Do que precisam as cidades russas para a Copa de 2018?

“Para ter sucesso, você precisa ter um plano de ação não apenas para a Copa do Mundo, mas para 15 ou 20 anos de cada uma das cidades", disse Winfried Nass, consultor em serviços municipais Foto: Press Photo

“Para ter sucesso, você precisa ter um plano de ação não apenas para a Copa do Mundo, mas para 15 ou 20 anos de cada uma das cidades", disse Winfried Nass, consultor em serviços municipais Foto: Press Photo

Dentro de quatro anos, a Rússia sediará a Copa do Mundo –um dos maiores eventos esportivos do planeta. Que desafios terão de enfrentar as cidades participantes? No que vale a pena elas se concentrarem e que erros devem ser evitados? Especialistas da área da logística, gestão da hospitalidade e marketing esportivo comentam os preparativos do país para o grande evento do futebol.

Entre os dias 17 e 19 de setembro aconteceu em Saransk (650 km a sudeste de Moscou) um fórum de especialistas da área de preparação de grandes eventos esportivos. O tema foi o futuro da Copa do Mundo de 2018, que será realizada em 11 cidades russas (Saransk é uma deles).

A <i>Gazeta Russa</i> questionou alguns especialistas do fórum sobre os aspectos mais importantes que necessitarão da atenção da parte russa durante o processo de preparação para a Copa do Mundo.

Proximidade à Europa como vantagem

Se durante os Jogos Olímpicos de Sôtchi foram testadas as capacidades de apenas uma cidade, dentro de quatro anos será quase toda a Rússia a passar por esse teste.

“As condições de transporte na Rússia são semelhantes às do Brasil, o anfitrião anterior da Copa do Mundo, por isso os visitantes irão enfrentar problemas semelhantes. Eles vão precisar de ônibus, trens e um bom sistema informativo”, diz Stefan Schmied, especialista alemão em questões de logística que foi consultor na área dos transportes e gestão de hospitalidade na Copa do Mundo de 2010, sediada pela África do Sul.

 

“Ainda assim, a Rússia tem a vantagem de estar mais perto da Europa. A Rússia tem um bom sistema de transporte ferroviário que poderia talvez ser melhorado com mais e melhores trens. Têm que melhorar a sinalização nas estradas, em toda a parte deverá haver indicações em inglês”, acrescenta o especialista.

Sem "elefantes brancos"

Outra tarefa importante para as cidades russas é a modernização das infraestruturas hoteleiras já existentes ou a construção de novas. Os especialistas apontam o perigo do excesso de produção.

"A experiência dos Jogos Olímpicos de Sôtchi mostrou que planos demasiado ambiciosos podem criar grandes problemas para a economia da região. A ocupação hoteleira em Sôtchi, mesmo em fevereiro 2014, não ultrapassou 50%", disse a especialista de avaliação imobiliária da empresa EY Ekaterina Ianut. "É preciso avaliar as necessidades de uma cidade em concreto tendo em conta as normas da Fifa. Caso contrário, surgirão inevitavelmente aquilo a que chamamos de ‘elefantes brancos’, ou seja, infraestruturas que, após terminado o grande evento, ficam às moscas. Um exemplo clássico deste tipo é a cidade de Atenas, onde, depois dos Jogos Olímpicos de 2004, uma série de infraestruturas ficaram abandonadas", realça a especialista.

Cultura regional  

Por si só, no entanto, a existência de uma infraestrutura esportiva e de transportes decentes não garante o sucesso do país anfitrião. Cada cidade que receber jogos da Copa do Mundo tem que pensar bem no que pretende oferecer a quem a visita.

“Para ter sucesso, você precisa ter um plano de ação não apenas para a Copa do Mundo, mas para 15 ou 20 anos de cada uma das cidades", disse Winfried Nass, consultor em serviços municipais que, entre 2001 e 2005, chefiou a sede da Copa do Mundo de 2006 na Alemanha. “Por exemplo, em Frankfurt, nós começamos a reconstruir a cidade em 2000 e terminamos apenas há dois anos, muito depois de terminada a Copa do Mundo.”

Mike Lee, especialista britânico em comunicação estratégica na área do esporte e que trabalhou na promoção da cidade de Belo Horizonte durante a preparação para a Copa do Mundo no Brasil, disse que o sucesso do país anfitrião está em campanhas fortemente marcantes para cada cidade individualmente.

"Não é só a Rússia que sofre com a questão de centralização em apenas uma ou duas grandes cidades. Também no Reino Unido o foco está apenas em Londres, no Brasil, está no Rio e em São Paulo. A história e cultura da Rússia é tão variada, tem tantas tradições culturais e culinárias, grupos étnicos, tanta coisa para ver, que isso se torna parte da história para contar, da narrativa nacional. E essa história é muitas vezes mais bem contada pelas próprias cidades e regiões", diz Lee.

Quando procuramos organizar um programa cultural marcante devemos, no entanto, partir da realidade financeira, diz o especialista espanhol em urbanismo e logística Paul Freudenspung.

“Não existe nenhum esquema de aplicação única dos eventos passados ​​na Alemanha e no Brasil que garantam funcionar com toda a certeza se forem aplicados à Rússia. Mas, no geral, as pessoas vêm para vivenciar a Copa do Mundo e há coisas que são universalmente atrativas: sessões de autógrafos com antigos jogadores, festivais de música etc. Outra coisa é saber quais os recursos que você tem à sua disposição. Você tem que ser realista e olhar também para o lado da oferta. Talvez talentos locais possam ser bem atrativos para o público."

O especialista também diz que algumas coisas simplesmente não podem ser  planejadas com antecedência.

"Você tem que estar ciente de que haverá um sorteio que vai decidir que equipes vão jogar em sua cidade. Alguns jogos atraem o interesse de grandes multidões, outros não. Se dezenas de milhares de torcedores holandeses ou franceses vierem à sua cidade o programa será diferente daquele que seria caso o confronto seja entre as seleções da Eslovênia e do Paraguai. Esse é um aspecto muito importante, mas a questão é que você só vai saber o resultado do sorteio em 2017."

 

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