Mitos e verdades sobre Sôtchi

Mídia fala do orçamento colossal dos Jogos, atribuindo o fato à corrupção desenfreada Foto: Reuters

Mídia fala do orçamento colossal dos Jogos, atribuindo o fato à corrupção desenfreada Foto: Reuters

Restam poucos dias para a abertura oficial dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sôtchi. Enquanto são feitos os últimos preparativos, os atletas vão chegando aos alojamentos e os turistas aos hotéis da cidade. Conheça os principais mitos referentes aos Jogos, criados pela mídia ocidental.

Mito n.º 1: Sôtchi é uma cidade insegura

A mídia ocidental diz que Sôthi se localiza perto das repúblicas do norte do Cáucaso, classificadas como zonas de conflito, podendo ser alvo de ações terroristas. Os recentes ataques em Volgogrado, onde explosões ocorridas no dia 30 de dezembro passado deixaram mais de 30 feridos, reforçaram este receio. Representantes oficiais britânicos alertaram para o alto risco de ações terroristas, enquanto o comitê olímpico britânico aconselhou os turistas do país a esconderem sua origem e a “não vestirem roupas que denunciem sua nacionalidade”.

Todavia, os fatos mostram que o perigo é exagerado. Primeiro, porque Sôtchi não fica próximo a qualquer zona de guerra. A rodovia que liga Sôtchi a Makhachkalá, cidade que é o ponto mais conturbado do norte do Cáucaso, tem 972 km (mais ou menos a distância de Paris a Leipzig). Até Naltchik, a cidade mais próxima do centro olímpico, são 653 km (distância equivalente àquela entre Londres e Edimburgo).

Segundo, durante os Jogos, serão tomadas medidas de segurança excepcionais. A tranquilidade dos atletas e turistas estará a cargo de um “exército” composto por mais de 30 mil policiais, auxiliados por forças locais. Automóveis de outras regiões da Rússia não entrarão em Sôtchi, e pacotes enviados pelo correio serão examinados.

O custo da segurança dos Jogos Olímpicos está avaliado em milhões de dólares, e sabe-se que os terroristas do norte do Cáucaso já não possuem recursos suficientes para abalar semelhante sistema de segurança.

Mito n.º 2: Não haverá neve, pois se trata de um balneário de temperaturas amenas

De fato, é raro nevar em Sôtchi, mas as provas serão realizadas não na cidade, mas nas montanhas que a rodeiam. Neste momento, há neve nos locais das competições, e mesmo que ela derreta até o início dos Jogos, não haverá crise, pois o Comitê Olímpico da Rússia aprendeu com os Jogos de Vancouver, no Canadá, e tomou as medidas necessárias para evitar transtornos. Desde março do ano passado tem sido recolhida neve nas encostas dos montes dos arredores de Sóchi. A neve foi armazenada e conservada sob uma cobertura isotérmica, cuja área total é de 120 mil m2, em uma operação que custou cerca de US$ 6 milhões.

Mito n.º 3: Os Jogos Olímpicos deram oportunidade para a corrupção

A mídia fala do orçamento colossal dos Jogos, atribuindo o fato à corrupção desenfreada. Enormes fundos teriam sido desviados e a construção das instalações olímpicas está atrasada. Na realidade, não é bem assim. O orçamento parece um exagero não devido à corrupção, até certo ponto uma realidade, mas a despesas inesperadas. Se trata de um fenômeno corrente em todos os Jogos Olímpicos. Por exemplo, o orçamento inicial dos Jogos de Montreal, em 1976, era de US$ 124 milhões, mas terminou em um total de US$ 2,8 bilhões. A verba destinada aos Jogos da Grécia cresceu de US$ 1,6 bilhão para US$ 16 bilhões. Os custos dos Jogos de Pequim, inicialmente estimados em US$ 1,6 bilhão, alcançaram US$ 40 bilhões. Os de Londres, que deveriam custar 2,4 bilhãde libras, ficaram em 10,7 bilhões. Quanto às estruturas para os Jogos de Sóchi, segundo os dirigentes russos e os responsáveis do Comitê Olímpico Internacional (COI), já estão prontas há muito tempo, e as competições realizadas para testar as instalações orreram de forma absolutamente normal. Há algumas falhas que precisam ser corrigidas, mas isso acontecerá antes do início dos Jogos.

Mito n.º 4: Os turistas estrangeiros da comunidade gay poderão ser presos ou multados

A lei russa que proíbe a propaganda gay dirigida a menores, tão criticada no Ocidente, abrange, de fato, os estrangeiros. Estes, caso cometam o crime previsto na lei, serão multados entre US$ 120 e US$ 150, podendo ainda sofrer uma pena de 15 dias de prisão administrativa (isolamento social coercivo que não consta no registo criminal), após a qual serão extraditados.

Na Rússia ninguém é perseguido por suas inclinações sexuais. “As pessoas podem viver sua intimidade e publicitar benefícios e atrativos desta entre adultos. O importante é não afetar as crianças”, afirmou Dmítri Kozak, vice-primeiro-ministro da Rússia. Mesmo assim, para quem não acredita na força da legislação russa, o presidente do país, Vladímir Pútin, deu sua garantia de que os homossexuais que visitarem Sôtchi não serão alvo de perseguição. Segundo informações ainda não confirmadas, participará da cerimônia de abertura o grupo musical t.A.T.u., dupla feminina russa que se declarou lésbica e teve dias de grande popularidade no país. Tendo em conta a importância dos Jogos, tanto para a Rússia como para seus dirigentes, Pútin dificilmente estragaria a ocasião com conflitos com homossexuais.

Claro que há a possibilidade de um atleta olímpico fazer uma demosntração em apoio à comunidade gay russa, a exemplo da atleta sueca  Emma Green Tregar, que durante o Campeonato Mundial de Atletismo de Moscou pintou as unhas com as cores do arco-íris, mostrando-as ao público. De qualquer modo, os atletas devem se preocupar não com as diretrizes de Pútin, mas com as regras do COI, que determina que um atleta que se entregue a qualquer manifestação política durante os Jogos arrisca receber uma longa pena de suspensão.

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