Sôtchi à espera da largada para a F1

Circuito está pronto 60 dias antes do evento, o que costuma ser raro Foto: RIA Nóvosti

Circuito está pronto 60 dias antes do evento, o que costuma ser raro Foto: RIA Nóvosti

Com apenas dois meses para que a Rússia receba o seu primeiro Grand Prix, o Autódromo de Sôtchi acaba de passar pelos últimos retoques e está pronto para a corrida. Mas será que a Rússia tem chances na Fórmula 1?

Embora o primeiro Grand Prix da história da Rússia esteja programado para 12 de outubro, o circuito do Autódromo de Sôtchi foi finalizado em tempo recorde e está apenas aguardando a largada. Os 5,8 quilômetros de pista rodeiam vários espaços que sediaram os Jogos Olímpicos de Inverno, em fevereiro passado.

O asfalto foi colocado, a torre de controle de corrida está repleta de equipamentos de alta tecnologia, e as arquibancadas esperam até 46 mil espectadores. “Tudo está em excelente estado e feito nos padrões mais elevados”, disse o diretor da corrida de F1, Charlie Whiting, o homem que tem a palavra final para definir se determinada pista está apta para receber o evento.
A mudança é nítida. Em dezembro de 2012, a pista em torno do Parque Olímpico de Sôtchi era apenas uma faixa de terra parcialmente escavada com vários banheiros químicos para operários e cadeiras de plástico ao longo do percurso. Agora, a superfície da pista está completamente revestida por um asfalto brilhante.

“Posso dizer sem hesitação que o circuito está pronto 60 dias antes do evento, o que costuma ser muito raro”, afirmou Whiting. Diversas pistas de F1 construídas nos últimos anos passaram por desastrosos problemas com as obras, questões financeiras ou excesso de burocracia.

Em 2010, a de pista de Yeongnam, na Coreia do Sul, só foi aprovada 11 dias antes do início do seu primeiro fim de semana de F1. O autódromo foi retirado do calendário da F1 no ano passado, depois de quatro corridas com fraca presença de público. Na mesma época, o Grand Prix da Índia, que também tinha sido recentemente acrescentado ao campeonato, enfrentou o mesmo destino.

Apoio de cima

Os países citados podem ter parado na beira da estrada, mas o novo adversário russo tem alguns truques sob o capô, sobretudo um maciço apoio do governo.

O Kremlin mantém os esportes sob um controle firmemente centralizado, e a corrida F1 em Sôtchi é parte fundamental de seus planos para o legado olímpico da cidade na costa do mar Negro.

O Grand Prix da Rússia será o maior evento esportivo pós-Olímpiadas que será realizado em Sôtchi até os jogos de futebol da Copa do Mundo de 2018. Se a corrida falhar, o acontecimento enfraqueceria a motivação comercial promovida pelos Jogos Olímpicos, motivo pelo qual é improvável que o governo deixe isso acontecer.
Abrigar a corrida em Sôtchi também ajudou a economizar nos custos, já que parte do projeto da pista pôde ser incorporado aos planos de construção das Olímpiadas. Como resultado, o governo alega ter gasto na região US$ 200 milhões para a construção da pista, um valor razoavelmente baixo.

Os espectadores que chegavam para os Jogos Olímpicos em fevereiro passado passaram pelos prédios de pit lane, que serviram temporariamente como centro de exposições improvisado para empresas russas e sede para os voluntários olímpicos.

Corrida inversa

O lado negativo de usar o Parque Olímpico é que, embora as vias estivessem lá, a obrigação de usá-las parece ter limitado o projetista Hermann Tilke. O mapa da pista mostra alguns lugares óbvios onde emocionantes ultrapassagens poderiam acontecer, com grande parte do circuito baseada em curvas acentuadas contornando as arenas usadas nas Olímpiadas, em vez de retas longas e curvas suaves.
Mas há também um fator de risco. Grandes multidões foram a Sôtchi para assistir aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, apesar de sua distância de 850 quilômetros de Moscou. Agora, os organizadores da corrida precisam garantir que os aficionados pela modalidade façam a mesma viagem.

Os organizadores garantem que 30.000 dos 50.000 bilhetes já foram vendidos. Além disso, a multidão de 50 mil espectadores em uma corrida de DTM em Moscou na semana passada quebrou um recorde de esporte motorizado na Rússia e mostrou que a F1 teria o mesmo potencial.

A crise na Ucrânia acrescentou sua cota de problemas, com pedidos de boicote por alguns políticos britânicos. Sôtchi fica a pouco mais de 300 quilômetros do ponto mais próximo na Crimeia e a 500 quilômetros de Donetsk, cidade ucraniana devastada pela guerra.

Largando na frente

O boicote parece altamente improvável. O chefe de gestão da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, exerce controle rígido sobre as equipes e não mostrou nenhum sinal de que estaria reconsiderando seus planos. Fontes também relataram que Ecclestone supostamente admira o presidente russo, Vladímir Pútin, pois se identifica com o estilo de gestão semelhante ao seu – o tipo de laço pessoal que poderia resistir a qualquer tensão política.

Até mesmo a possibilidade de realizar corridas de F1 na Rússia já é uma espécie de triunfo. Esforços para sediar esse tipo de evento na Rússia foram feitos ao longo de três décadas, antes mesmo de a então comunista Hungria se tornar o primeiro país do bloco oriental a sediar uma corrida, em 1986. A burocracia soviética não investiu nesses esforços iniciais, e os planos para realizar corridas em Moscou nas décadas de 1990 e 2000 falharam devido à falta de recursos financeiros.

Independentemente do que acontecer, a corrida de F1 fará fazer história e já pode estar definindo uma nova tendência. A partir de 2016, a capital do Azerbaijão, Baku, também vai sediar uma etapa do Grand Prix.

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