Como os russos pousaram espaçonave na água 44 anos antes da Crew Dragon

História
VICTÓRIA RIABIKOVA
No último domingo (2), a sonda tripulada Crew Dragon aterrissou no Oceano Atlântico. Até então, os últimos a realizar tal façanha haviam sido os tripulantes da espaçonave soviética Soyuz-23 – embora isso não estivesse nos planos.

Em 14 de outubro de 1976, a espaçonave tripulada Soyuz-23 foi lançada a partir do cosmódromo soviético de Baikonur (situado no atual Cazaquistão e hoje alugado para a Rússia). A tripulação era composta por dois membros: o comandante Viatcheslav Zudov e o engenheiro de vôo Valéri Rojdestvenski. A missão era atracar na estação espacial Saliut-5, em órbita, e dali realizar pesquisas científicas e técnicas.

Em seu livro “Catástrofes espaciais. Páginas de um Dossiê Secreto”, o cosmonauta e jornalista russo Mikhail Rebrov destaca que foram relatados um cheiro desagradável e mau funcionamento a bordo do Saliut-5 e que a nova equipe deveria realizar uma inspeção completa da estação e consertar esses problemas.

O voo para a estação levou dois dias – e havia apenas combustível suficiente para três dias no máximo. Em 16 de outubro, surgiram problemas durante uma tentativa de atracação – o sistema de acoplamento automático Igla não funcionou corretamente, porque os dados programados sobre os parâmetros de movimento da sonda e da estação não correspondiam aos valores reais. Por isso, foi impossível atracar a Soyuz-23 à estação sem correr riscos e o comandante decidiu retornar à Terra.

Queda na água e mais problemas

O pouso deveria feito rapidamente, enquanto ainda havia combustível suficiente. Para a aterrissagem, o comandante de voo na Terra escolheu a cidade de Arkalik, no Cazaquistão. Quando a sonda começou a descer sobre o sul da África, o Centro de  Controle enviou helicópteros com equipes de resgate para a área definida.

No entanto, devido a uma nevasca, em vez da área de pouso designada, a Soyuz-23 acabou aterrissando no lago Tengiz, no Cazaquistão, a temperaturas de -20°C e a dois quilômetros da costa.

Por causa do mau tempo, os helicópteros não conseguiram localizar a espaçonave de imediato. Além disso, um dos veículos não possuía botes infláveis ​​e roupas de mergulho a bordo – os itens haviam sido simplesmente esquecidos durante a partida apressada. No outro helicóptero, foram encontrados botes infláveis ​​e roupas de mergulho, e os socorristas correram para o lago.

Paralelamente, dois barcos não conseguiram chegar à espaçonave, pois ficaram presos no meio do lago congelado. A água salgada entrou em contato com os conectores externos da sonda, dos quais alguns ainda estavam vivos. O paraquedas reserva da cápsula foi automaticamente acionado e, com isso, a cápsula capotou e a escotilha que deveria ser usada para a saída dos cosmonautas acabou submersa.

“Duas horas após o acionamento do paraquedas reserva, a tripulação sentiu os primeiros sintomas de falta de oxigênio, que estavam gradualmente levando à asfixia, devido ao acúmulo de dióxido de carbono. Zudov e Rojdestvenski, que estavam em contato constante com os socorristas, respiravam com dificuldade, era possível ouvir um chiado pelos microfones e suas vozes estavam ficando irreconhecíveis”, de acordo com um dos membros da operação de resgate, o instrutor Iossif Davidov, citado no site da enciclopédia virtual Aerospace Equipment Testers.

Cosmonautas, não incompetentes

A nevasca parou e a temperatura caiu para -22ºC. Os socorristas e as equipes dos helicópteros acenderam fogueiras para se aquecer. Foi então que Rojdestvenski, com uma voz rouca, relatou que Zudov havia perdido a consciência por asfixia.

Apenas um barco conseguiu chegar à Soyuz-23. Nele estava o comandante de helicóptero Mi-6, o capitão Nikolai Tchernavski. Mas ele também sofria com o frio e não conseguia alcançar os cosmonautas, devido à posição invertida da cápsula.

Mais perto do amanhecer, outro helicóptero de resgate chegou à cápsula vindo de Karaganda e comandado pelo tenente-coronel Nikolai Kondratiev. O fotojornalista da agência TASS Albert Puchkarev também estava a bordo.

Foi justamente esse helicóptero, sob os comandos do instrutor Davidov, que conseguiu prender um cabo à nave e arrastá-lo para a costa.

“Então, através da escotilha, o rosto pálido e abatido de Viatcheslav Zudov apareceu. Ele sorriu. Ajudaram-no a chegar ao solo, e Rojdestvenski foi arrastado em seguida. Ele também não parecia muito bem. Embora nunca conhecido por ser muito corado, Valéri Rojdestvenski estava agora branco como um lençol, com círculos pretos ao redor dos olhos. Os dois tremiam de frio, com os dentes batendo”, lembrou Davidov. 

Davidov relatou ainda como o fotógrafo Puchkarev da TASS correu para registrar aquele momento. Apesar de os cosmonautas precisarem de tratamento hospitalar urgente, Puchkarev pediu que eles fossem ajudados a se erguer e e sorrissem, para que na fotografia parecessem “cosmonautas, e não incompetentes”.

A operação de resgate durou 12 horas. Nem dos dois jamais voltou ao espaço.

Um final diferente

Valéri Rojdestvenski serviu no Centro de Treinamento de Cosmonauta até 1992, era um remador afiado, aposentou-se com o posto de coronel e morreu em 2011.

Viatcheslav Zudov também atuou no Centro de Controle de Voo em diferentes funções até 1991 e trabalhava simultaneamente como apresentador do programa de TV ‘Znai i Umei’ na TV Central. Hoje, aos 78 anos, está aposentado.

Em 2019, Zudov disse em uma entrevista a um site de notícias de Níjni Nôvgorod que estava contente com o fim da era da corrida espacial.

“Estamos engajados em um trabalho conjunto na Estação Espacial Internacional, de cujo desenvolvimento 14 países participaram. É um passo positivo para garantir que a humanidade viva em paz. Trabalhando lá, as pessoas não sentem as coisas negativas acontecendo na Terra”, disse Zudov.

LEIA TAMBÉM: Por que os astronautas se chamam cosmonautas na Rússia?