Causa oficial da morte de exploradores do “Caso Diatlov” é enfim revelada

Fundo Memorial do Grupo Diatlov
Causa da morte de um grupo de esquiadores em uma expedição na região norte dos Montes Urais, em 1959, permaneceu um mistério por mais de 60 anos. Havia dezenas de teorias do que poderia ter acontecido com eles. Recentemente, porém, o Ministério Público da Rússia anunciou os resultados de uma investigação extensiva.

A morte do grupo de 9 esquiadores liderados por Ígor Diatlov no inverno de 1959 foi causada por uma avalanche provocada por uma mudança climática repentina, anunciou o vice-chefe da diretoria do Distrito Federal dos Urais do Gabinete do Procurador-Geral Andrei Kuriakov, no sábado passado (11).

Após a avalanche, o grupo decidiu abandonar sua barraca com urgência. No entanto, os esquiadores acabaram morrendo por congelamento e fraturas sofridas no incidente.

“Ao saírem da barraca, o grupo todo, sem pânico, se afastou 50 metros. Eles foram a um cume de pedra, que serviu como bloqueio natural de avalanches. Eles fizeram tudo certo. E aqui está a segunda razão pela qual o grupo foi, digamos, condenado à morte, por que eles nunca voltaram. Quando se viraram, eles não conseguiram ver a barraca”, disse, acrescentando que a visibilidade à noite era de 6 a 16 metros.

Segundo Kuriakov, os exploradores chegaram a uma floresta de cedro e fizeram uma fogueira, que queimou por cerca de uma hora e meia. Dois membros do grupo morreram ali por congelamento. O resto decidiu se separar, revela a investigação. Um grupo foi liderado por Ígor Diatlov, e o outro, pelo instrutor Semion Zolotarev.

“O grupo liderado por Diatlov começou a rastejar para a barraca seguindo suas próprias pegadas. Mas eles congelaram logo depois de deixar a floresta, pois a temperatura era de 40-45°C abaixo de zero e havia um vento cortante”, explicou.

O segundo grupo também foi em direção à barraca, por meio de uma passagem feita por eles mesmo, mas acidentalmente desencadearam um movimento de neve e foram jogados para longe da passagem e enterrados sob três metros de neve, continuou Kuriakov. Foi quando os esquiadores sofreram fraturas severas causadas por toneladas de neve que os pressionavam. Foram esses ferimentos que, mais tarde, causaram um grande número de teorias do que pode ter acontecido.

“Foi uma luta heroica. Não houve pânico. Mas, nessas circunstâncias, eles não tinham chance de escapar”, enfatizou Kuriakov.

Detalhes da expedição

De acordo com um plano aprovado pela comissão de rotas turísticas da região de Sverdlovsk, a expedição liderada por Ígor Diatlov, então estudante do quinto ano da faculdade de engenharia de rádio da Universidade Técnica Estadual do Ural, deveria ocorrer em janeiro e fevereiro de 1959, com duração de 16 a 18 dias. Os exploradores planejavam percorrer uma distância de 300 quilômetros em esquis e escalar dois picos, Otorten e Oika-Tchakur. Todos os membros tinham experiência em caminhadas de montanha e o equipamento necessário. O grupo era formado por estudantes e graduados da universidade e contava com o instrutor Semion Zolotarev.

Após a partida, um dos membros do grupo, Iúri Iudin, sentiu intensa dor na perna e teve de retornar a Sverdlovsk. No fim das contas, acabou sendo o único sobrevivente da expedição fatídica. Iudin acabou falecendo após uma longa doença em 2013.

Até 14 de fevereiro de 1959, o grupo deveria enviar um telegrama de um ponto no meio da rota, a vila de Vijai. No entanto, eles jamais chegaram lá. Em 20 de fevereiro, uma equipe de busca foi enviada para procurá-los. Em 26 de fevereiro, em uma passagem de montanha a 300 metros do topo do Monte Holatchakhl, que mais tarde ficou conhecida como Passagem Diatlov, a equipe de busca encontrou uma barraca com pertences pessoais e documentos de membros do grupo.

No dia seguinte, os corpos de quatro membros, incluindo Diatlov, foram achados a uma distância considerável da barraca. Os corpos do resto foram encontrados entre os meses de março e maio ​​do mesmo ano.

Logo após a descoberta dos corpos, foi iniciada uma investigação criminal. Na época, um exame forense determinou que seis exploradores haviam morrido de hipotermia, enquanto outros três tiveram fraturas que poderiam ter sido causadas por “um impacto de grande força”, cuja fonte a investigação não conseguiu estabelecer na época.

Em 28 de maio de 1959, a promotoria da região de Sverdlovsk encerrou o caso, definindo a provável causa da morte como uma vaga “força espontânea que humanos não foram capazes de superar”.

De acordo com o gabinete do promotor, o caso foi tornado secreto por causa de um documento que detalhava métodos para obter informações usados durante a investigação. Por causa disso, todos os outros materiais também foram classificados.

A história da morte do grupo de esquiadores se tornou conhecida na própria Rússia e no exterior apenas nos anos 1990. Existem inúmeros livros, documentários e longas-metragens dedicados ao incidente na Passagem Diatlov.

75 teorias – e caso encerrado

No total, a promotoria examinou 75 teorias do que poderia ter acontecido com o grupo de Diatlov. Entre elas, nove se tornaram mais populares: um OVNI, um teste de mísseis, uma explosão nuclear, um furacão, um terremoto na região norte dos Urais, uma avalanche e até um confronto com sabotadores estrangeiros.

A teoria da explosão nuclear foi descartada, porque não foram encontrados vestígios de radiação nos pertences pessoais dos exploradores. A do lançamento de mísseis também foi rejeitada: nos dias em que a expedição estava em curso, lançamentos foram de fato realizados a partir da base de Kapustin Iar, mas não poderiam ser vistos da passagem. Objetos voadores que algumas testemunhas mencionaram foram descartados pela investigação como sendo “ilusão”. Já a teoria do furacão foi refutada por climatologistas e nenhum terremoto foi registrado naqueles dias.

Na coletiva de imprensa, o Gabinete da Procuradoria-Geral disse que a encosta na qual o grupo estava localizado apresentava risco de avalanche e sugeriu que o Ministério para Situações de Emergência e a administração da região de Sverdlovsk tomassem medidas para torná-lo mais seguro.

Paralelamente, a Universidade Federal dos Urais aconselhou os turistas a não realizar expedições à Passagem Diatlov.

“Formalmente, é isso. O caso está encerrado”, concluiu Kuriakov.

“Familiares não aceitarão conclusão”

Evguêni Tchernoussov, advogado do fundo público em memória do grupo Diatlov, não concorda com a conclusão emitida pelo Ministério Público.

“Os familiares não aceitarão essa conclusão [a teoria de que o grupo foi morto por uma avalanche], (...) apenas uma teoria tecnogênica. De fato, essa investigação não produziu nada”, justificou o advogado.

Tchernoussov alegou ainda que a investigação era ilegal, uma vez que o caso havia sido encerrado, “e é apenas como parte de um processo criminal aberto que pesquisas e verificações podem ser conduzidas”.

O ponto de vista do advogado foi ecoado pelo diretor do fundo memorial do grupo Diatlov, Iúri Kuntsevitch. Segundo ele, o fundo tentará que a investigação da morte dos jovens esquiadores seja oficialmente reaberta.

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