Cartão vermelho para árbitros russos

Foto: ITAR-TASS

Foto: ITAR-TASS

Presidente da comissão de inspeção da Federação Russa de Futebol comenta exclusão de árbitros russos da lista de candidatos para a Copa do Mundo no Brasil, em 2014, e a possibilidade de a categoria não participar do campeonato em casa.

Presidente da Comissão de Inspeção da Seleção Russa de Futebol e ex-juiz de futebol internacional, Aleksêi Spírin é um dos árbitros mais famosos da Rússia. Ele comenta o fato de os árbitros russos não serem incluídos na lista de 156 candidatos à participação no principal torneio de futebol do mundo.

GR: Por que a Rússia ficou de fora dessa lista?

Aleksêi Spírin: Falando francamente, já esperávamos por isso. Falhamos no trabalho, e esperávamos que Aleksêi Nikolaev e Vladislav Bezborodov pudessem participar do Campeonato Europeu e, depois disso, partissem para a Copa do Mundo. Eles faziam parte do grupo de elite mas, infelizmente, ambos foram malsucedidos nas temporadas europeias. Além disso, Nikolaev caiu dois níveis na classificação hierárquica da Uefa, e Bezborodov deu uma diminuída no ritmo. Cometemos um grave erro de cálculo em relação à nossa escolha.

GR: Como esse fato irá refletir nas atividades dos árbitros do país?

AS: Dessa forma se prejudica a imagem e se perde a credibilidade dos árbitros russos. Pela mesma razão, diminui o número de indicações para torneios de clubes europeus. Agora, precisamos pensar no futuro. Estamos empenhados em levar os árbitros russos para o campeonato europeu em 2016. Continuamos, como antes, sem representantes em dois dos grupos de classificação de elite mas, no terceiro, temos o nosso pessoal: Serguêi Karasev, em quem apostamos mais, e Bezborodov, cuja qualificação é suficientemente elevada, de acordo com a Uefa.

Anti-herói do campo

No final de março, foi publicada pelo Comitê para a seleção de árbitros, para a Copa do Mundo de 2014, da FIFA, uma lista de candidatos da qual constam 52 equipes de árbitros de todos os continentes. Nenhum deles era russo.

Entre os que disputam vagas no campeonato sediado no Brasil, há representantes de países que estão longe de serem os mais ligados a futebol, como a Hungria, El Salvador e Taiti. Na lista há países que têm duas equipes: Inglaterra, Alemanha, Espanha e Itália.

O último árbitro russo a trabalhar em uma Copa do Mundo, foi Valentin Ivanov, que apitou a partida das oitavas de final entre Portugal e Holanda na Copa do Mundo de 2006, realizada na Alemanha. Ivanov deu 16 cartões amarelos, quatro dos quais foram aplicados duas vezes e se transformaram em cartões vermelhos. O número foi um recorde desagradável.

GR: Quem tem mais chances no Euro 2016?

AS: Na nossa opinião, quem tem mais chances agora é Karasev. Sua habilidade aumenta a cada dia, especialmente nos torneios europeus. Ele recebeu críticas e elogios de Roberto Rosetti, Pierluigi Collina e outros membros do Comitê de Árbitros da Uefa. Karasev tem 33 anos, é uma idade que lhe permite se considerar um candidato em potencial para a Euro 2016 e para a Copa do mundo na Rússia, em 2018. Se não der certo, então correremos o risco de ficar sem árbitros russos no campeonato que em casa. É pouco provável que seja aberta uma exceção em relação aos nossos árbitros apenas por nosso país ser o anfitrião.

GR: É justo que alguns países sejam representados por dois árbitros e outros não tenham nenhum?

AS: Há critérios de seleção bem definidos. Nesse caso não há nenhuma subjetividade. A gente vê que tem problemas em ser representado no nível mais elevado. Naturalmente, poderíamos promover um árbitro através de alguma jogada política, mas o que iríamos ganhar com isso? Nossos árbitros não adquirem experiência, não ganham a prática dos jogos de nível mais elevado, e isso tem consequências muito sérias. Nesse campo ficamos para trás e admitimos isso.

GR: O que precisa ser feito para melhorar a qualificação dos árbitros russos?

AS: Não dá para se transformar em juiz instantaneamente. Todos passam por determinado número de erros. É importante que esses erros sejam cometidos nos estágios iniciais, quando existe uma responsabilidade menor. Dentro do possível, é preciso se lembrar dos próprios erros, para não repeti-los mais. A experiência é tudo. Além disso, é indispensável desenvolver qualidades pessoais, ser carismático. Entenda, se um árbitro assim comete um erro, ele não perde a confiança. É imprescindível desenvolver todas essas qualidades, começando desde o momento da seleção.

GR: Rosetti diz que o problema dos nossos árbitros está nas suas idades...

AS: A juventude não é um problema, é nosso potencial. Na Itália, por exemplo, após a mais profunda crise em relação aos árbitros, foi criado um sistema de seleção e formação de árbitros. Eu conheci o próprio Rosetti quando ele era um menino, numa ocasião em que fui à Itália. Temos um sistema que ora está em construção, ora desmorona, quando na verdade deveria haver continuidade. Nosso principal problema é a falta de desenvolvimento de centros regionais. Temos meninos talentosos, mas eles precisam ser descobertos e treinados. Atualmente, querendo ou não, tivemos que apostar em um pessoal jovem. No ano passado admitimos oito rapazes e, neste ano, levamos mais seis para a seleção. A maioria dos candidatos tem idades entre 26 e 32 anos. São pessoas que estão no auge de sua forma física e, espero, assim estão também no plano intelectual. Nossa tarefa é completar sua formação, e isso leva tempo. E o tempo é o melhor remédio.


Originalmente publicado pelo Izvéstia

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.