As mais sensacionais falhas de espionagem ocidentais na URSS

DmítrI Tchernov/Sputnik; ‘The Billion Dollar Spy’ by David E. Hoffman/Corpus, 2017; Evguêni Tikhanov/Sputnik
Em mais de um caso, o inimigo era camarada.
  1. O voo malfadado de Gary Powers
Piloto americano Francis Gary Powers (dir.) participa de sessão aberta do Conselho Militar da Suprema Corte da URSS, em 19 de agosto de 1960

Às 08h53 do dia 1º de maio de 1960, nos céus da cidade de Sverdlovsk, na região dos Urais (atual Iekaterinburgo), as forças de defesa aérea soviética abaterem um avião de reconhecimento U-2 americano que estava ilegalmente no espaço aéreo da União Soviética. O piloto Francis Gary Powers foi resgatado e detido na área pelos habitantes locais.

Foi impossível derrubar o avião espião norte-americano assim que ele cruzou a fronteira soviética com o Paquistão – o U-2 estava voando a uma altitude de 24 km e fora do alcance das forças de defesa aérea soviéticas. Somente quando Powers reduziu sua altitude para 14 km, sobre Sverdlovsk, é que o avião foi atingido por um dos oito mísseis lançados. Por sinal, um deles acabou atingindo o MiG-19 enviado para interceptar o U-2, e o piloto morreu.

Fragmentos da aeronave U2 abatida exibidos no parque de cultura e entretenimento Górki

No interrogatório, Powers revelou que a CIA o instruiu a voar por toda a URSS, do Paquistão à Noruega, e fotografar instalações industriais e militares.

O incidente causou um escândalo internacional na mesma hora. O presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower, declarou oficialmente que o piloto havia saído da rota enquanto realizava pesquisas meteorológicas. Em resposta, a União Soviética colocou em exibição pública um conjunto completo de equipamento especial de espionagem apreendido com Powers e encontrado entre os destroços do avião.

Pistola com silenciador que pertencia ao piloto espião americano Francis Gary Power

Em 19 de agosto de 1960, Francis Gary Powers foi condenado a 10 anos por espionagem, mas não ficou atrás das grades por muito tempo. Em 10 de fevereiro de 1962, foi trocado pelo agente secreto soviético Rudolf Abel (nascido William Fisher), que fora exposto nos EUA.

  1. A descoberta de um “herói” traidor
Réu Oleg Penkovski durante a audiência do caso de espionagem

O russo Oleg Penkovski foi considerado um dos agentes ocidentais na URSS mais prolíficos da história da Guerra Fria. Ao longo de vários anos, este coronel da Diretoria Principal de Inteligência do Estado-Maior das Forças Armadas da URSS forneceu grandes quantidades de informações aos serviços secretos norte-americano e britânico.

O próprio Penkovski buscou contato com o Ocidente. Em junho de 1960, ele abordou alguns turistas americanos em Moscou e pediu-lhes que entregassem uma carta à Embaixada dos EUA. O documento descrevia em detalhes como, em 1º de maio daquele mesmo ano, o avião de reconhecimento de Francis Gary Powers havia sido abatido sobre Sverdlovsk. Em abril de 1961, durante uma viagem oficial a Londres, o coronel foi enfim recrutado pelo MI6.

Equipamento de espionagem que pertencia a Oleg Penkovski

Sob codinome “HERO”, Oleg Penkovski passava para seus colegas no Ocidente informações confidenciais sobre o estado das Forças Armadas Soviéticas, o Grupo das Forças de Ocupação Soviética na Alemanha, as relações sino-soviéticas e os sentimentos prevalecentes nos mais altos escalões do poder na URSS. Com uma câmera miniatura Minox, reuniu 111 rolos de filme contendo fotos de 5.500 documentos, que totalizavam 7.650 páginas. Cerca de 600 agentes soviéticos no Ocidente foram neutralizados como resultado de suas ações.

O “herói” recebeu a promessa de cidadania norte-americana e um cargo de alto escalão nas estruturas hierárquicas de inteligência dos EUA ou do Reino Unido. Mas os planos não vingaram. No final de 1961, a KGB foi alertada sobre Penkovski, depois de ele ser visto na companhia da funcionária da embaixada britânica Janet Anne Chisholm.

