Grande aliado da Rússia, Chávez morre aos 58 anos

Ex-presidente venezuelano Hugo Chávez durante visita à Rússia Foto: ITAR-TASS

Ex-presidente venezuelano Hugo Chávez durante visita à Rússia Foto: ITAR-TASS

Vítima de câncer, líder venezuelano Hugo Chávez morre após 14 anos no poder. Mas o que isso significa para Moscou?

O presidente venezuelano Hugo Chávez morreu nesta terça-feira (5). A confirmação de sua morte chegou por Nicolás Maduro, vice-presidente da Venezuela e seu sucessor. De acordo com a constituição venezuelana, as próximas eleições presidenciais devem ser realizadas dentro de 30 dias.

Se Maduro for eleito presidente, Moscou pode perpetuar as estreitas relações com a Venezuela, acreditam os especialistas. Por outro lado, o adiamento das eleições poderia beneficiar a oposição e significar um desastre para os contratos russos na Venezuela.

Nesta quarta-feira (6), o presidente russo Vladímir Pútin expressou condolências ao povo e ao vice-presidente venezuelano Nicolás Maduro pela morte de Hugo Chávez, qualificando-o como um eminente líder e verdadeiro amigo da Rússia, informaram as fontes oficiais do Kremlin. “Ele foi um homem forte e incomum que sempre olhava para o futuro e fixava metas ambiciosas”, destacou Pútin em sua mensagem.

O presidente russo enfatizou que “o valor e a energia vital inerentes aos venezuelanos” lhes permitirá passar por esse provação e a “continuar a nobre causa da construção da forte, independente e próspera República Bolivariana da Venezuela”. Pútin, que se reuniu com Chávez por diversas vezes, elogiou as qualidades pessoais do líder venezuelano, que tornaram possível o desenvolvimento de “uma sólida base para a cooperação russo-venezuelana, promovendo contatos políticos e implementando grandes projetos econômicos e humanitários”.

O presidente russo se mostrou convencido da necessidade de continuar avançando nesse sentido e, assim, fortalecer e aprofundar as relações entre os dois países.

Chávez, 58, morreu em um hospital militar na capital venezuelana Caracas, onde tinha sido levado de Cuba em meados de fevereiro, depois de dois meses de tratamento.

O líder venezuelano havia feito um anúncio público sobre sua doença em julho de 2011. Na ocasião, seu médico pessoal, Salvador Navarrete, disse que Chávez poderia viver até dois anos.

Em outubro de 2012, o líder venezuelano venceu sua quarta eleição presidencial consecutiva, mas nunca tomou posse por causa da doença. Desse modo, a ideia de construir o “socialismo do século 21” na Venezuela não foi concretizada.

De qualquer modo, Chávez vai entrar para a história por suas tentativas ambiciosas de criar uma forte coalizão anti-imperialista na América Latina.

Ele desafiou abertamente o principal parceiro comercial do país, os EUA, ao nacionalizar os ativos de petróleo da Exxon Mobil, ConocoPhillips e Chevron, juntamente com bancos, minas de ouro e usinas de energia. Chávez chegou a se referir ao presidente norte-americano Barack Obama como um “palhaço” e ao ex-presidente Bush como “diabo”.

O vice-presidente venezuelano Nicolás , 50, que foi nomeado por Chávez como seu sucessor antes de sair para receber tratamento em Havana, é conhecido por ter uma postura antiamericana ainda mais rigorosa e provavelmente continuará as políticas anteriores.

Maduro, ex-motorista de ônibus e ativista sindical, foi ministro das Relações Exteriores e, em seguida, vice-presidente da Venezuela. Maduro tem sido leal defensor de Hugo Chávez desde o início da década de 1990.

Carreira política

A trajetória de Chávez começou com um golpe militar fracassado em 1992, motivado pelo descontentamento com a política econômica do governo venezuelano na época. Depois de dois anos de prisão, o tenente-coronel Chávez fundou o movimento social-democrata Quinta República. Quatro anos depois, venceu sua primeira eleição presidencial.

Chávez sobreviveu a uma tentativa de golpe em 2002, um referendo em 2004, e, em 2005, anunciou uma nova política apelidada de “socialismo do século 21”.

