Moscou pretende retomar emissão de títulos de curto prazo

Títulos de curto prazo – para um período de 3 a 6 meses – já foram emitidos pelo governo russo em 1993 Foto: Ramil Sítdikov/RIA Nóvosti

Títulos de curto prazo – para um período de 3 a 6 meses – já foram emitidos pelo governo russo em 1993 Foto: Ramil Sítdikov/RIA Nóvosti

Emissão de obrigações (títulos de dívida) de curto prazo visa a cobrir apenas lacunas orçamentárias causadas pela redução dos preços do petróleo. Medida semelhante foi tomada pelas autoridades em 1998, quando foi registrada a maior crise econômica da história nacional.

O Ministério de Finanças da Rússia está analisando a possibilidade de emitir títulos a curto prazo já em 2015. Obrigações poderão ser vendidos a pessoas físicas e jurídicas, inclusive não residentes no território russo. “A presente medida vai cobrir as possíveis lacunas orçamentárias causadas pela redução dos preços do petróleo”, afirmou Tatiana Nesterenko, vice-chefe da pasta, durante um discurso na reunião do Comitê Orçamentário da câmara alta do Parlamento russo.

O ministro das Finanças, Anton Siluanov, já havia revelado que o ano de 2015será marcado pela possível falta de recursos financeiros nas contas correntes de tesouraria do orçamento federal. “No entanto, a escassez de volume tanto em moeda nacional, quanto estrangeira, pode ser revertida por meio da realização de leilões de depósitos”, declarou.

As obrigações de curto prazo a serem emitidas pelo Estado serão destinadas apenas ao preenchimento de lacunas de caixa, “e não para curar o déficit orçamentário do país”, garante Dmítri Bedenkov, chefe do departamento de análise da agência de investimentos Russ-Invest. De acordo com o projeto inicial, o ministério reservou cerca de 12 bilhões de dólares do orçamento federal para a realização da tarefa, e o títulos serão comercializados duas ou três vezes ao ano.

“Caso a emissão seja feita de acordo com os objetivos mencionados, o sistema financeiro nacional não correrá nenhum risco. No entanto, é necessário levar em consideração a possível crise financeira, o que exige um controle rígido sobre o processo de emissão dos títulos”, acrescenta Bedenkov. Apesar dos riscos, a decisão é vista como a melhor solução para diminuir a dívida ou distribuir as parcelas de seus pagamentos por um período de tempo não prolongado.

“Em meio ao crescimento das taxas de juros e constante flutuação da taxa de câmbio do rublo, os títulos emitidos pelo Estado ganharão cada vez mais espaço no mercado financeiro da Rússia, pois eles são a principal ferramenta para o refinanciamento bancário”, explica Konstantin Korischenko, ex-vice-presidente do Banco Central da Rússia.

Korischenko concorda que a emissão das obrigações estatais de curto prazo é a melhor solução para todas as partes envolvidas, tanto para o Ministério de Finanças que não está disposto a fazer empréstimos caros de longo prazo, quanto para os próprios bancos que buscam um ativo lucrativo e facilmente reversível em dinheiro. "É uma saída bastante razoável, que, em conjunto com outras medidas, será capaz de normalizar a situação no mercado financeiro do país.”

Experiência duvidosa

Títulos de curto prazo – para um período de 3 a 6 meses – já foram emitidos pelo governo russo em 1993. Com parte da receita destinada à eliminação do déficit orçamentário, os seus rendimentos não conseguiram cobrir as dívidas passadas, levando a um volume ainda maior de emissões.

Em 1996, o mercado de títulos de curto prazo foi aberto a investidores estrangeiros, embora com limitações iniciais. Uma delas autorizava a importação dos recursos financeiros obtidos da venda das obrigações estatais apenas após um ano desde a data da transação. Posteriormente, esta e outras restrições foram anuladas.

Dois anos depois, a rentabilidade anual das obrigações estatais de curto prazo, que cobriram o déficit orçamentário da Rússia quase por completo, atingiu 140%. A decisão do governo de dar calote foi anunciada em agosto de 1998 e causou a maior crise financeira na história da Rússia moderna, batendo todos os recordes de desvalorização da moeda nacional. Enquanto na véspera da crise a taxa de conversão oficial do dólar não superava 6,3 rublos, em outubro do mesmo ano, esse valor subiu em 2,5 vezes, atingindo o índice de 15,9 rublos por dólar.

“Os acontecimentos na economia observados em 1998 tem como base algo mais complexo do que uma simples pirâmide financeira, criada pela emissão dos títulos de curto prazo, ou qualquer outro esquema financeiro. A crise enfrentada pelo país naquela época, além das dívidas geradas pelas obrigações em questão, foi provocada por problemas orçamentários, queda de preços de petróleo, valor fixo da moeda nacional e outros fatores”, explica Korischenko.

Meses depois, o governo russo zerou a dívida referente às obrigações de curto prazo vendidas a pessoas físicas e alguns fundos de participações; o resto dos credores recebeu menos de 30% do valor nominal dos títulos adquiridos.

As autoridades russas voltaram a adotar o método em questão outras vezes, porém, os bons rendimentos do orçamento federal, inclusive devido à alta nos preços do petróleo, fizeram com que o Ministério de Finanças suspendesse a prática. O último leilão das obrigações estatais de curto prazo foi realizado em fevereiro de 2004.

 

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