Visita para exportação

Serguêi Dankvert Foto: Monique Lapa

Serguêi Dankvert Foto: Monique Lapa

Em visita ao Brasil nos últimos dias 20 e 21 de março, o chefe do Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia falou em entrevista exclusiva à Gazeta Russa sobre o embargo às importações de carne de três Estados brasileiros que já se estende por 13 meses.

O Brasil é hoje o maior fornecedor de carne para a Rússia. Foi difícil abrir o mercado interno para um fornecedor dessas dimensões?

 Abrimos o mercado para a carne brasileira há oito anos. Os europeus declaravam que a carne brasileira tinha febre aftosa e outras doenças, mas agora também compram essa mesma carne. Sempre soubemos que o Brasil seria um país complicado, que a cooperação resultaria em muito trabalho para o Serviço Veterinário, mas sempre resolvemos tudo juntos: escolhemos uma série de fábricas, realizamos inspeções e abrimos o mercado russo para os brasileiros. A Rússia nunca proibiu a importação de carne brasileira.

Idade: 57
Formação: engenheiro agrícola e economista

Serguêi Dankvert nasceu em 1955, na região de Astrakhan, Rússia oriental, mas logo partiu para a capital, onde se formou no Instituto de Engenharia Agrícola de Moscou (1977) e em economia na Academia de Comércio Exterior (1986).
Trabalhou em diversos complexos agroindustriais até ser nomeado ministro da Agricultura (2000-2004). Em 2004, assumiu a chefia do Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor).

Em 2012, o volume de importações de carne brasileira caiu apenas 7%, em comparação com o ano anterior. No ano passado, o Brasil exportou cerca de 430 mil toneladas de carne para a Rússia. 
A maior parte das empresas brasileiras que produz para o mercado local e quer começar a exportar para Rússia não utiliza a ractopamina, um estimulante de crescimento proibido em nosso país. Agora estamos criando, junto com os brasileiros, uma lista de produtores que garantam um produto livre de ractopamina.

Isso significa que a questão com a ractopamina ainda não está resolvida?

De qualquer maneira, realizamos a verificação de toda a carne proveniente do exterior. Os produtores por vezes usam ractopamina na fase inicial, mas não no final da vida de um animal. Nesse caso é muito difícil encontrar o estimulante. 
Também queremos incentivar a concorrência. Se o Paraguai e o Uruguai não usarem ractopamina, esses países terão vantagem. Não queremos criar condições especiais para o Brasil.

As inspeções são realizadas em laboratórios ou nos frigoríficos?

 Em ambos. Em primeiro lugar, precisamos de acesso aos abatedouros e frigoríficos para podermos analisar as carnes mais frescas.

Durante a visita oficial do premiê russo Dmítri Medvedev ao Brasil, o representante de uma empresa exportadora de carne à Rússia declarou que o governo brasileiro quer introduzir uma lei proibindo o uso da ractopamina.

 Será um mérito da Rússia. A ractopamina não é proibida por lei no Brasil, mas a situação pode mudar logo. Quando encontramos uma substância proibida, emitimos um aviso. De 50 frigoríficos brasileiros, entre 30 e 40 já receberam esses avisos. 

Isso significa que mais de 50% dos fornecedores de carne brasileira para a Rússia já quebraram suas promessas. Isso é normal, leva a melhorias na qualidade do produto. Agora, além do Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária, empresas privadas também realizam inspeções nos frigoríficos brasileiros.

Isso significa que as empresas brasileiras aceitaram as condições pré-estabelecidas pela Rússia de eliminar o uso de ractopamina?

Elas aceitaram nossas condições desde o início. Todos os nossos parceiros no Brasil, nos EUA e na Canadá prometeram cancelar o uso desse estimulante. Agora, nosso objetivo é verificar se eles cumprem as promessas. Realizamos inspeções nos países, fazemos análises, observamos o processo de produção. Ainda não encontramos discordâncias.

O volume de exportações brasileiras para a Rússia vai aumentar?

Isso depende de muitos fatores. Se o embargo à carne dos Estados Unidos for mantido, o volume de carne brasileira no mercado russo poderá aumentar em até 20%. 

Como a entrada da Rússia na OMC afetará as relações entre os dois países?

As relações entre a Rússia e o Brasil sempre foram boas. Os americanos e europeus não permitem que os brasileiros entrem no seus mercados só por causa da grande concorrência que enfrentariam. 

A entrada da carne brasileira nesses mercados poderia afetar significativamente os agricultores locais.

A Rússia, por sua vez, permite que entrem em seu mercado todos os produtores que sigam suas regras. Os produtores da América Latina fascinam a Rússia devido a diversos fatores que influenciam mudanças nos preços do produto.

Como o senhor poderia avaliar as perspetivas de fornecimento de grãos russos ao Brasil em 2013?

O Brasil sempre importou grãos do exterior. Tudo depende de vários fatores, da competitividade, da safra no Brasil e em outros países do mundo etc. A Rússia pode exportar trigo porque produz mais do que consome. Além disso, empresas russas começaram a vender massas ao Brasil, algo que nunca fizemos antes.

O objetivo então não é apenas exportar grãos, mas também produtos alimentícios? 

Sim, com certeza. Mas nesse caso, para serem competitivas, as empresas devem organizar todo o processo de produção no Brasil e comprar apenas o trigo russo.

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