Em meados da década de 2000, Chávez iniciou uma campanha para formar uma frente anti-imperialista, declarando a criação de um “eixo do bem” com seus aliados mais próximos Cuba e Bolívia.

Foi nesse momento que Caracas e Moscou intensificaram suas relações, sobretudo nos setores militar e técnico. O processo foi acelerado em 2006, depois que os EUA se recusaram a fornecer armas e peças de reposição para a Venezuela.

A Venezuela abriu as portas da América Latina para a Rússia, por meio da compra de grandes quantidades de armas russas e envolvendo empresas russas em projetos de gás e petróleo na Venezuela, assim como outros acordos”, diz Vladímir Sudarev, vice-diretor do Instituto da América Latina na Academia de Ciências da Rússia.

Relações bilaterais

Entre 2005 e 2007, Caracas comprou 24 caças Su-30 MK2, mais de 50 helicópteros Mi-17V, Mi-35M e Mi-26T, 12 sistemas de míssil superfície-ar Tor-M1 e 100 mil fuzis Kalashnikov.

O estoque de pedidos venezuelano foi estimado em US$ 6 a 7 bilhões no início de 2012, mas essa soma não incluiu o empréstimo US$ 4 bilhões dólares concedido a Caracas para promover a cooperação militar e técnica.

Quando se trata do setores militar e técnico, chegamos ao teto máximo”, continua Sudarev. “A Venezuela não precisa de mais nenhuma arma, e a Rússia deve ir com calma para evitar que acusem os russos de estimular uma corrida armamentista na América Latina.”

O setor de energia é outra prioridade para a Rússia. Em 2010, a PDVSA da Venezuela e o Consórcio Nacional de Petróleo da Rússia (fundado pelas cinco maiores petrolíferas russas) assinaram um acordo para desenvolver o bloco Junin-6, localizado na bacia do rio Orinoco. Trata-se da maior reserva mundial de petróleo e betume. A produção de petróleo começou em setembro de 2012.

A petrolífera estatal russa Rosneft planeja começar a desenvolver o bloco de petróleo Carabobo-2 na mesma área dentro de dois anos. Cada um dos dois blocos pode produzir até 450 mil barris de petróleo bruto por dia. A Inter RAO anunciou planos de construir uma usina de energia com potência de 300 megawatts na Venezuela.

Perspectivas

“Chávez foi responsável pelas principais decisões que criaram um clima favorável para os fabricantes e empresas de energia russas”, diz Vladímir Sudarev.

Após a morte de Chávez , o país terá um mandato presidencial pré-eleitoral. Quanto antes a Venezuela realizar a eleição, maiores são as chances de Maduro vencer, acredita Sudarev.

A oposição mostrou sua força em outubro, quando Henrique Capriles conquistou 45% dos votos [e perdeu para Chávez, que teve 54,5%]; mas ela é fragmentada, não tem candidato único, e os seguidores de Chávez controlam a mídia”, acrescenta Sudarev.

Será mais difícil prever os resultados da votação, se o processo eleitoral for adiado. A oposição também pode se beneficiar de uma possível queda econômica. Em 2012, a inflação para o consumidor atingiu 21% - o sétimo pior índice do mundo, atrás da Bielorrússia, Síria, Sudão, Argentina, Irã e Etiópia.

No início de fevereiro, o governo venezuelano desvalorizou a moeda venezuelana (bolívar) em 32%, que chegou a 6,3 em relação ao dólar americano.

A mudança vai atingir as classes mais baixas, isto é, a tradicional base social de Chávez”, aponta Sudarev.

Se a oposição chegar ao poder na Venezuela, a Rússia poderia presenciar a deterioração do ambiente político favorável para suas empresas, criado em grande parte pelos esforços de Chávez.

Mas isso não significa que todos os contratos seriam encerradas e as nossas empresas, expulsos da Venezuela, porque a oposição respeita o direito internacional”, explica Sudarev. “Alguns contratos podem ser congelados, mas eu não acho que a Rússia será forçada a deixar a Venezuela, já que a própria oposição não teria interesse nisso.”

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.