Por que muitos russos se recusam a aceitar o ato de se ajoelhar como protesto

Pilotos demonstram apoio ao movimento Black Lives Matter antes da corrida do Grande Prêmio da Áustria de Fórmula 1, em 5 de julho de 2020

Pilotos demonstram apoio ao movimento Black Lives Matter antes da corrida do Grande Prêmio da Áustria de Fórmula 1, em 5 de julho de 2020

AP
Para eles, ato remonta ao século 13 e nunca foi um gesto positivo no país.

No último dia 5 de julho, o Grande Prêmio de F1 da Áustria começou com protestos contra o racismo e em apoio ao movimento Black Lives Matter. A maioria dos pilotos se ajoelhou em solidariedade à causa, mas cinco se abstiveram de fazer o gesto.

Entre os que se recusaram a se ajoelhar estava o único piloto de F1 russo, Daniil Kvyat (competindo pela equipe AlphaTauri). Sua recusa em se ajoelhar gerou críticas on-line, e alguns fãs acusaram os pilotos que ficaram em pé de um gesto negativo:

No entanto, os fãs russos de Kvyat encararam sua decisão de permanecer de pé com incentivo. Mas, afinal, o que os russos veem de errado com o agora famoso gesto de que o jogador de futebol americano Colin Kaepernick reviveu alguns anos atrás?

“Não fizemos nada de errado”

O primeiro piloto de F1 da Rússia, Vitáli Petrov, foi um dos primeiros a defender seu companheiro de profissão: “Acredito que cada pessoa tem o direito de expressar suas opiniões. E cada pessoa pode fazer do seu jeito. Cada um tem sua própria opinião sobre se ajoelhar ou não. É aceitável pedir para alguém se ajoelhar, mas não é aceitável criticar alguém que não concorda com você sobre isso”, afirmou Petrov.

O ex-boxeador profissional e atual membro do Parlamento russo Nikolai Valuev também considerou o gesto inadequado. “Nós nos ajoelhamos diante da bandeira do país, a Pátria, talvez diante de nossos pais. Não entendo esse gesto como sendo contra o racismo. Não me considero racista, mas por que devo me ajoelhar?”, disse.

O público em geral e os fãs russos de F1 também expressaram apoio a Kvyat.

“Daniil, todas as pessoas adequadas na Rússia estão com você”, escreveu um usuário.

“Os russos não se ajoelham”, escreveu outro.

“Ajoelhar-se uma vez não é o mesmo que respeitar afro-americanos pela vida toda. Prove com suas ações, e não com gestos ”, escreveu outro fã da F1.

“Muito bem por não ter ajoelhado. Se te questionarem, diga que os russos nunca orquestraram genocídio e nunca exterminaram outras pessoas. Não fizemos nada de errado para nos ajoelharmos agora”, disse ainda outro usuário de redes sociais.

Curvando-se ao cã

Fato é que norte-americanos e russos entendem e interpretam o gesto se ajoelhar de diferentes maneiras. Enquanto nos Estados Unidos, ajoelhar-se representa um protesto contra a discriminação racial, a maioria dos russos não o vê como tal.

Os russos geralmente interpretam o ato como um sinal de submissão. As raízes históricas desse posicionamento podem remontar aos séculos 13 e 14, quando as terras russas foram dominadas pelo Império Mongol e pela Horda de Ouro.

Quando o governante mongol e fundador da Horda Dourada, Batu Khan, invadiu a Rus Kievana, no período de 1237-1242, os príncipes russos se tornaram politicamente dependentes da vontade do cã.

Naquela época, era costume que os príncipes russos viajassem para se curvar ao grande cã – e, às vezes, os príncipes russos eram forçados a se ajoelhar diante de seu soberano estrangeiro. De certo modo, ajoelhar-se diante do cã remetia a uma tradição medieval de homenagem, uma cerimônia em que um vassalo promete sua lealdade, reverência e submissão ao seu senhor feudal.

Príncipe Aleksandr Nevski implorando a Batu Khan por misericórdia a Rússia

Quando o Grande Posto, entre as forças de Ivan 3º de Moscóvia e as forças de Akhmat Khan, no rio Ugra encerrou o domínio tártaro-mongol sobre Moscou em 1480, o ato de se curvar diante dos cãs cessou na prática.

Baskaks, de Serguêi Ivanov

Mais tarde, quando a nobreza russa emergiu como uma classe, ajoelhar-se diante de alguém era considerado uma experiência humilhante: poderia prejudicar a reputação de um nobre e questionar sua nobre origem.

É assim que o poeta clássico russo Aleksandr Púchkin descreve a humilhação de um nobre que se ajoelha em seu romance “A Filha do Capitão”:

Empurraram-me para junto de Pugatchev, obrigaram-me a ajoelhar aos seus pés. Ele estendeu-me a mão de duras veias.

— Beije! Beije! — gritavam à minha volta.

Eu, porém, preferia a morte mais atroz àquela vil humilhação.

Tribunal de Pugatchev

Ao contrário de se ajoelhar, uma tradição chamada бить челом - (bit’ tchelom, ou “bater na testa”) era mais aceitável e difundida na Rússia antiga. No início, referia-se a uma literal reverência a uma autoridade superior para demonstrar respeito. Logo adquiriu novos significados: curvar-se, ou implorar por algo, e cumprimentar alguém.

No idioma russo, a frase costumava ser usada em correspondência privada como forma de saudação e demonstração de respeito e atitude honrosa.

É por isso que muitos russos contemporâneos ainda consideram o ato de se ajoelhar como um gesto de submissão ou um apelo lamentável a uma autoridade superior, um pedido abjeto de misericórdia. E é por isso também que a recusa em se ajoelhar não significa que os russos apoiam o racismo. Afinal, o piloto russo Daniil Kvyat estava vestindo uma camiseta com a frase “END RACISM” impressa.

Piloto russo da AlphaTauri, Daniil Kvyat, com camiseta com a frase “End Racism” antes da corrida na Áustria, em 5 de julho de 2020

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