“A Rússia e os EUA são inimigos muito convenientes”

Rodzianko: “O principal problema [entre empresas do EUA e da Rússia] é psicológico, é preciso ultrapassar essa barreira”

Rodzianko: “O principal problema [entre empresas do EUA e da Rússia] é psicológico, é preciso ultrapassar essa barreira”

Aleskêi Kudenko/RIA Nôvosti
Em entrevista exclusiva, presidente da Câmara de Comércio dos EUA na Rússia conta por que relações econômicas entre os países é subestimada e expõe alternativas para investidores em meio às sanções impostas contra Moscou.

O conflito político entre a Rússia e os Estados Unidos teve um impacto significativo sobre as relações comerciais entre os dois países.

Em entrevista à Gazeta Russa, o presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos na Rússia, Aleksêi Rodzianko, falou sobre como as empresas americanas se sentem no país e que novas oportunidades o mercado russo abre para os investidores norte-americanos.

Os especialistas afirmam que a contribuição das empresas norte-americanas à economia russa não é grande; o volume total de investimentos acumulados dos EUA no país é de apenas US$ 14 bilhões. A que se deve esse baixo nível de cooperação?

Aleksêi Rodzianko: As estatísticas comerciais são baseadas somente em dados fornecidos pelos serviços aduaneiros dos Estados Unidos e da Rússia. No entanto, diversos produtos e investimentos norte-americanos chegam à Rússia não diretamente, mas por meio de outros países. Assim, o envolvimento real das empresas norte-americanas na economia russa é muito subestimado.

As empresas norte-americanas são multinacionais e estão profundamente enraizadas na realidade local. Nos reunimos regularmente com diretores de empresas dos EUA que são cidadãos de outros países. Ao contrário das empresas alemãs ou francesas, as norte-americanas na Rússia não são necessariamente encabeçadas por [diretores] norte-americanos. Isso prova que essas empresas estão profundamente integradas na realidade econômica russa.

Quais empresas localizaram profundamente sua produção na Rússia?

No verão de 2014, após a introdução da sanções contra a Rússia, a rede fast food McDonald’s foi inspecionada em todo o país. Os inspetores examinaram a companhia cuidadosamente e descobriram que trata-se de uma das empresas mais localizadas no mercado russo: todos os produtos que a empresa vende na Rússia, incluindo a carne, são produzidos no próprio país.

Apesar de ser uma marca norte-americana, na Rússia, McDonald’s é uma ‘empresa russa’. É um bom exemplo de negócio norte-americano na Rússia cuja atividade não é incluída nas estatísticas de comércio entre os dois países.

Outro exemplo é a PepsiCo, que, de acordo com seus próprios dados, já investiu mais de US$ 9 bilhões na Rússia. Em particular, adquiriu a empresa local Wimm-Bill-Dann e se tornou o maior produtor de lácteos da Rússia. Então, se apenas uma empresa já investiu US$ 9 bilhões no mercado russo, o montante total do investimento não pode ser de US$ 14 bilhões.

Mais um exemplo é a Mars, que produz alimentos para cães e gatos em fábricas russas. Porém, o seu volume de investimentos no mercado russo é desconhecido, porque é uma empresa familiar, há centenas das companhias norte-americanas desse tipo na Rússia.

Como o conflito político entre os dois países afetou o trabalho dessas empresas?

A Rússia e os Estados Unidos são inimigos muito convenientes, porque é sempre melhor ter um inimigo previsível. A probabilidade de conflito entre os dois países é baixa. Se você olhar para o Irã, Coreia do Norte ou outras regiões difíceis, os interesses das duas grandes potências coincidem. Na maioria dos casos, trata-se não de um conflito de interesses, mas de interação.

Em primeiro lugar, as sanções afetaram o setor bancário devido à proibição de colaboração entre os bancos norte-americanos e russos. O principal objetivo das instituições financeiras norte-americanas é organizar transações para emitentes russos nos mercados internacionais. Agora, eles não podem fazer isso.

As sanções também afetaram o setor de energia e levaram ao congelamento de um projeto conjunto de extração de petróleo no Ártico, da ExxonMobil e da Rosneft. No entanto, o trabalho também poderia ter sido interrompido devido à queda dos preços do petróleo. Não descarto que, hoje, as petrolíferas estejam gratas aos seus governos pelas sanções que permitiram evitar perdas financeiras significativas. As empresas norte-americanas foram afetadas mais pela queda dos preços do petróleo do que pelas sanções.

Após a queda dos preços do petróleo, o rublo perdeu cerca de 60% do seu valor em relação ao dólar. Assim, a produção de bens na Rússia se tornou ainda mais barato do que na China. Algumas empresas norte-americanas já aproveitaram esse benefício?

O principal problema para investidores no mercado russo é a diminuição do poder adquisitivo da população e a redução do mercado. Cerca de metade do orçamento da Rússia é composto por receitas de impostos da indústria do petróleo e do gás, e essas receitas caíram muito em termos de moeda estrangeira.

No entanto, a queda do rublo em relação ao dólar cria uma base sólida para a exportação de produtos russos, e, é claro, há empresas que se aproveitam disso. O mercado russo despencou, mas a produção das multinacionais na Rússia corresponde aos seus critérios de qualidade internacionais, eles podem exportar os produtos para qualquer lugar do mundo.

Por exemplo, existem apenas três países que podem produzir grandes peças fundidas e invólucros para turbina a gás: os Estados Unidos, a Rússia e o Japão. A Rússia se tornou líder mundial em questão de preço e qualidade. Em muitas áreas, a produção na Rússia é 30% mais barata do que na Alemanha e nos EUA e 15% mais barata do que na China.

Muitas empresas entraram no mercado russo sob essas condições?

De um ponto de vista empresarial, existem duas forças opostas. Por um lado, as empresas entram no mercado local para atender a demanda interna, mas ela caiu drasticamente. Além disso, os políticos ocidentais declaram oficialmente que é melhor não entrar no mercado russo.

Por outro, o custo de entrar no mercado caiu, e esse fator ajuda a atrair novos investidores. Em 2015, várias empresas norte-americanas chegaram à Rússia e, neste ano, o interesse em investimentos no mercado russo vai crescer.

O principal problema é psicológico, é preciso ultrapassar essa barreira. Especialmente porque as empresas estrangeiras são agora capazes de lançar novas instalações ou comprar projetos interessantes na Rússia, por exemplo, na produção química.

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