Desastre ecológico em Kamtchatka foi causado por algas, afirmam cientistas russos

Alexander Piragis/Sputnik; Anna Streltchenko/TASS
Destruição em massa de microecossistema e exposição tóxica aos humanos no Oceano Pacífico teriam sido decorrentes de proliferação descontrolada de algas. Embora válida, teoria desconsidera causas que poderiam levar ao fenômeno.   

As notícias da contaminação no Oceano Pacífico ao largo da costa de Kamtchatka, no Extremo Oriente russo, causou protestos em meados de setembro, depois que surfistas se queixaram de queimação nos olhos, náuseas e envenenamento. Na mesma época, moradores da praia local de Khalaktirski começaram a encontrar restos de centenas de moluscos e outros animais marinhos mortos. O Greenpeace registrou então manchas de origem desconhecida flutuando na água ao longo da costa, assim como uma espuma amarela – não apenas na superfície, mas também debaixo da água.

Havia diversas teorias para explicar o que era exatamente a mancha no oceano. Em imagens de satélite, sinais de poluição podiam ser observados já em 9 de setembro, aparentemente originando-se perto de uma instalação de resíduos químicos tóxicos.

Depois de coletar amostras e realizar inúmeras pesquisas, acredita-se oficialmente que a causa do ocorrido esteja comprovada.

Causa humana negada

Cientistas da Academia Russa de Ciências (ARC) descartam a poluição química como causa do ocorrido. “Aos poucos, como resultado dos testes realizados, a teoria de causa humana do desastre foi caindo no esquecimento, porque estudos conduzidos tanto por nossas unidades de pesquisa como nos laboratórios de Rosprirodnadzor [Serviço Federal de Supervisão de Recursos Naturais] e Rospotrebnadzor [Serviço Federal de Vigilância na área de Proteção dos Direitos do Consumidor e do Bem-estar Humano] mostram resultados bastante semelhantes – ou seja, a ausência de níveis significativamente elevados de quaisquer substâncias químicas que poderiam representar perigo”, explica o vice-presidente da ARC, Andrei Adrianov.

As amostras revelaram que, em alguns casos, os níveis de hidrocarbonetos de petróleo, fenóis, ferro e outras substâncias associadas ao processamento do petróleo estavam muitas vezes acima dos parâmetros. No entanto, segundo Adrianov, o aumento da presença de tais substâncias “não poderia ter provocado as mortes em massa de organismos aquáticos observadas em Kamtchatka”.

Após as pesquisas, concluiu-se não ser possível afirmar que a poluição teria sido causada pelo despejo de combustível de foguete altamente tóxico chamado “heptil” do área de teste de Radigino – conforme corroborado no início de outubro pelo Greenpeace, entre outros, com base em amostras colhidas. A teoria de poluição radioativa, como resultado de um vazamento da instalação de resíduos de Kozelsk, e as suspeitas de que uma atividade sísmica ou despejo de resíduos de um navio também foram descartadas. A Universidade Federal do Extremo Oriente, que enviou sua própria equipe ao local do incidente, chegou às mesmas conclusões.

O vice-presidente da Universidade, Dmítri Zemtsov, publicou um breve relatório sobre os resultados da expedição no Facebook – como outros acadêmicos e agências reguladoras, os pesquisadores da Federal chegaram à conclusão mais plausível.

Toxinas – mas de algas

De acordo com a teoria oficial e mais aceita entre cientistas russos, o desastre foi causado pelo fenômeno natural das “marés vermelhas” – nome dado à proliferação excepcionalmente rápida de microalgas, que produzem toxinas venenosas. No episódio em Kamchatka, as toxinas foram liberadas por algas do gênero Gymnodinium. “Eles são responsáveis ​​pela produção de um grande número de toxinas. Curiosamente, são toxinas que afetam os invertebrados”, diz Zemtsov.

Altas concentrações dessas toxinas foram detectadas nas amostras, o que corrobora a hipótese. Além do mais, a espuma amarela também é característica da proliferação de microalgas.

“Sei que uma explicação como essa soa cômica e parece mais fake news, mas quanto mais você aprende e ouve o que os cientistas estão dizendo, mais você percebe que realmente sabemos muito pouco sobre os oceanos”, declarou o governador de Kamchatka, Vladímir Solodov, ao comentar as descobertas.

Fenômeno “comum”

Apesar da virulência do fenômeno recente, as “marés vermelhas” nem sempre são percebidas, disse a bióloga Tatiana Orlova, em entrevista ao site de notícias Meduza. Orlova estuda o comportamento das “marés vermelhas” há anos.

“Observamos as ‘marés vermelhas’ em Kamchatka ano após ano. Não há nada fora do comum no que aconteceu. É um problema global. Este fenômeno é encontrado com frequência em todo o mundo”, diz Orlova. “Mas é importante perceber que nem sempre é possível ver, muito menos registrá-los, pois a possibilidade de a corrente depositar criaturas mortas em um litoral povoado é bem pequena.”

Segundo a pesquisadora, se não fosse a presença de surfistas e a direção do vento, o cenário poderia passar batido em outro ponto da costa deserta de Kamtchatka. “A  proliferação de algas dificilmente teria sido notada por alguém, muito menos necessitaria de um aviso ao público (...) A água nem sempre fica vermelha”, afirma.

A floração em Kamtchatka neste ano não foi tão violenta a ponto de ser detectada por imagens de satélite, acrescenta Orlova. Foi necessário coletar amostras de água para identificar as toxinas – e só depois que o microbioma já havia chegado à costa.

As microalgas em si não são perigosas e fornecem nutrientes para todos os seres vivos no oceano. Mas, em um determinado momento, elas podem produzir “todo um espectro de venenos e todas as toxinas possíveis”, que podem ser também fatais para os humanos, direta ou indiretamente. “Foi o que aconteceu em setembro de 1945, quando uma tripulação desembarcou na costa do Mar de Bering e comeu mexilhões. Seis pessoas morreram”, diz a bióloga. Na época, havia uma proliferação de algas na água e os moluscos haviam absorvido as toxinas. “Em parte, é por essa razão que os frutos do mar para consumo humano precisam passar por certificação obrigatória.”

Conclusão precipitada?

Nem todos, inclusive entre os especialistas, acreditam na teoria de “maré vermelha” como causa principal do desastre. Nenhuma toxina característica das “marés vermelhas” foi descoberta 10 km ao norte da praia de Khalaktirski.

“A contaminação foi, portanto, localizada e, mesmo que as algas fossem as culpadas, elas provavelmente foram ajudadas a se proliferar por algo – por exemplo, um vazamento de pesticidas da instalação de resíduos de Kozelsk”, de acordo com o hidrogeologista e cientista ecológico Gueórgui Kavanosian .

Opinião semelhante foi expressa pelo líder do projeto climático da Greenpeace Rússia, Vassíli Iablokov. “A poluição que todos notaram pode ter sido secundária, mas o que serviu como poluente primário e o que desencadeou os processos subsequentes?”, questiona Iablokov. Até o momento, porém, o Greenpeace não detectou nenhuma evidência de vazamento das instalações em solo.

A sucursal russa da ONG Fundo Mundial para a Natureza (WWF) também afirma que, com as informações atuais, ainda é impossível chegar a uma conclusão inequívoca: “Não há nenhuma informação até o momento que possa identificar um poluente artificial específico ou uma toxina natural específica”.

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