Mesa-redonda russa

A Alemanha chegou à vitória porque consolidou o conceito de equipe, onde cada jogador tinha a capacidade de se tornar o principal do time, caso fosse preciso Foto: Photoshot

A Alemanha chegou à vitória porque consolidou o conceito de equipe, onde cada jogador tinha a capacidade de se tornar o principal do time, caso fosse preciso Foto: Photoshot

Publicações russas discutiram as razões da vitória da Alemanha e delinearam as principais tendências observadas durante o Mundial.

A seleção alemã já era considerada uma das favoritas bem antes do campeonato. O time de Joachim Löw foi capaz de suportar a pressão das expectativas e jogou um futebol de alto nível. O famoso jornalista russo Ígor Rabiner entende que a principal causa do sucesso do time alemão se resume nas escolhas equilibradas do time.

Segundo o jornalista, “a seleção alemã de 2014 certamente não é a melhor da história. De fato, apresentou sérios problemas, tais como o trauma da preparação deficiente de Reus, Schweinsteiger e Khedira, dos zagueiros e dos laterais. Mas foi a única equipe que  atendia a um padrão internacional de qualidade, se considerada como um todo. O resultado disso foi que entre os nomeados ao título de melhor jogador do mundial foram escolhidos logo quatro jogadores alemães –e cada um deles jogando em posições diferentes”. 

O editor-chefe do portal esportivo russo “championat.com”, Anton Mikhaсhenok, nota que “a equipe alemã conseguiu evitar a elevada dependência de determinados jogadores considerados individualmente, algo que atingiu outras equipes. Esta foi uma copa marcada pela extrema dependência das seleções perante jogadores como Pirlo, Neymar, Messi e Azara. A Alemanha, todavia, chegou à vitória porque consolidou o conceito de equipe, onde cada jogador tinha a capacidade de se tornar o principal do time, caso fosse preciso”.

“A Alemanha não estava dependende de Müller (que se atrapalhou, por exemplo, no jogo contra a Argélia), de Klose (que começou o campeonato no banco), de Kroos (que jogou muito mal na final), muito menos de Lahm ou Neuer. É possível afirmar que o jogador-símbolo da seleção alemã foi  Bastian Schweinsteiger (ao contrário de Mario Götze, que marcou o gol de ouro), tendo em vista que, sendo marcado violentamente durante a final, conseguiu correr 15 km e jogou o melhor jogo de sua vida”, concluiu.

O blogueiro esportivo Denis Romastsov defendeu que as táticas usadas por Löw, que ajudaram o time alemão a ter uma uma vitória certa em um ambiente marcado pelas frequentes dúvidas.

“Os jogadores amadureceram muito durante o mundial, mas o amadurecimento mais marcante foi do próprio Löw. O programa de desenvolvimento de novos talentos permitiu ao treinador uma ampla escolha de jogares que deveriam ser usados, de qual forma, racional e prudentemente. A equipe sofreu grande pressão em alguns jogos. Contudo, no geral, a Alemanha passou por outras seleções como um rolo compressor, apesar do fato de Löw fazer duras críticas aos seus zagueiros. Somente depois da vitória no amistoso contra a França ficou claro que ele tinha finalmente encontrado um equilíbrio entre defesa e  ataque. Mesmo assim, o técnico não permitiu que sua equipe relaxasse. Pelo contrário, continuou à exaustão com treinos e ensaios, focando no profundo entrosamento entre os jogadores, evitando, desse modo, alguma surpresa durante as semifinais. Com efeito, tudo ocorreu sem falhas e a Alemanha apresentou ao público o seu mais perfeito futebol no século 21”, escreveu Romantsov em seu blog.

Surgiu no meio da imprensa russa uma discussão acalorada sobre a decisão da Fifa em atribuir o prêmio de melhor jogador da Copa do Mundo a Lionel Messi, que não pareceu tão brilhante no fase final. O jornalista especializado do portal “sportbox.ru”, Iuri Ivanov, em um artigo intitulado “Messi Mereceu a Bola de Ouro?”, analisou o desempenho do argentino e chegou à seguinte conclusão:

“É verdade que Messi causou grandes problemas aos adversários, entre os quais os zagueiros de Joachim Löw, mas não conseguiu apresentar um nível de jogo além do esperado. Por outro lado, durante o Mundial, houve muitos jogadores –verdadeiros artistas– que levaram seus times nas costas, trabalhando duro e criativamente, tais como Arjen Robben ou mesmo Müller.”

“O alemão, por exemplo, conseguiu bater seu recorde pessoal na final. Ele jogava em todas as posições do campo, enlouquecendo literalmente os adversários argentinos com suas técnicas e táticas. Dentro desses parâmetros que deveria ser realizada a análise, não somente na final, mas em todo o período do campeonato”, concluiu.

O colunista esportivo Boris Lévin discorda de Ivanov. Ele acredita que esta Copa não produziu nenhum jogador que merecesse o título de melhor do mundo.

“Quem merecia realmente a Bola de Ouro? Alguém que não tivesse concorrentes à altura, como foi Maradona em 1986 ou Paolo Rossi em 1982 ou até mesmo Johan Cruijff em 1974. Este campeonato se mostrou desinteressante em seus momentos cruciais, previsível e, até certo ponto, pouco dramático. Portanto, não se pode nomear heróis. Foi dado o prêmio ao ganhador costumeiro –Lionel Messi.

Já o jornalista do “Sport-Express”, Dmítri Jilin, observa que as copas mais significativas foram aquelas ocorridas nos países com forte tradição de futebol.

“Talvez seja apenas coincidência, mas ultimamente, as Copas mais emocionantes e vibrantes foram realizadas nos países considerados potência no futebol: a França em 1998, a Alemanha em 2006 e, é claro, a deste ano no Brasil. As copas dos Estados Unidos e da Coreia deixaram uma experiência vazia em certo ponto. Agora, o que serão das copas na Rússia em 2018, onde a maioria da população não se interessa por futebol e, principalmente, no Catar em 2002 –só podemos especular”, acredita Jilin.

 

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