O que os ataques em escolas russas têm a ver com Columbine?

Guardas a postos próximos a escola local após estudante atacar alunos e professor com machado na cidade de Ulan-Ude, na Rússia, em 19 de janeiro de 2018.

Guardas a postos próximos a escola local após estudante atacar alunos e professor com machado na cidade de Ulan-Ude, na Rússia, em 19 de janeiro de 2018.

Reuters
Em uma única semana de janeiro, três ataques com vítimas fatais ocorreram em escolas russas. Os perpetradores eram estudantes, membros das chamadas “comunidades sobre crimes reais” nas redes sociais, onde se discute o massacre ocorrido na escola Columbine, nos EUA.

Na Escola Pública nº 127 de Perm, 1.400 quilômetros a leste de Moscou, dois jovens de 16 anos atacaram uma classe do quarto ano. Um deles golpeou o professor no pescoço duas vezes com uma faca. No total, quinze pessoas foram feridas.

Dois dias depois, em uma aldeiazinha na região de Tcheliábinsk, a 1.700 km de Moscou, um estudante esfaqueou o outro durante o intervalo.

Passados apenas mais dois dias, em uma aldeia na Buriátia, não muito longe de Ulan-Ude, no sul da Sibéria, um estudante da nona série atacou outros com um machado e coquetéis molotov, ferindo sete pessoas.

No total, em apenas uma semana houve três ataques em escolas russas perpetrados por estudantes.

De acordo com a polícia, os ataques estavam relacionados e foram inspirados pelas “comunidade sobre crimes reais”, uma série de blogs dedicados ao assassinato em massa do Columbine High School, no Colorado, em 1999, quando os estudantes Eric Harris e Dylan Klebold mataram 13 pessoas e feriram 37, suicidando-se no final.

Dylan Klebold (dir.) e Eric Harris (esq.) filmados pela câmera de segurança no café da Columbine High School em 20 de abril de 1999.

Cada agressor nos ataques russos era membro de alguma comunidade on-line que publicava vídeos, fazia repostagens e publicava fotografias sobre ataques armados em escolas.

Os adolescentes da Buriátia realizaram seus atos vestindo camisetas que mostravam o grupo de rock KMFDM, assim como a usada pelos assassinos de Columbine.

O estudante Mikhail Pivnev, que em setembro de 2017 atacou uma professora com um cutelo e atirou em seu rosto, também fazia parte da comunidade.

A agência de controle das telecomunicações russas Roskomnadzor passou a bloquear tais grupos nas redes sociais. A maior dessas comunidades já contava com 10.000 membros. Apesar dos esforços, porém, os grupos sempre acham uma maneira de continuar a existir.

Ponto de encontro dos “school haters”

“Respeito, pessoal! Há quatro meses, ninguém sabia sobre nós. Mais de uma semana atrás (depois do maldito incidente de Ulan-Ude), foi bloqueado o primeiro grupo. Mas, na semana seguinte, reuni um verdadeiro exército de seguidores”, escreve Brock (seu nome foi alterado), administrador de uma dessas comunidades.

A página do grupo tem postagens diárias de E e Dylan, fotos deles, documentos de arquivo, memes e arte de fãs.

Entrada da Escola n° 127, em Perm.

Brock e outros três criadores de grupos que o Russia Beyond contatou dizem, basicamente, o mesmo: o objetivo das comunidades é ensinar o que não fazer, “ser uma lição para todos” sobre as tragédias que o bullying pode causar.

Psicólogos acreditam que o principal motivo do massacre de Columbine foi o bullying que os assassinos sofriam. As comunidades também ajudam os adolescentes a lidar com problemas, colocando-os em contato com pessoas que passam por situações similares.

“Somos contra a violência. O ‘crime real’ é inofensivo e fornece informações documentais de quase 20 anos, citações ou apenas memes”, diz Nikolai Drazdov, administrador da comunidade “Baianistie memi pro Columbine”. Dois dias após conceder entrevista ao Russia Beyond, sua página havia sido removida.

O grupo de Brock tem fotografias com comentários vagos, como “se você não realizar um tiroteio na escola, você nunca alcançará m***da nenhuma na vida”.

Alguém que se identifica como Dima Kotov, de Sevastópol, comenta querer “organizar outro Columbine”.

Há muita repostagem na página dele de uma comunidade sobre “crimes reais”, dicas de gambiarras em tiroteios e seus próprios posts: “Odeio”, “vou atirar em todos vocês” e “esperem até 20 de abril ...” com a foto de uma submetralhadora.

Governo

O Ministério das Comunicações declarou que todos os grupos nas redes sociais dedicados ao “culto de Columbine” deverão ser bloqueados junto a grupos que promovem terrorismo e suicídio.

“Em essência, não há diferença entre eles. Eles também promovem um comportamento antissocial e destrutivo, e é por isso que devem ser eliminados”, disse o vice-ministro Aleksêi Volin.

O Roskomnadzor, responsável por esses bloqueios, afirma que os grupos proibidos podiam levar menores ao suicídio.

“Tudo começa com um grupinho”

As comunidades sobre crimes reais começaram a aparecer na Rússia na década de 2000 e, por muito tempo, tiveram poucos seguidores. Apenas como grupos maníacos e invasores.

A russa Diana, de 18 anos, por exemplo, interessou-se acidentalmente por Columbine ao se deparar com uma postagem nas redes sociais e se unir a um desses grupos.

Suas páginas nas redes contêm principalmente posts sobre Harry Potter, Twin Peaks e as músicas de Alt-J e Hurt.

“Eu me envolvi, li os diários, os cofres com fitas de Eric. O enigma estava se solucionando. Eu estava interessada na psicologia dessas pessoas, em saber o que as motivava. Mas esses grupos não têm nada de especial. É ridículo culpá-los. A sociedade moderna coloca os adolescentes contra a parede. Se as pessoas se tratassem de forma mais simples e não atribuíssem rótulos como ‘nerd’, ‘perdedor’ ou ‘atleta’, a vida seria mais fácil. Ninguém pensaria em repetir Columbine”, diz Diana.

Os ataques em Perm e na Buriátia foram rotulados de “exibicionismo” nas comunidades sobre crimes reais.

“Esses são assassinos típicos que só queriam ficar famosos. Sim, o fato de serem fãs de Harris e Klebold é real, mas era só isso”, diz Drazdov.

O único que tinha motivo de vingança devido a uma ofensa foi Pivnev, que atirou na professora. Os outros não conheciam as vítimas e não sofreram bullying.

A imprensa tem mostrado as histórias como uma “nova realidade” resultante do abandono das crianças pelos pais, escolas e instituições sociais.

Ela ressalta um mau funcionamento do trabalho de psicólogos escolares e a indiferença dos pais, já que os perpetradores dos massacres falaram sobre seus planos nas redes sociais e até perguntavam ali onde podiam comprar armas, sem ninguém tomar uma atitude quanto a isso, e um deles estava em tratamento com um psicólogo.

Mas as comunidades sobre crimes verdadeiros foram responsabilizadas pelos problemas por instigarem os jovens à violência, levando a uma reação em cadeia.

“Mas sabe qual o pior? Depois da análise da imprensa e dos blogueiros mais importantes do país, que publicaram seus pontos de vista, o tema explodiu e a atenção aumentou muito. Eles não deveriam ter elevado tanto o tema”, diz Drazdov.

Diana concorda. “É como uma epidemia. Tudo começa com um grupinho de pessoas e, então, todos os outros estão infectados”.

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