Capello contra o legado de uma geração perdida

Capello virou alvo de críticas após fracasso na Copa do Brasil e derrotas frequentes nos últimos meses Foto: Reuters

Capello virou alvo de críticas após fracasso na Copa do Brasil e derrotas frequentes nos últimos meses Foto: Reuters

Depois de se tornar técnico da seleção russa e garantir a presença da equipe na Copa deste ano, o italiano Fabio Capello passou a ser visto como um herói. Mas a derrota prematura no Mundial do Brasil e o fracasso nas qualificatórias para a Eurocopa-2016 foram paulatinamente transformando-o em vilão. O que poucos sabem é que as críticas, por vezes merecidas, escondem um profundo mal-estar no futebol nacional.

No início de 2014, Capello estava em alta. O treinador de origem italiana havia conseguido a extensão do contrato anual de US$ 11 milhões, depois de garantir uma vaga para a Rússia na primeira Copa do Mundo do país em 12 anos.

Porém, agora, o técnico da seleção russa é vilanizado pela imprensa, pelos torcedores e por políticos – além de rotulado de ladrão por causa do seu ostensivo salário. A Rússia saiu timidamente na fase de grupos da Copa do Mundo e venceu apenas uma das últimas oito partidas que jogou. Nem mesmo a vitória de 2-1 contra a Hungria em novembro passado serviu para acalmar os ânimos – em um jogo que os russos deveriam ganhar facilmente, os jogadores tiveram que correr para conquistar a pequena diferença.

E não foi só a Rússia que saiu perdendo – o treinador italiano não recebe seu salário há seis meses, uma vez que a Federação Russa de Futebol está enredada em uma crise financeira de sua própria autoria.

Em todos os cantos da Rússia, as pessoas estão culpando Capello pela performance da equipe, destacando que o desempenho do técnico estrangeiro não justifica o seu salário astronômico. Mas, embora ele tenha cometido erros táticos, e não foram poucos, as razões para os problemas da seleção russa vão muito além dele. Na verdade, é preciso voltar lá para a década de 1990.

Para entender o motivo, vamos imaginar um jogador que terá 28 anos na Copa do Mundo de 2018, isto é, mais ou menos a idade que um atacante costuma estar no seu auge. Nosso jogador – vamos chamá-lo de Ivan – nasceu na década de 1990, quando a União Soviética estava desmoronando e havia diante de si uma década de caos, pobreza e conflitos.

Ivan provavelmente passou grande parte de sua infância com fome ou mal alimentado, talvez comendo macarrão instantâneo por semanas. Mesmo assim, nosso Ivan é um jogador de destaque nas partidas da escola e, quando chega aos 10 ou 12 anos de idade, procura a academia de um clube para desenvolver seu talento. Aí, no entanto, se depara com outro problema.

A turbulência dos anos 1990 devastou os clubes de futebol da Rússia, tal como acontecia com a economia de uma forma geral. Clubes que antes eram apoiados pelo Estado lutavam pela sobrevivência no mercado, e seus diretores, muitos deles corruptos, recorriam a um tipo de “descapitalização de bens”, vendendo jogadores talentosos para o exterior e negligenciando o desenvolvimento da juventude nacional. Com a troca constante da diretoria de muitos clubes, o planejamento de longo prazo acabava sendo abandonado.

Por volta de 2000, Ivan entrou para a academia de futebol de um clube famoso na Rússia, mas anos de negligência haviam tornado esses centros esportivos pouco funcionais. As instalações de então eram decadentes, os funcionários, mal pagos, e os métodos de treinamento estavam anos-luz daqueles aplicados na Inglaterra ou na Alemanha. Com o tempo, a situação foi melhorando – a nova estabilidade econômica permitia ao clubes fazer planos a longo prazo novamente, mas o estrago já fora feito. A deficiência no treinamento diminuía um pouco mais o potencial dos jovens jogadores.

Além de tudo isso, o Campeonato Russo de Futebol já possuía um sistema de cotas limitando o número de jogadores estrangeiros em clubes russos, uma medida destinada a promover jovens talentos nacionais. Infelizmente, esse tiro geralmente sai pela culatra. Como os clubes russos têm que botar cidadãos russos em campo, disputam jogadores entre si e elevam os salários para além do valor normal de mercado. Assim, Ivan tinha pouco incentivo para se mudar para o exterior e jogar em um clube europeu de renome onde poderia desenvolver seu talento.

É claro que essa história toda é uma espécie de caricatura. Nem todo jogador sofreu com esses infortúnios, mas o exemplo serve para muitos. Na seleção nacional de hoje há um fosso entre gerações, já que muitos garotos nascidos no início dos anos 1990 nunca investiram tempo em futebol ou jamais tiveram a oportunidade de se desenvolver tão bem como poderiam.

Como resultado, a equipe atual de Capello depende fortemente de jogadores que passaram seus anos de formação na União Soviética, como o fiel zagueiro Serguêi Ignachevitch, 35 anos, ou o capitão do time, Roman Chirokov, 33 anos. Será quase um milagre se qualquer um dos dois entrar em campo na Copa do Mundo de 2018.

Além deles, há poucos nomes de peso. O criativo meio-campo Alan Dzagoev, 24, é talvez o mais conhecido no exterior por seu desempenho emocionante no início da carreira, mas seu progresso estagnou nos últimos anos. O atacante Aleksandr Kokórin, 23, tem até chances de liderar o ataque na Copa de 2018, mas teve mostrou pouco vigor no Mundial do Brasil este ano.

A mesma falta de talentos dos anos 1990 atingiu outros países europeus mais pobres nos últimos anos – e muitos deles, também ex-comunistas. A Polônia e a Ucrânia são exemplo disso. Na Copa do Mundo de 2014, a Europa Oriental foi representada apenas por Croácia e Bósnia-Herzegovina, dois países que basicamente dependem de jogadores que cresceram como refugiados na Alemanha.

Ainda assim, é a Rússia que será o primeiro país da região a receber uma Copa do Mundo, em 2018, o que dá a seus problemas um caráter de urgência especial. Enquanto outros países têm gerações de ouro, a Rússia tem uma geração perdida – e isso não é algo que Capello poderá consertar facilmente.

 

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