Korzunovo, o lugar onde Gagárin perdeu as botas

Cidade no extremo norte da Rússia onde primeiro cosmonauta serviu por três anos é hoje um fantasma soviético.

Korzunovo é uma pequena cidade a 30 quilômetros da fronteira com a Noruega e permanece quase desabitada desde que a guarnição do Exército Vermelho foi desativada. Algumas pessoas ainda vivem na cidade em ruínas, recusando a oferta de melhores acomodações nas proximidades de Murmansk.

No entanto, um fato pouco conhecido é que o primeiro cosmonauta Iúri Gagárin serviu por três anos em uma base aérea militar situada nos entornos de Korzunovo.

No verão de 1965, Gagárin, já famoso como cosmonauta, revisitou a base. Ele estudou nesta mesma escola número 7, que tem um pequeno museu em sua homenagem.

Turistas, sobretudo da Noruega, Finlândia e Reino Unido, visitam a cidade com regularidade, bem como delegações oficiais russos.

Os moradores de Korzunovo guardam boas lembranças do passado: as mercearias com “déficit” de bens na era soviética, a comunidade de jovens companheiros de luta, e o longo Dia Polar, quando ninguém queria dormir até de manhã.

Em 1998, quando o regimento foi transferido de Korzunovo para Severomorsk, não restou nenhuma loja aberta – nem o aeródromo, do qual era possível voar para Moscou por uma pequena quantia nos velhos tempos.

A existência de Korzunovo se deve ao trabalho e sacrifício do povo. A persistência e a determinação transformaram essas famílias militares em um tipo próprio de gente, criada com nostalgia, medo de incertezas, rotina, e o desejo de viver em paz.

As baixas temperaturas não apenas preservaram a vila – mas o tempo em si, que parece congelado na época soviética.

Talvez, o patriotismo soviético ainda latente entre os moradores locais os ajude a superar o frio e a escuridão, acreditando em seu heroísmo. Mas esses sacrifícios não gozam mais do menor reconhecimento oficial – sem medalhas nem subsídios.

A Rússia tem atualmente cerca de 20 mil cidades fantasmas – locais que outrora foram estrategicamente importantes ou ricos em depósitos minerais, mas cuja importância decaiu.

O cenário de habitual é Korzunovo: a morte incipiente de cidades que nasceram durante o planejamento central soviético e projetos de construção megalômanos.

A queda da URSS deixou muitas empresas sem capital  – nem o patriotismo, motor do progresso soviético, conseguiu mantê-las.

O rótulo de “cidade morta” traz consigo muitas histórias de partida, mudanças e vários anos de espera na esperança de um apartamento em uma nova cidade.

Mudar para outra cidade não é incomum nos dias de hoje. No entanto, ao contrário de muitos imigrantes, as pessoas oriundas de cidades fantasmas não têm aonde voltar.

Hoje há mais comunidades on-line sobre cidades fantasmas do que cidades fantasmas. Mesmo assim, quase não há informações sobre a cidade de Korzunovo.

O sol ali não se eleva acima da linha do horizonte durante a chamada Noite Polar. Depois de duas horas de crepúsculo nebuloso, a escuridão se instala novamente. E Korzunovo volta a ser uma fileira de formas escuras de casas com janelas vazias.

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