Brasil e Rússia ampliam cooperação em defesa, agricultura e educação

Em visita de três dias ao Brasil, o primeiro-ministro russo, Dmítri Medvedev, encontrou-se com a presidente Dilma Rousseff e o vice-presidente Michel Temer. Foto: Reuters

Em visita de três dias ao Brasil, o primeiro-ministro russo, Dmítri Medvedev, encontrou-se com a presidente Dilma Rousseff e o vice-presidente Michel Temer. Foto: Reuters

Primeiro-ministro da Rússia, Dmítri Medvedev, esteve em Brasília na última quarta-feira (20) para participar da 6ª Reunião da Comissão Brasileiro-Russa de Alto Nível de Cooperação (CAN), copresidida pelo vice-presidente do Brasil, Michel Temer, e pelo premiê russo. O encontro rendeu a assinatura de uma série de acordos com o governo brasileiro.

O chefe do governo russo chegou ao Brasil nesta terça-feira (19) acompanhado por uma grande comitiva, composta por ministros de Estado e empresários, e foi recebido pela presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto na manhã seguinte.

A presidente brasileira e o primeiro-ministro russo trataram de temas relevantes no campo tecnológico, “tornando a interação Brasil-Rússia mais efetiva”.

Na reunião da CAN, por sua vez, as autoridades firmaram entendimentos e assinaram sete acordos e declarações de intenções nas áreas de defesa, tecnologia, agricultura, energia, educação e esportes.

Após a assinatura dos atos, o vice-presidente Michel Temer ressaltou a importância dos acordos, com destaque para a importação de trigo russo pelo Brasil, um antigo pleito do presidente Vladimir Putin, e a solução ao embargo russo à carne brasileira.

“As autoridades sanitárias entraram em entendimento com os correspondentes brasileiros ao longo dos últimos dois anos e amenizaram a restrição que havia”, anunciou.

Medvedev qualificou o diálogo como “proveitoso” e ressaltou a importância da ampliação da parceria comercial e tecnológica entre as duas nações. 

“A aliança tecnológica que podemos estabelecer ajudará nossas empresas, e veremos vários projetos interessantes surgirem nessa e em outras áreas. Esperamos contar com a experiência do Brasil e partilhar também nossa experiência”, disse o premiê russo.

A visita oficial de três dias foi encerrada nesta quinta-feira (21), com um café da manhã para o empresariado brasileiro e russo.

Na sequência, Medvedev partiu para Cuba, onde ficará até sábado (23) para discutir questões relacionadas a comércio e energia com o presidente cubano, Raúl Castro.

Cooperação técnico-militar

Os dois governos assinaram um documento de intenções relativo à aquisição pelo Brasil de baterias antiaéreas russas. Segundo o Itamaraty, o contrato prevê, a partir de março, o avanço nas negociações para a aquisição de três sistemas de artilharia Pantsir-S1.

O sistema antimíssil de médio alcance tem capacidade para atingir alvos entre 3 e 15 km de distância e vai aperfeiçoar a defesa do espaço aéreo do Brasil, que se prepara para receber eventos esportivos de grande porte e turistas do mundo todo a partir do próximo ano. O valor envolvido na negociação não foi divulgado.

Além da intenção de comprar o sistema antimíssil, o Brasil vai desenvolver a parceria com os russos para a produção de mísseis e a produção conjunta de novos instrumentos de defesa, por meio de uma joint venture envolvendo empresas brasileiras e russas.

A visita dos russos rendeu ainda a assinatura de contrato para a instalação de uma central quântico-óptica e a inauguração de uma estação de rastreamento do Glonass, o sistema russo de navegação global por satélite concorrente do GPS.

O equipamento instalado na Universidade de Brasília (UnB) é o primeiro localizado fora da Rússia, que pretende instalar estações semelhantes em países na China, Estados Unidos e Canadá.

“A instalação da base na UnB e a transferência de tecnologia colocam o Brasil em um importante patamar de conhecimento, beneficiando a pesquisa aeroespacial. Além disso, será muito útil na prevenção de catástrofes e até na aviação civil”, explica o cientista político Paulo Afonso Carvalho, professor da UnB. Ele acredita que o sistema russo irá alcançar seu concorrente americano até 2020.

Esporte e ciências

Na esteira da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, brasileiros e russos também trocarão experiências em matéria de governança e organização de grandes eventos esportivos.

Os ministros dos Esportes dos dois países assinaram um Plano de Ação para estabelecer a cooperação na área esportiva, segundo o qual estão previstas visitas de representantes, além do intercâmbio de atletas e a realização de jogos amistosos e da troca de informações sobre temas esportivos.

Os ministros brasileiros e russos debateram também a entrada da Rússia no programa Ciência Sem Fronteiras. Temer frisou que a cooperação na área da educação abrirá as portas das universidades russas e sua alta tecnologia aos estudantes brasileiros.

Apesar dos possíveis benefícios, a adesão da Rússia ao programa Ciência sem Fronteiras é vista com menos otimismo fora do governo. O cientista político e professor da UnB, David Flaicher, acredita que a barreira linguística será um entrave à interação científica entre estudantes brasileiros e russos.

“A ideia é boa, mas não foi muito bem articulada. A não ser que haja universidades russas com língua franca inglesa, o fato de brasileiros terem de aprender o russo será uma grande barreira a esse intercâmbio”, avalia.

Diplomacia

No campo diplomático, Temer e Medvedev abordaram a cooperação entre os dois países no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O Brasil voltou a destacar a candidatura do embaixador Roberto Azevedo ao cargo de diretor-geral da OMC como uma alternativa importante de representação dos membros do Brics na organização, e pediu o apoio russo ao nome do diplomata brasileiro.

Apesar de demonstrar simpatia pela proposta, a Rússia não selou nenhum compromisso nesse sentido. Segundo a assessoria de comunicação do Itamaraty, o brasileiro está entre os oito candidatos mais cotados para assumir o cargo, cujo processo de escolha deve ser concluído até maio.

Os governos de ambos os países abordaram, por fim, a cooperação técnica entre o Banco Nacional de Desenvolvimento e Comércio Exterior (BNDES) e o Banco de Desenvolvimento e Atividade Econômica Exterior da Rússia.

As duas partes reafirmaram o interesse em criar um banco de desenvolvimento nos moldes do BNDES liderado pelos Brics para financiar projetos de investimentos e incentivar operações de exportações entre os membros do bloco e do bloco com países em desenvolvimento.

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