Como os primeiros bilionários russos chegaram lá?

Transição do comunismo ao capitalismo abriu nichos que estes empreendedores viram de longe.

Transição do comunismo ao capitalismo abriu nichos que estes empreendedores viram de longe.

V.Tarabashchuk/TASS
Eles consertavam computadores, faziam bonecas em casa e realizavam as tarefas mais improváveis antes de figurar nas listas da Forbes.

Tarássov, de ‘casamenteiro’ a comerciante de computadores

Artiom Tarássov / Foto: KommersantArtiom Tarássov / Foto: Kommersant

Em 23 de julho, morreu, aos 67 anos de idade, um dos primeiros homens a conquistar por vias legais seu primeiro milhão na Rússia, o empresário Artiom Tarássov.

O pioneiro era um dos que dizia que nunca tinha sonhado com isso, mas que a época de Gorbatchov abriu a oportunidade e era burrice não usá-la.

Quando, no final dos anos 1980, o cidadão comum passou a poder ter contas no banco e carimbos, ele resolveu abrir uma agência matrimonial.

“Naquele tempo, sem autorização não se podia trabalhar em Moscou, e só se podia obtê-la casando. Entende por que nos primeiros cinco dias de trabalho da nossa agência recebemos quatro mil pessoas? E cada uma delas pagava 25 rublos [43 dólares, na cotação daquele tempo]”, contou ele ao portal Gazeta.Ru em 2015.

É verdade que o negócio só durou mesmo seis dias: o governo considerou o nicho “imoral” na URSS.

A segunda tentativa dele foi no ramo de conserto de computadores e programas. Ele decidiu russificar programas estrangeiros e revender ao Estado.

Foi com dólares comprados de prostitutas que bilionário começou a levar computadores ao país. / Foto: Nikolai Moshkov/TASSFoi com dólares comprados de prostitutas que bilionário começou a levar computadores ao país. / Foto: Nikolai Moshkov/TASS

“Em um mês fizemos um milhão de rublos [US$ 1,7 milhão] trabalhando com os preços do Estado. Mas, sinceramente, estávamos em estado de choque quando lucramos isso: a gente ficava esperando a hora de nos botarem contra o muro e fuzilarem”, lembrou.  

Se o DOS já existia no país, os computadores em si, ainda não. “Tudo começou assim: a gente ia até as prostitutas e comprava os dólares delas a 3 rublos”, contou. Eles mandavam os dólares para o exterior com amigos que compravam computadores e traziam para a Rússia.

Sterligov, de passador de chapéu a acionista

Guérman Stérligov / Foto: Mítia Aleshkovski/TASSGuérman Stérligov / Foto: Mítia Aleshkovski/TASS

Até começar a vender caixões de elite – e, possivelmente, o pão mais caro da Rússia, a 1.650 rublos por forma, ou seja, 28 dólares -, o empresário ortodoxo Guérman Stérligov levantou seu primeiro capital na exploração não segmentada de estações de trem.

Para tanto, ele convenceu os diretores das estações da capital de que suas salas de espera eram ótimas câmaras de concertos.

Ele encontrava os artistas pelas ruas, os colocava para tocar por 15 minutos, enquanto recolhia dinheiro, e os grupos passavam a outras estações, substituídos por novos artistas.

“O dinheiro era socado em malas, e em alguns meses se comprava um carro. O maior problema era trocar as moedas de ferro por notas. Naquele tempo não tinha nem aluguel, nem os policiais recebiam, e por isso ficavam bravos. Isso foi em 1988”, disse ao jornal econômico Kommersant.

No mesmo ano, porém, proibiram-se as apresentações nas estações, e Stérligov, inspirado por algum filme americano de Wall Street, alugou uma sala, colocou alguns computadores e abriu a primeira operadora de ações do país, intitulada “Alissa”. No primeiro dia, fez 6 milhões de rublos (10,3 milhões de dólares).

Operadora de ações “Alissa”/ Foto: Borís Kavashkin, Liudmila Pakhomova/TASSOperadora de ações “Alissa”/ Foto: Borís Kavashkin, Liudmila Pakhomova/TASS

O Putsch de 1991, ou seja, o golpe dos comunistas para retomar o poder, só ajudou, segundo o próprio, já que no mesmo dia eles compraram todas as ações a preço de banana e, em três dias, quando tudo estava calmo novamente, seus preços subiram.

Abramovich, de manufator de bonecas a petroleiro e dono do Chelsea

Roman Abramovich / Foto: Serguêo Guneev/RIA NôvostiRoman Abramovich / Foto: Serguêo Guneev/RIA Nôvosti

Ainda na escola, Roman Abramovich comprava cigarros, chocolates, jeans e perfumes e os vendia por preços bem maiores, e resolveu não ir para a faculdade com a crença de que compraria o mundo todo mesmo assim.

Aos 22 anos de idade, ele criou a “Uiut”, uma empresa da brinquedos de polímeros, já que um amigo seu estava no ramo. Ele fazia as bonecas com a mulher e a filha em seu próprio apartamento.

Abramovich começou a montar bonecas em casa e achava que não precisava estudar para comprar tudo o que quisesse. Hoje tem até time de futebol./ Foto: Aleksandr Graschenkov/RIA NôvostiAbramovich começou a montar bonecas em casa e achava que não precisava estudar para comprar tudo o que quisesse. Hoje tem até time de futebol./ Foto: Aleksandr Graschenkov/RIA Nôvosti

No início, os brinquedos eram vendidos em hotéis, depois, em estações de metrô, e, mais tarde, nas lojas. No final das contas, as bonecas da “Uiuta” dominaram a Rússia inteira. E se todos os russos recebiam salários entre 100 e 200 rublos por mês (de 170 a 340 dólares), Abramovich recebia entre 3.000 e 4.000 rublos (US$ 2.150 a US$ 2.850).

Mas depois de alguns anos, as bonecas foram substituídas por derivados de petróleo. E, se ele não comprou o mundo todo, adquiriu bens bastante invejados, como o time de futebol inglês Chelsea, e encheu a conta com 9,1 bilhões de dólares, de acordo com a lista da Forbes de 2017.

Khodorkóvski, de sacador de dinheiro a petroleiro

Mikhail Khodorkóvski / Foto: ReutersMikhail Khodorkóvski / Foto: Reuters

O químico Mikhail Khodorkóvski, ex-diretor da petroleira Yukos e oligarca em desgraça na atualidade, registrou sua primeira cooperativa (firma na URSS) em 1987.

Como um dos únicos 33 Centros Técnico-Científico de Criação da Juventude do país, sua firma tinha direito de sacar dinheiro, ou trocar ações, títulos e outros papeis, ou seja, operações que não estavam abertas nem a pessoas físicas, nem a outros tipos de cooperativa.

Detentor de uma das pouquíssima empresas do país que podiam trocar títulos por dinheiro vivo, Khodorkóvski fez seu pé de meia. / Foto: V.Tarabashchuk/TASSDetentor de uma das pouquíssima empresas do país que podiam trocar títulos por dinheiro vivo, Khodorkóvski fez seu pé de meia. / Foto: V.Tarabashchuk/TASS

Assim, cobrando gordas comissões para fornecer dinheiro vivo aos clientes, e como fábricas, centros científicos e escritórios de engenharia preferiam esse método ao sistema estatal, considerado muito burocrático, sua firma teve uma receita de 80 milhões de rublos, ou seja, US$ 137 milhões.

Em seguida, ele recebeu autorização para criar também um banco cooperativo.

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