Russos rebatem nova acusação de programa de doping

Novo relatório foi apresentado por Richard McLaren, chefe da comissão independente da Wada

Novo relatório foi apresentado por Richard McLaren, chefe da comissão independente da Wada

Alex McNaughton/RIA Nôvosti
País pode ser banido de próxima Olimpíada de Inverno, em 2018, e perder direito de sediar eventos esportivos. Decisão final dependerá do Comitê Olímpico Internacional.

A publicação da segunda parte do relatório da comissão independente da Agência Mundial Antidoping (Wada, em inglês), chefiada por Richard McLaren, foi recebida de forma previsível pelas autoridades russas e qualificada como “tendenciosa”.

Embora as novas revelações possam resultar na suspensão da equipe russa dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, as consequências ainda não foram determinadas.

A segunda parte do relatório de McLaren sobre as violações de doping no esporte russo, divulgado no último dia 9 de dezembro, esclarece as conclusões propostas na primeira parte, publicada em julho passado.

No novo documento, a comissão da Wada reitera a existência, entre 2011 e 2015, de um programa de doping patrocinado pelo Estado, com envolvimento do Ministério dos Esportes russo, além de uma ampla operação de encobrimento de atletas flagrados em exames antidoping realizada pelo Serviço Federal de Segurança (FSB).

Ainda segundo o relatório, mais de 1.000 atletas russos participaram do sistema de doping, incluindo esportistas que competiram nos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, em Londres, e nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sôtchi.

Acusação ‘irrealista’

Após a divulgação do relatório da Wada, o vice-primeiro-ministro e ex-ministro dos Esporte Vitáli Mutkô declarou que a Rússia não poderia ter influenciado os resultados dos Jogos Olímpicos de Sôtchi.

“Os Jogos foram conduzidos por organizações esportivas internacionais – tudo estava sob controle”, disse Mutkô, acrescentando que seria ‘irrealista’ manipular as amostras de urina dos atletas durante os exames.

Embora confirmando a possibilidade de casos individuais de uso de doping por atletas russos, o vice-premiê negou a existência de um programa de doping patrocinado pelo Estado. “Não precisamos de nenhuma vitória desonesta”, disse à agência TASS.

Vitáli Smirnov, chefe da comissão pública independente antidoping criada após a publicação da primeira parte do relatório da McLaren, também rejeitou a possibilidade da existência de um programa estatal de doping.

Segundo Smirnov, as acusações foram baseadas no testemunho do ex-chefe do laboratório antidoping de Moscou, Grigóri Rodtchenkov, que hoje vive nos EUA e alega ter manipulado as amostras. “Dadas as circunstâncias, não se pode confiar no testemunho de Rodtchenkov”, diz o chefe da comissão.

Perspectivas incertas

As consequências da nova acusação de doping ainda são incertas. Após a publicação da primeira parte do relatório, houve a possibilidade de todos os atletas russos serem proibidos de competir nos Jogos Olímpicos de 2016, no entanto, o Comitê Olímpico Internacional (COI) relegou a decisão sobre a participação de atletas individuais às respectivas federações esportivas. Quase 300 atletas russos competiram em 26 modalidades no Rio, e o país terminou em quarto lugar no quadro geral de medalhas.

A situação agora pode ser diferente, alertam os especialistas. O país poderá não só perder as medalhas conquistadas nas Olimpíadas de Sôtchi, como corre o risco de ser banido dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, em Pyeongchang, na Coreia do Sul.

Segundo o especialista em direito esportivo Aleksêi Karpenko, a Rússia poderá ainda perder o direito de sediar eventos esportivos internacionais, e algumas seleções do país poderão ser banidas das competições mundiais em suas respectivas modalidades.

No entanto, o diretor do Instituto de Pesquisa em Medicina Esportiva da Universidade Estatal de Cultura Física, Esporte e Turismo da Rússia, Andrei Smolenski, acredita que a retórica de McLaren “tornou-se relativamente mais branda” em relação a julho.

“McLaren disse que, recentemente, a Rússia ‘tinha feito muitas coisas positivas’ para combater a doping”, disse Smolenski à Gazeta Russa.

“Não creio que o COI venha a destituir a Rússia das competições ou a proibi-la das Olimpíadas. Alguns países podem decidir boicotar as competições em território russo, mas isso é política, e não esporte.”

Na dependência do COI

De acordo com o advogado esportivo russo Artiom Patsev, independentemente da gravidade, a decisão decorrente das acusações será tomada por organizações maiores.

“O próprio McLaren está dizendo: sou uma figura independente, acabei de analisar os documentos e cheguei às minhas próprias conclusões. Ele nem sequer apresentou recomendações ao COI ou às federações esportivas internacionais”, diz Patsev.

O advogado acrescenta que o comitê internacional criou uma comissão especial para investigar o suposto programa de doping patrocinado pelo Estado russo.

“As violações por atletas individuais não provam a existência de um sistema de doping”, afirma Patsev. “São as conclusões da comissão do COI que determinarão se a Rússia será submetida a quaisquer sanções internacionais.”

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