“Antiamericanismo russo é pilar do patriotismo oficial”

Dmítri Trênin Foto: RIA Nóvosti

Dmítri Trênin Foto: RIA Nóvosti

Em entrevista ao jornal russo “Kommersant”, o diretor do Centro Carnegie de Moscou, Dmítri Trênin, comenta sobre os possíveis desdobramentos do confronto entre as iniciativas de “soft power” (poder brando, em português) da Rússia e do Ocidente.

Kommersant:Parece que a Rússia e o Ocidente não se limitam mais à comum troca de farpas sobre a problemática da segurança e política externa, e passaram agora a criticar o sistema de governo, modo de vida e valores humanos da outra parte. Por que isso acontece?

Dmítri Trênin: As relações entre a Rússia e o Ocidente sofreram mudanças qualitativas no último ano ou ano meio. A liderança russa deixou de fingir estar seguindo os valores proclamados pelo Ocidente. O componente liberal na retórica oficial russa cedeu lugar ao conservador.

Moscou afirma sem rodeios que seus valores não coincidem com os valores ocidentes relativos à democracia, direitos humanos, soberania nacional, papel do Estado, posição da religião e igreja na sociedade e à família. Esse é o resultado da projeção dos processos internos sobre a política externa do país. Eu me refiro aos protestos em massa de 2011 e 2012 e à reação do Kremlin.

K:O confronto ideológico presente na época da Guerra Fria está voltando? As antigas atitudes estão sendo reproduzidas?

D.T.: É lógico que existe a tentação de considerar a nova troca de críticas sobre os valores humanos sob o prisma da Guerra Fria. Muitos analistas políticos envolvidos na polêmica utilizam métodos da ainda não esquecida luta ideológica do século 20.

“Soft power” (ou poder brando) é um termo cunhado por Joseph Nye, professor de Harvard, para se referir à capacidade de um Estado em influenciar indiretamente o comportamento ou interesses de outros países por meio de aspectos culturais ou ideológicos.

 

Também é óbvio que os valores estão sempre intimamente ligados aos interesses e que a concorrência de ideias e modelos sociais faz parte da competição entre diversos países no cenário internacional. Ainda assim, atualmente, um confronto global semelhante ao ocorrido no período de competição entre os dois blocos é impossível.

K:Você acredita que as recentes desavenças entre Moscou e Washington, manifestadas na aprovação das leis Magnitski e Dima Iakovlev, fazem parte dessa tendência? Em sua opinião, a discussão sobre crianças adotadas e seu destino é uma continuação da polêmica sobre qual dos dois sistemas sociais é melhor?

D.T.: Isso reflete, em minha opinião, duas realidades opostas: a indiferença da maioria da classe política norte-americana em relação a Moscou e a obsessão dos escalões superiores do poder russo com a ideia de que os EUA continuam influenciando a situação interna do país. Enquanto, nos EUA, a lei antirrussa é uma consequência das atividades de um grupo restrito de lobistas, na Rússia, o antiamericanismo é um pilar do patriotismo oficial.

K:O messianismo global foi e continua a ser um dos alicerces da política dos EUA. Ao criticar os EUA, você acha que a Rússia está seguindo o mesmo caminho?

D.T.: A Rússia não está trilhando o mesmo caminho dos EUA nem o da ex-URSS. O lema dos atuais patriotas oficiais russos é a soberania nacional e erradicação de todas e quaisquer fontes potenciais de influência externa sobre a situação no país. Isso faz sentido em termos políticos: privatizar o patriotismo e apresentar seus oponentes como agentes estrangeiros.

No entanto, fora do país, as possibilidades do governo russo de atuar como alternativa a Washington são pequenas. Na minha opinião, o governo russo não tem o desejo de se opor aos EUA só porque guarda contradições em relação a esse país. As divergências com os EUA quanto à Síria, por exemplo, são grandes e decorrem da diferença de interesses e, em parte, das diferentes avaliações dadas pelos dois países à situação.

Além disso, o pragmatismo do qual a diplomacia russa se orgulha tanto continua presente na agenda internacional do Kremlin.

K:Como pode terminar o confronto entre as iniciativas de "soft power" dos dois países e quem ganhará mais com isso?

D.T.: No momento, não há confronto efetivo nesse aspecto porque a Rússia atua em outra categoria. Em princípio, a Rússia poderia assumir o papel de porta-voz e condutora de ideias conservadoras no mundo moderno, atuando, por exemplo, como defensora dos valores familiares tradicionais, da soberania nacional na forma clássica, da integridade territorial dos Estados e do direito internacional vigente em meados do século 20. Também poderia agir como padroeira dos cristãos e aliada do Islã tradicional.

O problema, porém, é que um país que deseja desempenhar um papel semelhante no cenário internacional deve estar à altura dessa missão e ser visto desse modo pela comunidade internacional. As tentativas de apenas simular esse papel não têm chance alguma de sucesso.

 

Publicado originalmente pelo Kommersant

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