Como um russo das províncias fingiu ser o príncipe de um reino que só existia na sua imaginação

Irina Baránova
A biografia de Ivan Trevoguin parece mais um filme de aventura. Em 1783, o jovem de uma cidadezinha provinciana do Império Russo viajou para Paris e se fez passar por herdeiro do trono de um reino fictício. E o que é mais incrível, quase conseguiu.

Ivan Trevoguin (1761-1790) foi abençoado com dois dons inegáveis: uma imaginação sem limites e muita ousadia. Esses talentos, somados à boa sorte, levaram o garoto simples de Carcóvia (então no Império Russo, atualmente no território da Ucrânia) primeiro para São Petersburgo e depois para Paris. No entanto, mais cedo ou mais tarde, seus truques vieram à tona, obrigando-o a fugir.

Vida na rua

Como não se sabe muito sobre Ivan Trevoguin, os historiadores não têm escolha a não ser confiar no que o grande mentiroso declarou à polícia secreta russa.

É possível que ele tenha herdado de seu pai, um pintor itinerante de ícones eclesiásticos, sua ânsia por aventuras. Depois de deixar a esposa e três filhos pequenos em casa, o pai de Trevoguin percorreu vilarejos em busca de trabalho, geralmente embriagado. Foi depois de uma dessas festanças que ele se afogou.

Incapaz de sustentar a família sozinha, a mãe de Ivan pediu ajuda ao governante local, que designou as crianças para o orfanato da Academia de Carcóvia. Ali, o jovem era tão disciplinado nos estudos que seu progresso chegou aos ouvidos do governantes. Destacava-se sobretudo no francês, língua falada pela nobreza russa da época – e que seria útil mais tarde.

Carcóvia

Depois de concluir os estudos, Ivan decidiu se mudar para Voronej, a maior cidade nos arredores, em busca de trabalho no gabinete do governador. Após tentativas fracassadas, ele foi enfim contratado por um rico comerciante local como tutor de seus filhos.

Negócio arriscado

Como todos os jovens ambiciosos, Ivan sonhava com São Petersburgo, a capital na época.

Aleksandr Beggrov. Rio Nevá

Ao se mudar para lá, conseguiu um emprego como revisor na gráfica da Academia de Ciências e, de acordo com fontes diversas, recebeu permissão para publicar sua própria revista. O novo periódico, chamado “Boletim Parnasiano”, foi anunciado no jornal Vedômosti de São Petersburgo como uma “publicação sobre astronomia, química, mecânica, música, economia e outros trabalhos acadêmicos, com um suplemento que oferecia composições críticas, românticas, engraçadas e eloquentes”. Aqueles que desejavam receber a revista por assinatura eram gentilmente solicitados a pagar a anuidade antecipadamente.

Academia de Ciências de São Petersburgo

Nem uma única edição desta revista sobreviveu até hoje, e alguns historiadores duvidam que tenha sido sequer publicada. O que se sabe é que Trevoguin, endividado e sem renda, foi obrigado a fugir da capital. “Foi assim que Trevoguin se viu como um mendigo sem-teto no exterior”, escreve Leonid Svetlov, especialista em literatura do século 18.

Vagando no exterior

Trevoguin embarcou em um navio de São Petersburgo a Amsterdã. Mas a Holanda lhe parecia uma terra pobre, que não precisava de um estrangeiro desconhecido. Ele tentou entrar na Universidade de Leiden, mas foi rejeitado. Depois de uma temporada de peregrinações, Trevoguin optou mais uma vez pela fuga. Graças a seu excelente domínio do francês, ele se fez passar por um marinheiro da França e obteve um cargo em um navio de guerra holandês.

Mais tarde, Trevoguin diria à polícia que recebeu as tarefas mais difíceis a bordo do navio e certa vez teria sido chicoteado 20 vezes por tentar desertar. No fim das contas, conseguiu licença e seguiu para Paris. Já na França, Trevoguin foi à embaixada russa e contou uma história dramática sobre sua (falsa) captura por turcos otomanos e que seu único desejo então era retornar à sua terra natal. Como artifício para conseguir comida, abrigo e roupas, funcionou. O embaixador russo em Paris, o príncipe Bariatinski, informou a São Petersburgo que o órfão tinha sede de conhecimento e havia visitado todos os museus de Paris.

