Doping de Sharapova acende discussão sobre mildronato

Teste positivo para doping pode impedir participação de tenista na Rio-2016

Teste positivo para doping pode impedir participação de tenista na Rio-2016

Reuters
Tenista russa anunciou na segunda (7) ter sido pega em um teste antidoping na Austrália. Embora comum desde a União Soviética, medicamento usado por atleta traz à tona debate sobre efeitos do meldonium, recentemente banido do mundo dos esportes.

A tenista Maria Sharapova, de 28 anos, pegou os torcedores de surpresa ao anunciar na segunda-feira (7) o flagrante em um teste antidoping durante o Aberto da Austrália deste ano. “Fui pega em um teste e assumo total responsabilidade por isso”, disse.

O mildronato, remédio usado pela tenista russa há dez anos para tratar de arritmia cardíaca e de estágios iniciais de diabetes, logo virou pauta de discussão.

O ministro dos Esportes russo, Vitáli Mutko, saiu em defesa da atleta, alegando que o meldonium, que é a principal substância ativa no mildronato, não passa de um princípio “inofensivo”, que “não produz efeitos sobre os esportistas”.

A discussão ganhou força no país uma vez que a substância, incluída na lista de proibições da WADA (Agência Mundial Antidoping) desde 1º de janeiro, foi encontrada em outros dois atletas russos nos últimos dias.

Também na segunda, um teste confirmou a presença de meldonium na patinadora no gelo Ekaterina Bobrova, que, com seu parceiro na dupla, Dmítri Soloviov, ficará de fora da Copa do Mundo, a ser realizada entre 28 de março e 3 de abril em Boston, nos EUA.

O ciclista russo Eduard Vorganov, que compete pela equipe Katiucha, já havia sido, em fevereiro deste ano, flagrado em um teste antidoping pelo uso da mesma substância.

O meldonium foi inserido pela WADA na categoria S4, que se refere a hormônios e moduladores de metabolismo. A suspensão máxima pelo uso da substância é de 4 anos.  

A Federação Internacional de Tênis divulgou a suspensão preventiva de Sharapova a partir de 12 de março, aumentando a suspeita de que a tenista estará impedida de participar dos Jogos Olímpicos do Rio, em agosto.

Efeitos colaterais

Em meados dos anos 1970, o meldonium foi desenvolvido na URSS pelo Instituto de Síntese Orgânica da Academia de Ciências, no território da atual Letônia. A substância começou a ser usada como medicamento a partir de 1984.

Desde então, a droga, que foi originalmente concebida como um medicamento para o tratamento de doenças cardiovasculares, passou a ser de uso quase obrigatório por todos os atletas profissionais da União Soviética.

Sua principal ação está associada à desaceleração da zona de expansão de células mortas após danos miocárdicos. Além disso, melhora o fluxo sanguíneo no córtex cerebral e reduz a frequência das crises de angina.

No entanto, o meldonium tornou-se popular entre os atletas por uma razão diferente – além dos efeitos citados, é também capaz de aumentar o metabolismo intracelular, e proporciona ao corpo maior resistência à alta tensão física durante o exercício e ao estresse psiconeural durante as competições.

Sono e nutrição

Apesar dos supostos efeitos do meldonium, grande parte dos médicos esportivos na Rússia questiona a eficácia do medicamento à base de tal substância.

“É muitas vezes usado, especialmente em esportes cíclicos, e às vezes em esportes de equipe. Porém, sua eficácia é difícil de avaliar, por ser raramente usado de forma isolada”, afirma Eduard Bezuglov, médico da seleção nacional de futebol russa.

“Na minha prática, nunca usei, porque não acredito que forneça quaisquer benefícios. Seu efeito teórico é facilmente atingível por meio de boas noites de sono e boa nutrição”, diz.

Na década de 1990, quando o país viveu uma intensa crise econômica, o meldonium se popularizou ainda mais entre os atletas russos devido ao seu baixo preço.

“Usávamos durante os microciclos mais difíceis. Eu sentia os efeitos, era realmente mais fácil de suportar o estresse e aumentar da resistência”, disse a nadadora russa Galina Chipoválova ao site championat.com.

Tolerância zero

Ainda durante o anúncio, Sharapova afirmou que não ter parado de tomar a droga recém-banida pela WADA por negligência, já que teria recebido um e-mail da agência em dezembro passado sobre as alterações na lista de substâncias proibidas.

“É muito importante que vocês entendam que pelos últimos dez anos esse medicamento não esteve na lista de substâncias banidas pela Wada Agência Mundial. Usei esse remédio legalmente pelos últimos dez anos”, justificou.

Mas nem todos os especialistas e comentaristas esportivos do país acreditam que se trate de um caso de negligência.

Segundo Mikhail Vartapetov, chefe do departamento médico do clube de futebol Spartak Moscou, os atletas devem ter uma atitude mais responsável quando se trata de informações provenientes da WADA.

“Por que a nossa equipe sabia, já no outono [russo, de setembro a novembro], que o mildronato estava sendo banido? Somos mais inteligentes? Não, apenas continuamos a acompanhar as notícias da WADA”, escreveu o médico em sua conta no Twitter.

Ex-número 1 do tênis e vencedor do torneio de Roland Garros em 1996, Evguêni Kafelnikov foi ainda mais enfático ao criticar a tenista de 28 anos.

“Este é um golpe apenas para Sharapova – uma pessoa estigmatizada, que, com o uso de drogas adicionais, queria superar seus adversários. Ela deu esse passo conscientemente – agora devemos deixá-la sofrer as consequências”, disse Kafelnikov, que é também vice-presidente da Federação Russa de Tênis, ao R-Sport.

Confira outros destaques da Gazeta Russa na nossa página no Facebook

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.