O estranho e fedorento mistério por trás das tensões Rússia-Suécia nos anos 1980

Soviet submarine

Soviet submarine

Pixabay
Submarinos soviéticos sob vigilância, carta ríspida a Iéltsin e puns de arenque – esses são os elementos de uma história de detetive que se desenrolou entre a Rússia e a Suécia há mais de 30 anos. E quem sabe como tudo teria terminado se os cientistas não tivessem descoberto a tempo a verdade fedorenta no centro desse mistério.

Hoje, esse episódio é pouco mais que uma curiosidade dramática, mas, nos anos 1980, a história tinha o potencial de provocar outra Guerra Fria. Na época, a Marinha Real Sueca ficou chocada com a insolência e agilidade dos submarinos soviéticos e tinha certeza de que os evasivos minibarcos soviéticos circulavam uma base militar na costa sueca há pelo menos uma década.

Como era de se esperar, a União Soviética negou todas as acusações. Mas todo ano, começando em 1982, relatórios suecos descreviam informações sobre a atividade de submarinos soviéticos em suas águas. A situação toda era um pesadelo para a Marinha escandinava e, na época, a ameaça de uma invasão soviética parecia mais palpável e real do que todas as garantias dos acordos internacionais de paz. O caso aconteceu depois da Guerra Fria, o que particularmente irritou os suecos: “Por que a União Soviética está tentando nos provocar abertamente?” – pensavam.

Carta raivosa para Iéltsin

Um ano antes, em 1981, um submarino soviético da Frota do Báltico “estacionou” perto de Estocolmo. A tripulação errou ao determinar sua localização, e o submarino acabou atracado nas rochas de ilhas pertencentes à Suécia. Uma equipe de resgate sueca veio em seu socorro, removendo o submarino das rochas. O veículo voltou à sua base e pediu desculpas pelo incidente. Mas esse incidente isolado pareceu incomodar os suecos e, imediatamente depois, Estocolmo desenvolveu um medo obsessivo e paranoico de que submarinos soviéticos entrassem em suas águas.

Os militares gravavam sinais na água, incluindo os chamados “sons típicos” que eram classificados de acordo com o nível de ameaça que representavam. O ruído no cerne desta história foi gravado em uma base militar sueca e incluído regularmente em todos os relatórios militares anuais até 1996. Os documentos também mencionam pequenas bolhas na superfície da água.

Military radars

Durante um mês inteiro em 1982, vários barcos da Marinha, submarinos e helicópteros tentaram, sem sucesso, encontrar o “objeto marítimo não identificado”. A paciência dos suecos acabou em 1994.

Carl Bildt, primeiro-ministro sueco na época, enviou ao então presidente russo Boris Iéltsin uma nota indignada, censurando-o por ter pouco controle sobre a Marinha.

Descoberta digna de Prêmio Ig Nobel

Em 1996, Magnus Wahlberg, professor da Universidade do Sul da Dinamarca, foi convidado para chefiar uma equipe de especialistas em bioacústica encarregada de estudar os misteriosos “sons típicos”.

Em um conferência TEDx de 2012, em Gotemburgo, Wahlberg explicou como a origem dos sons estranhos foi identificada. A equipe foi levada para uma sala secreta sob a base militar de Bergen, em Estocolmo. A ocasião marcou a primeira vez na história da Suécia que civis puderam ouvir o tal “som típico”.

“Eu imaginei algo como o som de algo pingando ou como o barulho de hélices girando”, disse Wahlberg. “Mas não era nada disso! Realmente parecia alguém fritando bacon, como um som de estalo e assobio indo e vindo, como pequenas bolhas de ar liberadas na água. Nada do que eu esperaria de um submarino.”

Após a reunião na sala secreta, os cientistas voltaram para casa se perguntando por que pequenas bolhas sempre apareciam na superfície da água após o som. Talvez, o som estivesse sendo produzido por algum tipo de animal?

Eles foram então a uma loja e compraram um arenque do Báltico – um prato típico desta região. Colocaram o animal na água e começaram a ouvir o que mais tarde chamaram de “lindo concerto” produzido pelo gás que os peixes liberavam. Acontece que esse era o som que os militares pediram que eles ouvissem. Quando os peixes viajam em grandes cardumes de quilômetros de comprimento e 10 a 20 cm de altura, os gases coletivos são fortes o suficiente para serem registrados por radares militares.

Herring

Lukas Schulze

A Marinha já havia estabelecido padrões para a leitura de gases emitidos por vários animais (baleias, focas, morsas etc.), mas ninguém suspeitava que o arenque fosse capaz de “soltar pum” em tal volume. Wahlberg ganhou o Prêmio Ig Nobel de Biologia (uma paródia do Prêmio Nobel) pela descoberta. O prêmio é concedido para homenagear “realizações que primeiro fazem pessoas rir, e depois as fazem pensar”.

Depois que a verdadeira origem dos ruídos misteriosos foi descoberta, os suecos pararam de seguir os submarinos russos – ou pelo menos pararam de segui-los com a mesma intensidade.

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