Os serviços especiais soviéticos seguiram Penkovski por um ano, descobrindo suas conexões e contatos. Ele foi preso em outubro de 1962, seguido por seu mensageiro Greville Wynne.

Julgamento dos espiões anglo-americanos Oleg Penkovski e Greville Wynne

“No caso do traidor da pátria Penkovski, e de Wynne, foi constatado que o descuido, a miopia política e tagarelice irresponsável de certos militares que Penkovski encontrou e com quem conduziu sessões de embriaguez contribuíram diretamente para sua atividade criminosa”, escreveu o chefe do departamento de investigação da KGB, Nikolai Tchistiakov. “Mas há outro aspecto neste caso. Penkovski estava cercado não apenas por amigos embriagados e indivíduos ingênuos, mas também por pessoas vigilantes e perspicazes. Foram seus relatos sobre a excessiva curiosidade de Penkovski sobre assuntos que não o preocupavam diretamente e certas condutas suspeitas dele que estabeleceram a base para o trabalho de nossos tchequistas [polícia secreta] para expor este criminoso perigoso.”

Wynne foi condenado a oito anos de prisão (trocado em abril de 1964 pelo oficial de inteligência Konon Molodi, também conhecido como Gordon Lonsdale, que havia sido preso na Grã-Bretanha). Vários diplomatas americanos e britânicos envolvidos no caso Penkovski foram expulsos do país. Mas o destino mais cruel aguardava o próprio “herói”: ele foi destituído de seu posto e todas as suas honras e fuzilado por traição contra a pátria em 1963.

  1. A derrocada de um milionário soviético
Adolf Tolkatchev

Por seis anos, este projetista-chefe em um instituto secreto de pesquisa de engenharia de rádio foi o agente mais valioso da CIA na URSS. Um “dissidente de coração”, como ele mesmo descreveu, Adolf Tolkatchev passou para o Ocidente uma vasta quantidade de informações valiosas sobre a capacidade de defesa da União Soviética.

Tolkatchev passou um longo período de tempo buscando contato com os serviços especiais ocidentais. Em 1º de janeiro de 1979, ele enfim conseguiu se encontrar com o chefe da estação da CIA na URSS – que logo percebeu a ajuda valiosa que caíra em suas mãos.

Tolkatchev deixando seu carro em um bloqueio na estrada em 9 de junho de 1985

Tolkatchev pediu grandes quantias por seus serviços, explicando que considerava o dinheiro um sinal de respeito e prova de que seu trabalho era apreciado. Mesmo que a CIA não concordasse com esses termos, sua remuneração anual de várias centenas de milhares de dólares era equivalente, em 1979, ao salário do presidente dos Estados Unidos; e, nos anos subsequentes, chegava a excedê-lo. No curso de seis anos, o engenheiro soviético acumulou cerca de US$ 2 milhões em sua conta bancária estrangeira. Além disso, ele recebia 800 mil rublos na União Soviética, e seu salário no instituto de pesquisa russo correspondia a cerca de 350 rublos por mês – o que por si só era bom para os padrões soviéticos.

Tolkatchev entregou aos EUA informações secretas sobre projetos de mísseis, sistemas de defesa aérea, radares e aviônicos de caças MiG e Su. Graças a isso, os americanos conseguiram economizar bilhões de dólares em seus próprios projetos e enfrentar facilmente os MiGs de Saddam Hussein durante a Operação Tempestade no Deserto em 1991, no Iraque.

Prisão de Adolf Tolkatchev

O “espião de bilhões de dólares”, como Tolkatchev foi apelidado na CIA, atuou por muitos anos graças, em grande parte, à sua cautela. Embora tivesse grandes somas de dinheiro à sua disposição, ele apenas comprou um carro modesto e uma pequena datcha.

Mas Tolkatchev foi traído pelo oficial da CIA Edward Lee Howard, que fugiu para a União Soviética em 1985. Em 24 de setembro de 1986, o engenheiro soviético foi fuzilado.

LEIA TAMBÉM: Quando um avião espião supersecreto dos EUA acabou erroneamente no território da URSS

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