Kremlin corre pelo ouro olímpico em Sôtchi

Não há dúvida de que Sôtchi-2014 será uma das Olimpíadas mais extravagantes, talvez de todos os tempos Photo: Photoshot / Vostock photo

Não há dúvida de que Sôtchi-2014 será uma das Olimpíadas mais extravagantes, talvez de todos os tempos Photo: Photoshot / Vostock photo

Quando os telespectadores do mundo todo sentarem para assistir às Olimpíadas de Inverno de Sôtchi 2014, poderão se surpreender com o que verão: estádios futuristas e com tecnologia de última geração à beira-mar, imagens deslumbrantes de uma estação de esqui de primeira classe nas montanhas cobertas de neve do Cáucaso e uma Vila Olímpica nova e ampla, emoldurada por palmeiras subtropicais. O desenvolvimento de Sôtchi como sede dos Jogos Olímpicos de Inverno é um empreendimento épico que, se tudo correr como planejado, vai apresentar a “nova Rússia” para o mundo como uma grande potência, com economia moderna.

O que torna a transformação de Sôtchi ainda mais ambiciosa é o fato de nenhuma dessas estruturas existir alguns anos atrás. Quando a cidade venceu os concorrentes olímpicos em 2007, alguns comentaristas disseram que Pyeongchang (2º lugar) e 
Salzburgo (3º) eram escolhas mais adequadas. De fato, muitas das instalações olímpicas de Sôtchi ainda estavam sendo finalizadas até o início do ano. O Estádio Olímpico Fisht, local de abertura e encerramento do evento, era uma delas. Por isso, a cerimônia de abertura promete ser um momento dramático não apenas para o resto do mundo, mas sobretudo para os organizadores russos.

Apesar de todos os novos espaços para competição de Sôtchi já terem sediado eventos internacionais, eles são quase tão novos para a equipe olímpica russa quanto para os atletas estrangeiros que chegarem para o evento. A área de salto de esqui começou a ser usada apenas recentemente, após atrasos significativos e estouros de orçamento. Os excessos foram tão expressivos que o chefe do projeto foi repreendido em rede nacional pelo presidente Vladímir Pútin. Esta temporada de esqui é também a primeira vez que o novo trem de montanha, responsável pelo transporte dos visitantes entre o Cluster Costeiro e o Cluster de Montanha, começou a fazer viagens de ida e volta.

O que a Rússia fez ao definir Sôtchi como a anfitriã dos Jogos Olímpicos de 2014 foi colocar em prática o modelo tradicional de eventos esportivos. Esse modelo, que existe desde que os Jogos Olímpicos foram sediados nos EUA, Canadá e países europeus, consiste em escolher uma estação de inverno, enfeitá-la, adicionar alguns toques modernos e não se preocupar muito com outros fatores – como, por exemplo, se realmente neva ou não. O governo russo propôs, porém, começar do zero em uma cidade sem tradição de esqui alpino, e mais conhecida pelos russos como um resort de verão na “Riviera russa”. Devido ao clima subtropical de Sôtchi, a previsão de neve durante o evento ainda é questão de especulação global.

Uma década atrás, Sôtchi não tinha uma única área de esqui de qualidade, e nada teria insinuado que a cidade pudesse se tornar no futuro sede de uma Olimpíada de Inverno. Tudo isso mudou quando Pútin fez das montanhas de Krásnaia Poliana seu retiro de esqui. 

Para convencer os russos endinheirados, que poderiam ir para o exterior em busca de estações, nenhuma despesa foi poupada. Rosa Khutor, a estação principal, tem uma das maiores quedas verticais do mundo e foi construída com a ajuda de especialistas europeus e americanos. Nos picos de maior elevação, dá para se imaginar na Suíça ou Áustria. As estradinhas de montanha estão agora cheias de chalés de esqui e hotéis no estilo europeu. Os esquiadores olímpicos dos EUA que tiveram a chance de conferir as instalações de Sôtchi chamaram o espaço de “surreal”, como se a Rússia tivesse construído uma Disneylândia de inverno. 

Os críticos – e não são poucos – alegam que Sôtchi-2014 é simplesmente um projeto de prestígio pessoal para Pútin, assim como uma grande tentativa de colocar a Rússia de volta no mapa a um custo altíssimo para os cofres públicos.

Uma das principais críticas se refere aos crescentes gastos, atualmente na ordem dos US$ 50 bilhões, o que torna as Olimpíadas de Sôtchi as mais caras da história do evento. Mas nem tudo foi investimento, já que o valor exorbitante foi inflado também pela corrupção endêmica e pela burocracia russa. 

Como o projeto exigia a transformação de um resort subtropical em uma maravilha de inverno, Sôtchi se tornou uma das maiores áreas de construção na Europa.

Não há dúvida de que Sôtchi-2014 será uma das Olimpíadas mais extravagantes, talvez de todos os tempos. O revezamento da tocha olímpica, que vai durar 123 dias, incluiu uma caminhada a bordo da Estação Espacial Internacional, visita a um vulcão ativo e viagem subaquática no lago Baikal. 

Os organizadores prometem o maior número de medalhas e eventos da história dos Jogos de Inverno. A prova real, é claro, virá apenas depois dos Jogos. Será que Sôtchi-2014 conseguirá garantir sucesso para a região e torná-la um destino internacional de turismo?

 

É nesse ponto que a Rússia pode ter vantagem sobre as nações que já sediaram os Jogos Olímpicos. Enquanto os outros países são perseguidos pela herança de estádios subaproveitados, o Kremlin estabeleceu desde o início a programação de alguma atividade futura para cada um dos locais de competição. O estádio principal de hóquei no gelo, o Bolshoi, sediou recentemente o Fórum Internacional de Investimento de Sôtchi. A Vila Olímpica, próxima ao mar Negro, vai se tornar um complexo residencial de alto padrão. Há planos de desmontar instalações e reerguê-las em outros lugares do país.

As autoridades de Sôtchi vêm mantendo a cidade ocupada para apresentá-la como uma opção de férias durante o ano todo. Em junho, Sôtchi receberá a Cúpula do G8, e a Fórmula 1 na segunda metade do ano. Em 2018, o Estádio Olímpico Fisht será um dos estádios oficiais da Copa do Mundo na Rússia. Paralelamente, os novos resorts de inverno construídos nas montanhas tentarão atrair visitantes de outras partes do país e da Europa.
Os Jogos Olímpicos de Inverno Sôchi-2014 devem ser vistos como parte de uma tendência geopolítica mais ampla, a qual Thomas 
Friedman se refere como “achatamento” do mundo, à medida que as novas potências mundiais assumem a realização de eventos internacionais e anunciam sua estreia no cenário mundial. A lista continua a crescer: Pequim (Jogos Olímpicos de Verão de 2008), África do Sul (Copa do Mundo de 2010), Brasil (Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016), Pyeongchang (Jogos Olímpicos de Inverno de 2018) e Qatar (Copa do Mundo de 2022). Por essa perspectiva, o fato de a Rússia sediar os Jogos Olímpicos de Inverno em 2014 não é uma anomalia histórica, mas um sinal do que está por vir.

 

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