Três desafios da Rússia como sede da Copa de 2018

Aperfeiçoar a seleção russa é uma das prioridades do país para o torneio Foto: RIA Nóvosti

Aperfeiçoar a seleção russa é uma das prioridades do país para o torneio Foto: RIA Nóvosti

Em quais questões o país precisa se concentrar nos preparativos para o evento? Com o fim do Mundial de 2014 neste domingo (13), a atenção ficará agora voltada à Rússia, que será palco de sua primeira Copa do Mundo na história do torneio. O comentarista russo James Ellingworth identifica três principais desafios aos quais o país deve se atentar se quiser sediar um evento de sucesso daqui a quatro anos.

Falta pouco para o final do Mundial de 2014. Depois de o Brasil amargar uma nova derrota para a Holanda neste sábado (12), resta apenas a grande decisão entre Alemanha e Argentina. Daqui a algumas horas, o mundo inteiro terá que esperar mais quatro anos até a próxima edição da Copa do Mundo, que será realizada na Rússia.

Os preparativos para o torneio, o primeiro a ser realizado no país, já estão em andamento, mas ainda há muito trabalho pela frente. Doze estádios em 11 cidades-sede se espalham por quase 2.500 km de oeste a leste – a preparação para a Copa do Mundo vai ser tão intensa quanto foi para as Olimpíadas de Inverno de Sôtchi, mas com o problema adicional de lidar com a enorme extensão do território russo.

Com isso em mente, aqui estão os três principais desafios da Rússia para a Copa de 2018:

1. Confrontar o legado dos anos 1990

A Rússia nunca foi favorita para vencer a Copa do Mundo no Brasil, mas a maneira como saiu do campeonato – três jogos e nenhuma vitória em um grupo fraco – tem levantado temores de que o Mundial 2018 seja pouco agradável para os torcedores nacionais. A vantagem de jogar em casa ajuda, mas a Rússia deve se preparar para evitar a repetição do destino trágico dos últimos dois anfitriões da Copa do Mundo - a eliminação da África do Sul na fase de grupos, em 2010, e a humilhação recente sofrida pelo Brasil.

Com muitos dos escalados de 2014 com idade avançada para jogar daqui a quatro anos, muita coisa vai depender de novas estrelas. Entre eles, o craque Alan Dzagoev, 24 anos, que deve estar no seu auge em 2018, o atacante de 23 anos Denis Cheryshev, do Real Madrid, que até agora prometeu muito, mas demonstrou pouco, e (talvez) o zagueiro de 18 anos, Amir Natkho, que já teria assinado um contrato com o Barcelona.

Os jogadores mais jovens da Rússia cresceram na caótica década de 1990, quando bons alimentos eram muitas vezes escassos, e a infraestrutura do futebol juvenil, antes bem estruturada, estava definhando. Uma boa nutrição e treinamento pesado dos jovens são amplamente vistos como fatores-chave para o desenvolvimento dos jogadores. Isso significa que o sucesso em 2018 representará também o triunfo da Rússia contra a sua própria história recente.

2. Construir, construir, construir

Parece óbvio que, para sediar a Copa do Mundo, é preciso construir uma ampla infraestrutura, mas é de se surpreender como os países anfitriões só descobrem o verdadeiro desafio durante as obras. Nos preparativos para a Copa do Mundo de 2014, o Brasil correu para finalizar os estádios, estradas e aeroportos e, assim, evitar constrangimento público durante o torneio.

Algumas das consequências parecem triviais, como os torcedores que ficaram encharcados na segunda semifinal, entre Argentina e Holanda, pois o teto do estádio não estava completamente acabado. Mas uma sombra foi projetada sobre o torneio, quando duas pessoas morreram após o desabamento de um viaduto em Minas Gerais, construído no contexto da Copa do Mundo.

Os planos da Rússia são grandiosos e, até agora, ao que parece, estão no caminho certo. A maioria dos estádios tiveram seus projetos certificados este ano, e as obras estão iniciando. Três deles já estão acabados, já que foram erguidos para outras ocasiões, como o Estádio Olímpico Fisht, que foi usado nas Olímpiadas de Inverno de Sôtchi, em fevereiro passado. O primeiro local a sediar um jogo de futebol no Mundial de 2014 será o estádio do Spartak, em Moscou (temporariamente conhecido como Otkritie Arena, por questões de patrocínio), que vai receber o seu primeiro jogo do campeonato nacional já em setembro.

Mas a Rússia ainda enfrenta alguns desafios em termos de infraestrutura para a Copa do Mundo. As construções de Sôtchi foram (praticamente) finalizadas a tempo, mas todos os locais de competição estavam concentrados em um só lugar. A supervisão eficaz dos 12 estádios espalhados por todo o país será mais difícil agora. Outra questão fundamental será também convencer os investidores privados a criar a quantidade necessária de hotéis e espaços para acomodação. Se a tarefa parece fácil em Moscou ou São Petersburgo, não será tão simples assim em cidades do interior e “fora de moda”, como Samara ou Saransk.

3. Manter os torcedores certos nos estádios, afastar os errados

A torcida em casa é crucial para uma Copa do Mundo, e o Brasil não decepcionou a esse respeito – pelo menos, não em grande parte dos jogos. Nos estádios ou nos pontos de transmissão pública, como na praia de Copacabana, a multidão brasileira demonstrou muita animação. Tão importante quanto, a confusão das torcidas organizadas não teve qualquer espaço no evento.

Agora é a vez da Rússia corresponder a tais expectativas. Em primeiro lugar, levar as pessoas aos estádios. Chamar as pessoas para a Copa do Mundo não será difícil, o problema será depois que o evento acabar. A África do Sul, por exemplo, têm se esforçado para encontrar torcedores suficientes entre os locais para encher os estádios em campeonatos de menor envergadura. Os torcedores russos desenvolveram o hábito de assistir aos jogos pela TV em vez de ir a estádios. A frequência média nos jogos de primeira divisão da Rússia gira em torno de 13.000 espectadores – muito menos do que a maioria das ligas europeias. As novas e modernas arenas para 2018 devem ajudar, e a Copa do Mundo é uma experiência única, mas os organizadores do torneio precisam ser cautelosos em assumir que o público mudará de atitude de uma hora para a outra.

Um desafio maior ainda será excluir, ou pelo menos controlar, os fãs com tendências racistas ou violentas. A polêmica veio novamente à tona no mês passado, quando alguns torcedores russos exibiram símbolos nacionalistas e extremistas em um jogo da Copa do Mundo, e ninguém quer a repetição desses fatos em 2018.

Existem problemas nos próprios clubes nacionais. O CSKA Moscou, campeão do torneio russo, foi alvo de duas sanções europeias na última temporada pelo comportamento racista de seus torcedores. Os cânticos preconceituosos nem sempre são levados a sério pelas autoridades de futebol e agentes de aplicação da lei no país. A violência nos estádios não é, de forma alguma, um caso inédito.

Uma nova lei que estabelece punições mais severas em situações semelhantes promete reduzir a incidência desses tipos de crime. Essa norma dá às autoridades novos recursos para impedir infratores de assistir a eventos desportivos, mas ainda é preciso usá-la em larga escala.

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