Quando a bola estiver com a Rússia

Copa 2018 será realizada em 11 cidades russas Foto: Divulgação

Copa 2018 será realizada em 11 cidades russas Foto: Divulgação

Entusiasmo despertado pelo Mundial no Brasil vai pouco a pouco colocando a sede do próxima Copa no centro das atenções. Mas, afinal, por que a Fifa apostou na Rússia?

Há muitos anos, o governo russo vem se empenhando em desenvolver o conceito de “soft power”, expandindo sua influência mundo afora por vias não militares. Ao ser escolhido para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, a Copa do Mundo de 2018 e vários outros eventos esportivos notáveis, como o Mundial de Atletismo e Grande Prix de Fórmula 1, o país volta a ser destaque na cena internacional e quer mostrar avanços em outras áreas para além de bons resultados esportivos.

Consciente do poder unificador e mobilizador do esporte, o Kremlin tem desenvolvido uma estratégia baseada na promoção do esporte entre os jovens e vai investir, a partir de setembro, um montante anual de quase 100 milhões de reais para que a Rússia volte a ser um importante polo esportivo mundial.

Nesse aspecto, o país é aliado dos outros membros do Brics (Brasil, Índia, China e África do Sul) ao demonstrar a importância dos países emergentes no mundo dos esportes. Com exceção da Índia, todos os países do grupo já sediaram ou vão sediar eventos esportivos internacionais de grande porte. A decisão da Fifa de levar a Copa do Mundo de 2018 à Rússia se deve a vários fatores complementares.

Em primeiro lugar, trata-se de um país com uma forte cultura esportiva, apesar de existirem enormes disparidades entre as diferentes modalidades. Recentemente, o futebol russo apresentou certo progresso e, embora seus vizinhos europeus continuem mostrando melhor desempenho, alguns atletas da ex-URSS já figuraram entre os melhores do mundo.

Além disso, a Rússia nunca passou pelo teste de sediar o evento do esporte mais popular do mundo, e o interesse da Fifa é atrair um novo segmento da população mundial.

Apesar do descontentamento de grande parte dos brasileiros, insatisfeitos com os gastos do Estado na organização do Mundial e com a falta de investimento nas áreas de transporte e saúde, a Rússia não parece estar sujeita ao mesmo clima de hostilidade. Ao contrário do Brasil, o país já conta com importantes infraestruturas de transporte – tais como trens de alta velocidade entre as principais cidades do país.

A experiência dos Jogos Olímpicos de Sôtchi também deixou claro que o elevado custo para realizar esse tipo de evento não tende a provocar mobilizações similares em território russo. A Fifa pode tranquilamente prever a ocorrência de poucos ou até mesmo nenhum protesto popular, o que prejudicaria a imagem da organização já manchada pelos recentes escândalos de corrupção.

Por fim, a escolha da Fifa pode ser explicada também pela situação geopolítica do país. A Rússia tem meios para financiar a infraestrutura necessária – estádios, setor imobiliário etc –, e não enfrente uma instabilidade política interna. Nas palavras de Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégia, “a escolha da Rússia representa para a Fifa a garantia de um Estado forte, onde não haverá interferências de disputas políticas”.

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