Pávlik Morozov, o pequeno herói soviético que se tornou um mal absoluto após a Perestroika

Legion Media
Menino de 13 anos foi brutalmente assassinado pelos familiares por ter ousado testemunhar contra seu pai, um agricultor rico que se opunha à coletivização. Recebida como um mito por décadas, a imagem de Pavlik foi transformada na de um traidor da família e muitos dos monumentos a ele dedicados foram colocados abaixo.

“Pável Morozov lutou contra o inimigo e ensinou outros como fazê-lo. Ele se dirigiu a toda a aldeia e denunciou o pai!”. Estas frases compõem um poema soviético dos anos 1930.

Havia uma série de outros poemas, canções, livros, slides e até uma ópera lírica dedicada a este jovem. Monumentos a Pávlik Morozov foram construídos em toda a URSS.

Stálin queria inclusive erigir um monumento a Morozov no coração da União Soviética, vizinho ao Kremlin. Morozov recebeu a carteirinha número 1 da organização juvenil soviética dos Pioneiros. Desenrolou-se um verdadeiro culto do menino na União Soviética.

Exemplo de lealdade máxima

Pávlik (diminutivo de Pável) Morozov, nascido em 14 de novembro de 1918, era um menino de 13 anos de idade proveniente de uma aldeia siberiana distante, Guerassimovka.

Ele foi brutalmente assassinado no início dos anos 1930 junto com seu irmão mais novo, Fiódor. O governo soviético classificou o ocorrido como um homicídio de classe.

Pávlik, que era um jovem entusiasta do comunismo, tornou-se vítima da camada mais rica e antissoviética da aldeia, os kulaks, camponeses ricos que desde o Império Russo usavam trabalho assalariado em suas terras.

Era a época da grande reforma da agricultura soviética e um novo sistema de fazendas coletivas causava insatisfação generalizada, especialmente entre os camponeses mais abastados. A história de Pavel foi explorada pelas autoridades como exemplo de lealdade máxima e sacrifício pelo partido.

Segundo a narrativa oficial, Pávlik teria desafiado abertamente o pai e o avô, que escondiam trigo, ao invés de entregá-lo ao Estado, justamente no momento em que o suprimento do grão era de importância vital para a Rússia soviética.

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O menino se apresentou para testemunhar em tribunal contra os familiares e apresentou uma denúncia contra o pai, que foi considerado culpado pelas acusações de corrupção e preso.

Assim, membros de sua própria família e outros kulaks decidiram se vingar e matar o jovem ativista. O plano foi executado pelo avô de Pável e por seu primo, que esfaqueou as crianças até a morte em uma floresta vizinha à aldeia.

Em seguida, os dois assassinos foram condenados à morte, enquanto outros envolvidos foram presos.

‘Delator número 001’?

Esta versão oficial dos eventos não foi contestada por décadas, até a Perestroika de Gorbatchov, no final dos anos 1980, quando o herói se transformou de repente em traidor.

No livro “Informer 001: The Myth of Pavlik Morozov” (em tradução livre, “Informante 001: O mito de Pávlik Morozov”), Iúri Drujnikov, um escritor dissidente que emigrou da União Soviética, retratou o “Pioneiro número 1” como “Delator número 1”.

Esta biografia mostrava o menino de modo negativo, como traidor de seus parentes mais próximos e que gostava de “fazer jogo sujo com os outros”, inclusive a própria família.

Segundo Drujnikov, Pável não era sequer pioneiro, e o homicídio teria sido apenas uma provocação da polícia secreta, que queria transformar a morte do menino emcaso político e criar um herói.

Reprodução do quadro “Pável Morozov” (1952), do pintor Nikita Tchebakov.

As afirmações de Drujnikov foram posteriormente criticadas. Mas, na época em que foram feitas, foram recebidas com entusiasmo pela imprensa da URSS, que se tornava mais livre com a política da Glasnost de Gorbatchov e tinha sede de sensacionalismo.

Surgiram também novas canções sobre o garoto, como a da famosa banda de rock Krematori. Nela, Pável não era herói, mas uma espécie de demônio, um mal inextirpável que transita na Rússia de uma época a outra. Alguns dos monumentos a Morozov foram demolidos.

Repressões póstumas

Todavia, a glorificação que de repente se transformou em demonização chocou muitos soviéticos, especialmente aqueles que haviam conhecido Pável pessoalmente e estavam vivos.

A imprensa publicou uma carta aberta da primeira professora de Pável, Larisa Issakova. Ela escreveu sobre o pai de Pável, acusando-o de corrupção (era presidente do conselho local), e que “abusava de bebidas alcoólicas e batia na mulher”.

Monumento a Pável Morôzov em parquinho de crianças.

“Aceitamos a Revolução, as idaias de Ilítch [Lênin] com todo o coração. Sonhávamos com a igualdade, a fraternidade e o comunismo, e assim o fazia Pávlik”, escreveu ela, recordando a luta contra os kulaks.

“Muitos deles [os kulaks] foram perseguidos ​​injustamente, mas muitos eram exploradores horrendos. Eles não permitiam que os camponeses pobres entrassem em fazendas coletivas porque não queriam perder mão-de-obra barata”, lembrava Larissa.

“Então, por que meu aluno é agora classificado como traidor e como ele se tornou sujeito a repressões póstumas?”

Sem reabilitação para os assassinos de Pável

Como se revelou, a versão oficial soviética estava errada em relação a um ponto: Pável não denunciou seu pai e não entregou nenhum documento contra ele. Ele, muito provavelmente, testemunhou na corte apoiando as provas e a versão de sua mãe. Mas, ao mesmo tempo, não parecia haver motivos para duvidar de suas convicções comunistas.

Jovens pioneiros da região de Tiumên visitam o local onde foi encontrado o corpo de Pávlik Morozov.

Não se pode dizer com certeza qual o motivo principal do assassinato de Pavel, se o ódio pessoal por parte de seus parentes ou seu ativismo político na aldeia.

Todavia, quando o gabinete do procurador-geral da Rússia recebeu o pedido para reabilitar os condenados pelo assassinato de Pavel, há 20 anos, rejeitou-se o pedido.

O veredito foi reafirmado pelo Supremo Tribunal, confirmando, assim, os princípios fundamentais da versão soviética dos acontecimentos.

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