Como a ideologia mudou ao longo dos séculos na Rússia

Natalia Nosova
O povo russo sofreu bastante ao longo da história. Mesmo nos momentos mais difíceis, ele foi capaz de recuperar e proteger sua terra natal do inimigo, bem como reconstruir a terra devastada. A ideologia e a crença em algo maior que sua própria realidade foi, muitas vezes, a força motriz que os inspirou a fazer grandes conquistas. Para isso, porém, o Estado frequentemente cunhou ideias e slogans específicos.

Século 16: Terceira Roma

O Império Bizantino ruiu em meados do século 15, mas, antes que isso ocorresse, Sofia Paleóloga, a sobrinha do último imperador, casou-se em Moscou com o grão-príncipe Ivan. Décadas depois, o monge erudito Filoteo de Pskov criou o conceito de Moscou como a Terceira Roma.

A primeira fora a Cidade Eterna; a segunda, Constantinopla; e a terceira, Moscou, o último reduto do cristianismo ortodoxo.

Moscou herdou, assim, o brasão de armas de Bizâncio, a águia de duas cabeças – símbolo da manutenção da “verdadeira” fé.

O conceito se baseava em uma série de ideias escatológicas e concebia Moscou como a “o último zarato (reino) ortodoxo”, governado por um monarca piedoso e sábio, que também era o chefe da Igreja. Essa ideologia foi útil para o tsarismo, instituição estabelecida por Ivan, o Terrível.

Século 17: sinfonia de Igreja e Estado

Em 1589, quando Job foi nomeado o primeiro Patriarca de Moscou, a Igreja Ortodoxa Russa se tornou independente do Patriarca de Constantinopla.

Em meados do século 17, quando o Patriarca Nikon começou suas reformas da igreja, ele e o tsar Aleksêi 1º empregaram o conceito bizantino de “sinfonia”, ou seja, a união do poder eclesiástico e secular. As reformas de Nikon acabaram causando um cisma na ortodoxia russa e, enfim, o patriarca acabou privado de seu poder. No final do século 17, a Igreja possuía uma sólida posição financeira e ideológica.

Século 18: serviço ao Estado, lealdade ao tsar

Durante o período de reformas, o tsar Pedro, o Grande, criou uma nova ideologia de Estado pela qual promulgou mudanças de longo alcance em toda a Rússia. Depois de visitar a Europa, ele criou leis que obrigavam todos os nobres a servir o Estado, a obedecer incondicionalmente às ordens do tsar, mas, ao mesmo tempo, respeitar o direito civil. Quando Pedro foi proclamado imperador, ele aboliu o ofício de patriarca, e o tsar voltou a concentrar em suas mãos o poder secular e religioso. 

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Século 19: ortodoxia, autocracia e patriotismo

“Pela fé, o tsar e a pátria”, era o lema semioficial e proferido pelo Exército russo para estimular a população pegar em armas durante as guerras napoleônicas. Era uma resposta ao slogan republicano francês de “liberdade, igualdade e fraternidade”.

Em 1833, o ministro da Educação, Serguêi Uvarov, introduziu a “tríade”: ortodoxia, autocracia e nacionalidade, uma evidente reformulação do famoso slogan militar.

Essa ideologia, apoiada pelo tsar Nicolau 1º e vários intelectuais, entre os quais o escritor Nikolai Gógol, unia uma série de ideias anteriores. A tríade pressupunha: 1) a preservação da fé ortodoxa e a proteção da Igreja; 2) lealdade ao Estado, em sua forma autocrática, onde o tsar era o governante, pai da terra e do povo; 3) preservação das tradições nacionais e igualdade dos direitos civis para todas as nações da Rússia.

Esta tríade continuou sendo a ideologia oficial até a queda do Império, em 1917. 

Século 20: Proletários de todos os países, unam-se!

Os bolcheviques desenvolveram uma ideologia inteiramente nova para o povo russo. A ortodoxia foi suplantada pelas ideias comunistas, com Lênin, Marx e Engels tomando o lugar deixado pela Santíssima Trindade, agora proibida junto com toda a religião. Após sua morte, Lênin tornou-se o líder eterno (“Lênin viveu, Lênin vive, Lênin viverá para sempre”), e o Partido Comunista passou a ser o corpo que unia todos os povos do mundo (“Proletários de todos os países, unam-se!”).

O Partido também incorporou o poder popular, e a autocracia foi oficialmente abolida – ainda que, na realidade, o poder continuasse nas mãos de um único líder.

O conceito de “patriotismo” se transformou, e a URSS tornou-se um país que unia diferentes nações na busca de um mundo livre e justo (“A URSS é o baluarte da paz”).

Ao contrário da tríade, essa nova ideologia tinha ambições globais: durante muito tempo, a União Soviética voltou-se para a revolução socialista mundial.

Século 21: unidade, patriotismo e independência

A ideologia comunista ficou em um beco sem saída na década de 1980, quando uma profunda crise econômica e política abalaram a URSS, e, eventualmente, derrubaram regime.

A obsoleta ideologia soviética ficou para trás, e a recém-nascida Federação Russa passou anos sem qualquer ideologia oficial até que Vladimir Putin assumiu o poder. As novas ideias começaram a ser baseadas quase que inteiramente nos discursos e valores promulgados pelo presidente.

A ideia principal é o bem-estar do povo russo. Este objetivo, segundo Putin, pode ser alcançado graças a 3 conceitos:

  1. A unidade do povo russo (o partido governista se chama Rússia Unida), que retoma o conceito de nacionalidade. “Nossa unidade é a base mais sólida para o desenvolvimento”, disse Putin em 2018, em seu discurso anual à Assembleia Federal.
  2. O segundo conceito básico é o de patriotismo, que “deve ser baseado em nossa história”, reforçada com “o desenvolvimento de um estilo de vida saudável, que inclui exercícios e esporte” para “alcançar os melhores resultados e perseguir a vitória”.
  3. Mas nada disso pode ser feito sem uma política externa forte. “A Rússia é um país com mais de mil anos de história e quase sempre teve o privilégio de conduzir uma política externa independente”, diz Putin. Em várias ocasiões, o presidente russo reiterou que “vivemos em um mundo multipolar e não podemos voltar aos dias de Guerra Fria, quando havia duas superpotências”.

Em suma, a atual ideologia é uma versão desenvolvida e contemporânea da tríade do século 19, a ideia nacional mais antiga da história russa nos últimos tempos.

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