Palácio e Jardim das Tulherias, em Paris

Trevoguin temia que, ao voltar à Rússia, aqueles que ele havia enganado, intencionalmente ou não, o encontrassem e se vingassem. “A possível morte iminente e sua imaginação juvenil o levaram a fazer de tudo”, diz Svetlov. Foi então que Trevoguin decidiu tentar a sorte na Ásia ou na África. “Ao saber, por acaso, da existência de um certo príncipe indiano que passava por maus momentos, assumiu o pseudônimo do desafortunado príncipe da Golconda, que havia sido privado do trono por parentes e cortesãos”, continua o especialista.

Depois de convencer a todos, ainda em Paris, de que era o príncipe do (inexistente) reino da Golconda, Trevoguin começou a procurar acólitos. Para tornar a fraude mais convincente, ele até encomendou um emblema real a um joalheiro parisiense.

Seu problema era falta de dinheiro. Para financiar seus empreendimentos, ele roubou prata, mas foi detido pela polícia francesa e enviado diretamente para a prisão da Bastilha. Lá, Trevoguin desenvolveu um sistema estatal detalhado para seu reino inexistente, que incluía moedas, brasões, títulos, universidades e muito mais.

O “Estado” deveria assumir a forma de despotismo esclarecido (uma noção popular entre os filósofos da Europa Ocidental da época). Trevoguin deu atenção especial ao chamado “Templo do Conhecimento”, uma academia autônoma onde a arte e a ciência floresceriam.

Prisão da Bastilha

Ele até inventou seu próprio idioma de Golconda e deu um testemunho na língua fictícia para um investigador em sua cela em Paris. Da Bastilha, Ivan foi entregue a São Petersburgo, onde se viu nas garras da polícia secreta russa.

De Paris à Sibéria

A imperatriz Catarina 2º decidiu não punir Trevoguin, de 24 anos, com severidade por seus “erros de juventude”: em 1783 ele foi condenado a dois anos de trabalhos forçados. Mais tarde, acabou sendo enviado para a Sibéria para servir como soldado - o que não era o melhor destino para alguém que nutriu medo do Exército desde a infância.

No entanto, as autoridades locais passaram a ter apreço por Trevoguin e solicitaram sua transferência de soldado a professor de francês em uma escola local. Um homem com sua educação era claramente uma raridade nas províncias e não deveria ser desperdiçado. Trevoguin teve permissão para lecionar em um internato particular e também dar aulas particulares, mas não pôde retornar à capital. Enquanto estava no exílio, as autoridades locais eram obrigadas a repassar informações sobre ele à polícia secreta.

De certo modo, o exílio na Sibéria foi uma libertação para Trevoguin em diversos aspectos: ele enfim teve tempo para escrever e desenvolver ainda mais suas ideias utópicas. Com o tempo, parou de ensinar e se dedicou inteiramente a escrever suas fantasias, tornando-se uma espécie de ermitão. Mas foi acometido por uma doença grave e morreu aos 29 anos.

A polícia secreta selou todos os documentos do falecido e os enviou para São Petersburgo. Nem mesmo seu túmulo foi marcado para impedir uma possível peregrinação de seguidores.

Ludwig Knaus

Mais tarde, vários relatos históricos e um romance de aventura foram escritos sobre o futuro príncipe de um Estado fictício que terminou seus dias nas selvas da Sibéria. Ainda assim, segundo os pesquisadores, apesar de todas as suas mentiras, o aventureiro Trevoguin merece admiração por buscar não tanto fama e riqueza, mas sobretudo o acúmulo de conhecimento.

LEIA TAMBÉM: As fraudes dos comerciantes de alimentos na Rússia Imperial

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Russia Beyond.

Mais reportagens e vídeos interessantes na nossa página no Facebook.
Leia mais

Este site utiliza cookies. Clique aqui para saber mais.

Aceitar cookies