Quem foi o explorador norueguês que resgatou russos subnutridos nos anos 1920?

Kira Lisitskaya (Foto: Topical Press Agency, ullstein bild/Getty Images)
Nórdico tirou fotos assustadoras de cidadãos sofrendo de inanição devido à fome de 1921-1922 causada pela Guerra Civil. Imagens chocaram a comunidade internacional e ajudaram a resgatar russos.

Fridtjof Nansen foi um dos noruegueses mais famosos da história, e contribuiu imensamente para o estudo do Ártico, tornando-se um exemplo inspirador e herói para uma geração de exploradores polares. Ele também fez descobertas importantes em zoologia e oceanografia e foi o primeiro a cruzar a camada de gelo da Groenlândia em esquis. Mas sua fama também foi gerada pelo trabalho humanitário, em especial o realizado na Rússia, e, em 1922, ele ganhou o Prêmio Nobel devido a isso.

Nansen prestou assistência a prisioneiros de guerra da Primeira Guerra Mundial, salvou refugiados na Europa e resgatou armênios do genocídio turco. Mas uma página especial em sua biografia é o resgate dos famintos da Rússia Soviética no início dos anos 1920.

Catástrofe

Foto tirada por Nansen em 1921.

Os principais motivos da terrível fome de 1921-1922 na Rússia foram a Guerra Civil, que rompeu todos os laços econômicos do país, e uma forte seca que destruiu 20% de todas as safras. Além disso, nessas condições já difíceis, o governo soviético intensificou o confisco de grãos da população.

Como resultado, a fome atingiu vastos territórios do país, onde viviam mais de 90 milhões de pessoas: das estepes do Cazaquistão e dos montes Urais, até a região do Volga, sul da Ucrânia e Crimeia. "As casas estavam abandonadas, sem tetos, sem janelas ou portas. Os telhados de palha tinham sido removidos e ingeridos havia muito tempo. Na aldeia, obviamente, não havia animais – sequer vacas, cavalos, ovelhas, cabras, cães, gatos, ou mesmo corvos. Tudo já tinha sido consumido. Um silêncio mortal pairava sobre as ruas cobertas de neve”, escreveu o sociólogo Pitirim Sorókin, que visitou aldeias nas províncias de Sarátov e Samára no inverno de 1921.

Casal com criança faminta na URSS em 1922.

A situação começou a sair do controle da liderança soviética e iniciou-se uma fuga total da população, a mortalidade cresceu, o canibalismo se disseminou. Depois de esconderem por muito tempo a real situação do país, os bolcheviques foram forçados a pedir publicamente ajuda da comunidade mundial. E essa ajuda chegou.

"Missão de Nansen"

Nansen na filial de Kharkov da

Para que os países ocidentais e a Rússia Soviética, que eram hostis e desconfiados um do outro, pudessem chegar a um acordo sobre a organização e as condições de sua assistência, eles precisavam de um homem de autoridade, respeitado por ambos os lados. Esse homem foi Fridtjof Nansen, que naquela época havia deixado suas expedições ao Ártico devido à idade e se concentrava em atividades humanitárias. Ele se tornou o chefe do Comitê Internacional para a Ajuda aos Famintos na Rússia, também conhecido como a "Missão de Nansen".

No outono de 1921, Nansen visitou a Rússia para avaliar pessoalmente as dimensões da fome. "a parte mais horrível foi visitar o cemitério, onde havia uma montanha de 70 ou 80 cadáveres nus, a maioria de crianças que tinham morrido nos últimos dois dias e sido trazidas para lá de orfanatos ou simplesmente das ruas", escreveu o norueguês chocado. "Os coveiros não podiam enterrar tantos mortos, porque o solo estava congelado e era muito difícil cavar, assim, as montanhas de corpos de pessoas pobres cresciam. Muitos cadáveres foram deixados nas ruas ou nas casas porque não havia como levá-los para o cemitério."

Entre os anos de 1921-23. Asilo da União Internacional de Ajuda às Crianças.

Após retornar da Rússia, Nansen fez várias viagens pelos países da Europa e pelos Estados Unidos, onde mostrou as chocantes imagens e pediu ajuda  não apenas de chefes de Estados, mas também de cidadãos comuns. Como resultado, a "Missão de Nansen" atraiu mais de trinta organizações de cariade envolvidas na luta contra a fome, entre elas, a Aliança Internacional de Ajuda às Crianças, a Sociedade Religiosa dos Amigos (Quaker) e a Cruz Vermelha Internacional.

Organização da ajuda

Centenas de membros da "Missão de Nansen" foram até a Rússia. Foram abertas cantinas gratuitas em orfanatos, estações ferroviárias e fábricas nas regiões mais afetadas do rio Volga e da Ucrânia. Cozinhas de campo foram enviadas para as aldeias e cada uma podia alimentar centenas de pessoas por dia.

Uma pessoa faminta recebia meio litro de sopa e cerca de 100 gramas de pão branco por dia. Os pessoal da missão distribuia pacotes enviados por cidadãos de países ocidentais com farinha, carne enlatada, passas, arroz, sardinhas, cacau e outros produtos.

O comitê aumentava constantemente os fornecimentos. De março a maio de 1922, o volume de alimentos para a cidade de Sarátov aumentou quase 2,5 vezes. No total, a organização de Nansen alimentava 1,5 milhão de crianças e adultos russos.

Favorito do povo

A "Missão de Nansen" não era a principal organização beneficente que ajudava a combater a fome na Rússia. A Administração de Assistência Não Governamental dos Estados Unidos foi responsável por quase 90% de todas as entregas de alimentos.

No entanto, de todos os estrangeiros que ajudam os famintos, Fridtjof Nansen era quem os russos tratavam melhor. Ele conhecia bem a Rússia e seu povo, não expressva hostilidade aberta ao bolchevismo e apoiava a normalização das relações entre o governo soviético e os líderes dos países ocidentais.

Fridtjof Nansen visitou a Rússia várias vezes, verificando cuidadosamente a eficácia de sua missão. Quando lhe perguntaram, certa vez, se ele não tinha medo de viajar pelas regiões distantes, famintas e cheias de febre tiófide de Povôljie, ele respondeu: "Vi coisas ainda mais assustadoras na minha vida. Aqui, pessoas boas sofrem muito".

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