Os dois lados da moeda russa

Segundo especialista, jogo especulativo pode mudar a direção da moeda russa a qualquer momento Foto: Reuters

Segundo especialista, jogo especulativo pode mudar a direção da moeda russa a qualquer momento Foto: Reuters

Após forte queda no final de 2014, rublo teve valorização de 22,3% entre fevereiro e abril deste ano e se tornou a moeda mais rentável do mundo. Economistas preveem estabilização do rublo, mas garantem que não se pode excluir os riscos de uma nova crise.

Oleg Buklémichev, professor de economia na Universidade Estatal de Moscou (MGU, na sigla em russo)

O rublo está se fortalecendo sobretudo devido à ausência dos três maiores riscos que ameaçaram a economia no início do ano.

Em primeiro lugar, muitos estavam preocupados com o conflito no leste da Ucrânia. Mas agora a situação está mais estável, e os investidores esperam o levantamento das sanções financeiras em um futuro próximo. Além disso, a queda do valor do petróleo também foi contida e agora observamos um aumento gradual dos preços.

Por fim, o governo decidiu não mudar significativamente a política econômica do país enquanto o Banco Central for capaz de manter a situação no mercado de moedas sob seu controle.

Assim, surgiu o cenário da clássica flutuação da taxa de câmbio, que está se ajustando agora. Não há nenhum risco especial para o fortalecimento do rublo, mas a flutuação excessiva pode levar a um ataque especulativo contra o rublo em curto prazo.

Na minha opinião, é pouco provável que o rublo continue se fortalecendo. O mais provável é o movimento contrário, relacionado com o agravamento de qualquer um dos três riscos supramencionados. O jogo especulativo pode mudar a direção da moeda russa a qualquer momento.

Não podemos esquecer que o Banco Central continua a injetar muito dinheiro para manter a taxa do rublo. A denúncia dessa política financeira e a injeção de rublos em uma economia enfraquecida põem em xeque o crescimento da moeda russa.

 

Stanislav Tkachenko, professor de economia na Universidade Estatal de São Petersburgo

Existem vários fatores que interferem no crescimento do rublo. O primeiro e mais importante é que as sanções não destruíram o sistema financeiro e econômico da Rússia. Nossa economia sofreu fuga de capitais e queda dos investimentos na economia real, mas foi capaz de neutralizar com sucesso as tentativas de Washington e seus parceiros estrangeiros de danificar os setores de energia e industrial da Rússia.

Além disso, há outros elementos que não devem ser subestimados: o aumento dos preços do petróleo e o fim da revolução de xisto, a alta taxa de juros na Rússia, que atraiu especuladores financeiros internacionais, e a melhoria da situação na Ucrânia são os mais notáveis.

O fortalecimento do rublo poderia estacionar em um nível equilibrado, que, na minha opinião, é de 50 a 55 rublos por dólar americano. O fortalecimento da taxa de câmbio ajudará a conter a inflação. Os preços dos produtos importados vão diminuir, o que permitirá às empresas russas pagar suas dívidas externas.

Paralelamente, essa taxa permite desenvolver oportunidades para substituir as importações na área de indústria e da agricultura, bem como para preencher o orçamento do Estado com as receitas provenientes da exportação de matérias-primas e recursos energéticos.

Por outro lado, se o rublo continuar a subir, o país será infectado pela “doença holandesa”, caracterizada pelo grande volume de importação e degradação da indústria e agricultura nacionais.

Porém, após seis meses de turbulência no mercado internacional, o rublo está sob controle absoluto do Banco Central. Minha previsão é que a moeda não vai desvalorizar ainda mais. É mais provável que o dólar seja comercializado a cerca de 55 rublos. Isso é possível nas condições de ausência de uma guerra cambial real entre o dólar e o euro.

Se essa guerra começar, o Banco Central terá que preparar uma nova estratégia, que, provavelmente, promoverá o crescimento gradual da taxa de câmbio do rublo. Para isso, será preciso reduzir os custos da urgente modernização tecnológica da indústria russa.

 

Publicado originalmente pelo Russia Direct

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