Instituto cria sistema inédito para preparação de atletas

A experiência dos últimos anos tem mostrado que é impossível deixar a formação do atleta inteiramente à mercê do treinador, mesmo que ele no passado tenha tido excelentes resultados Foto: Mikhail Mordassov

A experiência dos últimos anos tem mostrado que é impossível deixar a formação do atleta inteiramente à mercê do treinador, mesmo que ele no passado tenha tido excelentes resultados Foto: Mikhail Mordassov

Gazeta Russa conversou com Mikhail Chestakov, do Centro de Preparação Esportiva de Equipes Nacionais da Rússia, para saber se a ciência conseguirá preparar um campeão olímpico.

A Rússia criou um sistema de base científica para preparar equipes olímpicas que não existe em nenhum outro lugar do mundo. A informação é do diretor do Centro Analítico FGBU – Centro de Preparação Esportiva de Equipes Nacionais da Rússia,  professor Mikhail Chestakov. A Gazeta Russa conversou com Chestakov para saber se a ciência conseguirá preparar um campeão olímpico.

Gazeta Russa – A URSS foi o primeiro país do mundo onde as equipes nacionais tinham grupos de trabalho científico que em grande medida asseguravam ao país o primeiro lugar na classificação dos rakings mundiais. Mas conseguirá a ciência russa moderna competir com aquilo que se utiliza para a preparação dos atletas estrangeiros?

Mikhail Chestakov – Agora se criou na Rússia um sistema de base científica de preparação de equipes olímpicas que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Resumidamente, ele assenta no seguinte: no Ocidente, os cientistas transmitem aos treinadores das equipes nacionais os resultados de suas pesquisas, ou os próprios treinadores enviam os seus ginastas e atletas para o laboratório, onde suas características são exaustivamente estudadas. Mas o que fazer depois com os números obtidos? Em última análise, o treinador é deixado sozinho com os dados obtidos.

Nós desenvolvemos uma abordagem radicalmente diferente. No nosso caso, os cientistas ficam em contato constante com o treinador e tentam entender e analisar juntamente com ele os resultados dos testes que caracterizam o estado dos atletas. E é sobre esta base que se constrói então todo o processo de treinamento.

Permita-me explicar com um exemplo de dois dos nossos laboratórios científicos da Central Analítica criados em Moscou e Sôtchi. Temos ali concentrado o equipamento mais avançado do mundo, que nos permite estudar o atleta não por pontos, mas no seu todo, e também monitorar todos os parâmetros necessários. E, o mais importante, que nos permite ver todos os dias como eles interagem uns com os outros, dependendo da carga do treino. Afinal, o corpo do atleta é uma orquestra com muitos "solistas" e, por isso, é extremamente importante monitorar simultaneamente cada um deles. Esse monitoramento contínuo é uma abordagem radicalmente nova na preparação do atleta.

Com base nos dados coletados se constrói então o modelo matemático do organismo do atleta analisado, levando em conta as suas particularidades e capacidades individuais. A preparação como tal para obter futuros resultados elevados começa precisamente com as discussões desse modelo com o treinador.

Ou seja, esse modelo mostra que sob determinadas condições o atleta vai ter determinados resultados?

Isso é pouco. O modelo processa não apenas a informação sobre o atleta olímpico, mas também sobre seus principais adversários e sobre a dinâmica de seus resultados. Qual é a principal vantagem disso? É que com ele avaliamos não apenas a condição do atleta naquele momento, mas também temos um vislumbre do futuro, ou seja, podemos prever qual deverá ser o conjunto de parâmetros dessa pessoa em particular para que dentro de tantos dias se consigam obter determinados resultados. Além disso, com a ajuda deste modelo pode se traçar todo o caminho de como chegar até o local desejado. E é com base nisso que se elabora então todo o processo de treinamento.

Mas se a ciência consegue determinar tudo com horário e dias, que falta faz então o treinador?

As coisas não são assim simples. Existem vários caminhos para fazer o atleta atingir o seu pico. Com base em cálculos exatos podemos mostrar cada um deles e explicar os seus riscos. Mas por qual deles optar? Esta decisão pertence exclusivamente ao treinador.

E os treinadores estão prontos para aceitar a sua ciência? Afinal, eles têm em seus ombros uma enorme experiência em preparação de campeões, sabem seus segredos, conhecem seus métodos. Como ficam as relações com os mentores dos atletas?

Não é fácil. Afinal, estamos falando de gente muito respeitada em seus campos de atuação. Mas quase todos eles compreendem que hoje o conhecimento na esfera do esporte está mudando rapidamente. Agora precisamos ficar a par das inovações, compreender a sua essência e reagir rapidamente a elas. Essas exigências se aplicam atualmente a todos os treinadores da equipes olímpicas.

Além disso, a experiência dos últimos anos tem mostrado que é impossível deixar a formação do atleta inteiramente à mercê do treinador, mesmo que ele no passado tenha tido excelentes resultados. Aquilo que resultava em sucesso ontem, hoje já não funciona, e o impulso para avanços vêm principalmente de novas tecnologias e metodologias.

Mas precisamos fazer com que os treinadores e atletas se interessem por trabalhar em conjunto com a gente. E aqui as palavras não contam, o importante são os resultados. Iniciamos o nosso trabalho há três anos, praticamente do zero. Tivemos que rever e chegar à raiz de todas as principais abordagens de interação entre a ciência e o esporte. Afinal, não estamos lidando com pessoas comuns. São pessoas que, na sua essência, trabalham o ano todo no limiar do impossível. Existem aqui requisitos especiais para o corpo, são necessários métodos especiais de trabalho com ele.

Passamos um ano inteiro recolhendo as informações primárias sobre o que constitui cada atleta olímpico. E quando os membros das equipes nacionais viram que trabalhando em colaboração com a gente eles conseguiam chegar aos resultados que os cientistas previam, nós ganhamos neles novos apoiantes e a atitude do esporte em relação à ciência mudou radicalmente.

Não será já tarde propor esta ciência na preparação para Sôtchi?

Acho que não. A simbiose criada esporte/ciência funciona de verdade. Sôtchi será para nós o primeiro teste. Dependendo dos resultados do sistema de controle do processo de treinamento, será depois necessário continuar a utilizá-lo, melhorá-lo e seguir em frente.

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