De Buenos Aires a Moscou: como, há 20 anos, o tango chegou à Rússia

Sasha Vybornov
Em 1998, a dançarina e coreógrafa Valentina Ustinova organizou a primeira aula de tango na história da Rússia. Passados 20 anos, Moscou ostenta o título de capital mundial do tango, juntamente com Paris e Berlim, enquanto vários dançarinos russos ganham prêmios e competições internacionais.

Dois olhares se cruzam. Encontram-se – e se escolhem. Ela se levanta, e ele, segurando seu braço, a acompanha na pista. As notas de um tango ressoam, e os casais se abraçam, abandonando-se ao ritmo atemporal de D’Arienzo e sua orquestra. Nós não estamos na Buenos Aires dos anos 1940, mas na Moscou contemporânea, oculta e frenética, que encontra refúgio nesses lugares – as “milongas” – onde o espaço e o tempo parecem outros, e não é preciso fechar os olhos para se redescobrir envolto pela atmosfera do La Boca de meados do século 20.

Dançarinos Max Izvekov e Katia Zak durante apresentação na milonga Bien Porteña, em Moscou

Poucas pessoas sabem, mas a cidade de Púchkin é um dos mais famosas capitais do tango: assim como em Paris e Berlim, para ali também atuam os melhores mestres argentinos, criou-se festivais internacional, e surgem a cada ano jovens profissionais locais que se destacam nos campeonatos mais prestigiados.

O mérito desse sucesso revolucionário se deve, em grande parte, a uma mulher: a primeira que, exatamente 20 anos atrás, importando essa dança “escandalosa” e então pouco conhecida na Rússia.

Valentina Ustinova

No começo de 1998, a bailarina e coreógrafa teatral Valentina Ustinova organizou a primeira aula de tango na história russa, em Moscou. “Cerca de quinze pessoas compareceram à reunião, como sempre mais mulheres do que homens, com idades entre 25 e 35 anos. E, pensando melhor agora, percebo que o que foi mostrado então não era exatamente tango, mas uma versão coreografada dele”, diz Valentina. “Para as pessoas que cresceram na era soviética, o tango nada mais era do que uma sequência de passos estereotipados, como se vê nos filmes, feitos de rosas vermelhas e chapéu. Demorou muito tempo para entender que não era assim.”

Ariadna Naveira e Fernando Sanchez durante apresentação no festival Planetango, em Moscou

Tudo começou com a música: a primeira experiência que Valentina teve com essa dança, hoje considerada patrimônio da humanidade, foi por meio de um CD que ganhou alguns anos antes da queda da URSS. “Eu escutava e escutava as músicas. Eu realmente gostava! Mas foi só durante uma viagem a Amsterdã que pude ver esse tipo de dança pela primeira vez. Eu fiquei fascinada”, relembra.

Na volta de sua viagem à Europa, Valentina colocou outros CDs de tango em sua mala: uma verdadeira raridade para a época. “Eu botei alguns alunos que participavam das minhas aulas de dança moderna na época para ouvir, e eles ficaram me pedindo para organizar um novo curso! Eles se apaixonaram pelo tango.”

Aleksandra Stadnik

O primeiro grupo em Moscou foi aberto no final dos anos 1990. “Na realidade ninguém na Rússia conhecia essa dança: nos limitávamos a observar os poucos filmes ao quais dispúnhamos e a copiar os passos, numa sequência coreografada de movimentos que nada tinha a ver com a profundidade das sensações típicas do tango.” Durante um ano, dançaram assim, revendo gravações antigas e reproduzindo passos. “Então chegou um rapaz russo que morava nos Estados Unidos e ele nos contou o que tinha visto do outro lado do oceano”, conta a bailarina.

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Mas foi só em 2000, quando um dos primeiros dançarinos argentinos chegou a Moscou, que os russos descobriram o que era realmente o tango. “Até então tínhamos pouca informação. Então veio um certo Edoardo, que nos explicou a importância do abraço, de o homem guiar. Ele nos falou de regras, olhares. Foi o começo da longa tradição de tango na Rússia”, diz Ustinova.

Dançarinos de tango na milonga Ronda, em Moscou

Pouco a pouco foram abrindo as primeiras escolas, ainda administradas por “dinossauros” locais do tango, como Aleksandr Vistgof e Anna Ziuzina. De fato, é deles o mérito de ter levado a Moscou, e de lá para todas as grandes cidades do país, grandes mestres argentinos, de Horacio Godoy a Alejandra Mantinian.

Hoje, 20 anos depois daqueles primeiros passos incertos se movendo diante de um videocassete, a dança pode ser praticada em Moscou em qualquer dia da semana, em suas mais de trinta escolas. As chamadas “milongas” estão sempre lotadas de dançarinos – jovens em comparação com a idade média em outras cidades europeias.

“Em Moscou, há mais oportunidades de dançar tango do que em outras cidades da Europa”, diz Anna Ziuzina, dona da escola Tango Mio. “Há um vasto mercado, e uma grande concorrência que gera uma competição saudável. Foi assim que nasceram os grandes dançarinos de tango russos”, acrescenta.

De Tula a Voronej, de Iekaterinburgo a Vladivostok, em apenas 20 anos, o tango fez o país entrar no ritmo de passos – que, uma vez tomados, não tem mais volta.

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