Casos de doping podem excluir seleção russa da Rio-2016

Enquanto tocha olímpica viaja pelo Brasil, casos de doping são reavaliados pelo COI

Enquanto tocha olímpica viaja pelo Brasil, casos de doping são reavaliados pelo COI

Reuters
Especialistas analisam denúncias de doping sistemático que podem suspender equipe russa inteira do torneio internacional. Vantagem para os EUA poderia estar por trás de afirmações do ex-chefe do laboratório antidoping de Moscou.

As recentes declarações sensacionalistas do ex-diretor do Laboratório Antidoping de Moscou, Grigôri Rodtchenkov, no “The New York Times” podem ter consequências graves para a Rússia, incluindo a possibilidade de toda a equipe russa ser banida dos próximos Jogos Olímpicos, no Rio.

Em um artigo publicado em 12 de maio no jornal norte-americano, Rodtchenkov revelou que diversos atletas russas nas Olimpíadas de Inverno de 2014, em Sôtchi, estariam envolvidas em uma esquema de doping financiado pelo Estado. No artigo, ele confessa ter desenvolvido o “coquetel” especial com substâncias proibidas para uso antes das competições.

Após a denúncia, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, disse não descartar a possibilidade de que os atletas russos possam ser todos proibidos de competir na Rio-2016, relacionando-os aos resultados de uma investigação oficial sobre as alegações da Agência Mundial Antidoping (Wada).

A agência já está investigando uma série de acusações relativas ao doping sistemático por atletas russos, após um documentário na TV alemã ter trazido o assunto à tona em 2015. A equipe de atletismo russa está, há meses, proibida de competir internacionalmente na pendência de uma decisão.

O Ministério da Justiça dos EUA também mostrou interesse pelas revelações de Rodtchenkov. Segundo o “The New York Times”, o gabinete do procurador para o Distrito Leste de Nova York abriu sua própria investigação, em que tentará entender se o famigerado programa de doping russo de fato existiu – um programa cuja temerosa escala Rodtchenkov, aparentemente, expôs neste mês.

Pressão sobre o COI

As palavras de Thomas Bach sobre a possível proibição da seleção russa nas Olimpíadas do Rio deveriam ser tomadas como uma ameaça? Membro honorário do COI, Vitáli Smirnov acredita que o presidente da organização internacional estaria sendo pressionado por certos círculos norte-americanos para quem a desqualificação da Rússia seria vantajosa. Em muitos esportes, como tiro, atletismo e natação, os atletas russos continuam sendo os maiores rivais dos Estados Unidos.

“As receitas do COI giram em torno de US$ 5 a 6 bilhões por quatro anos. Quase 80% deste dinheiro vêm dos EUA, com a venda de direitos de transmissão televisiva e patrocínio em geral”, disse Smirnov à Gazeta Russa.

Já o advogado russo e vice-presidente da Fundação Internacional para Apoio a Iniciativas Legais, Alicher Aminov, nega que a essência do problema e do atual movimento esteja relacionada à pressão política.

“Não há dúvidas de que o escândalo do doping está sendo usado por países ocidentais para fins políticos. Mas isso não justifica a postura do ministro dos Esporte russo [Vitáli Mutko], que está interpretando tudo à luz disso”, explicou Aminov, acrescentando que a Rússia precisa admitir os problemas envolvendo doping.

“A Rússia enfrenta sérios problemas com farmacologia atlética e médicos esportivos. Três atletas do sexo feminino já falaram sobre o uso sistemático de doping e o ultimato da federação no caso de recusa”,  continuou Aminov.

“Nós já identificamos a destruição de mais de mil amostras, o que é uma violação grave e não é por acaso que Mutko liquidou imediatamente a Rusada [agência russa antidoping]. Enquanto a situação não for corrigida, continuaremos tendo escândalos relacionados a doping”, disse o especialista.

Agenda de Rodtchenkov

A presidente da Federação Russa de Esqui e três vezes campeã olímpica Elena Välbe acredita em razões pessoais por trás das revelações de Rodtchenkov.

“Eu não acredito nas palavras de Rodtchenkov. É difícil acreditar que amostras podem alteradas durante as Olimpíadas na presença da Wada. Eu não creio que a investigação da Wada irá provar as alegações de Rodtchenkov”, afirma a ex-atleta.

“As razões dele eram evidentes: encontrou um emprego nos EUA [atualmente trabalha como colaborador científico no laboratório privado de toxicologia Redwood em Santa Rosa, na Calífórnia] e queria ‘provar’”, acrescenta Välbe.

Smirnov também aponta para inconsistências nas declarações de Rodtchenkov, afirmando que o suposto “coquetel de drogas” contendo esteroides e álcool fornecido a atletas da seleção russo “soa estranho”.

“Os especialistas com quem conversei dizem que esse tipo de doping iria apenas prejudicar a performance dos atletas, e não melhorá-la. Onde está a lógica nisso”, disse Smirnov, destacando que, antes de trabalhar com atletas em Sôtchi, Rodtchenkov havia sido indiciado pelo artigo 234 do Código Penal da Rússia.

“Pela circulação ilegal de substâncias potentes ou nocivas com o intuito de vende-las em grande quantidade”, explicou o membro do COI, referindo-se a uma acusação de 2011, depois da qual Rodtchenkov acabou tornando-se testemunha.

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