do Chipre em Moscou?

A.P. Os cipriotas parecem preferir falar com os russos a negociar com a Comissão Europeia, portanto, há certa esperança.

K.: Alguns observadores afirmam que o país pode se declarar inadimplente e enfrentar uma crise bancária...

A.P: Isso é bem possível se o país não receber um resgate financeiro. Neste ano, o Chipre deve pagar entre 3,5 bilhões e 4 bilhões de euros para amortização dos empréstimos contraídos nos anos anteriores junto à Comissão Europeia. Como o país não tem condições de quitar suas dívidas, pode se declarar inadimplente.

K.: Os cipriotas não têm medo de serem expulsos da zona do euro?

A.P: Acho que têm. Mais do que isso, acho que eles não estão plenamente conscientes da atual situação. Mesmo se o Chipre receber um resgate financeiro e evitar a inadimplência, seu sistema bancário não poderá mais existirno modelo anterior.

K.: As restrições ao valor do saque em espécie continuam válidas?

A.P: Não é bem assim. As restrições são impostas por contratos com bancos. Alguns contratos limitam o valor do saque a mil euros por dia, outros, a 200 euros. Depende de cada caso, mas os saques só são limitados por contratos com bancos. Os saques em terminais de autoatendimento são realizados dentro dos limites de valores fixados.

K.: De onde os cipriotas esperam uma boa notícia: do encontro entre [o presidente de Chipre, Nicos] Anastasiadis e Merkel ou de Moscou?

A.P: Em minha opinião, de todos os lugares, desde que não bloqueiem 10% dos seus depósitos.


Publicado originalmente pelo Kommersant

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