Três vias para a crise do gás

Progresso discreto nas negociações abre perspectivas para as relações Rússia-Ucrânia na área de energia Foto: Reuters

Progresso discreto nas negociações abre perspectivas para as relações Rússia-Ucrânia na área de energia Foto: Reuters

Depois de “progresso discreto” durante a Cúpula Ásia-Europa, em Milão, novas perspectivas se abrem para as relações Rússia-Ucrânia na área de energia. A Gazeta Russa conversou com três especialistas russos para entender o cenário e saber quais compromissos poderiam ajudar os negociadores.

Moscou pode começar a diminuir o fornecimento de gás para a Europa através da Ucrânia caso Kiev comece a desviar produto russo para suas necessidades internas, anunciou o presidente russo Vladímir Pútin no último dia 16.

O primeiro-ministro ucraniano, Arsêni Iatseniuk, havia dito anteriormente que Kiev não “garantia o trânsito ininterrupto de gás natural para a Europa” se não for assinado um novo acordo com a Gazprom.

No dia seguinte à declaração de Pútin, as conversações da cúpula Ásia-Europa, em Milão, apontaram para um “progresso discreto” na questão do gás. A próxima rodada de negociações está prevista para esta terça-feira (21).

Mikhail Krutíkhin, analista e consultor para questões da Indústria sw Petróleo e Gás e sócio da agência de consultoria RusEnergy

“O mais importante é que a Rússia deve aceitar as condições econômicas oferecidas pela Ucrânia. Elas são bastante razoáveis. No entanto, a decisão de alterar o sistema de cálculo com Kiev encontra-se na arena política, e é por isso que o processo de negociação está se arrastando. Talvez a solução vantajosa para a União Europeia, Rússia e Kiev passe pela adoção da proposta ucraniana. Ela consiste na revisão do contrato de fornecimento de gás, em particular do seu sistema de preços.

Kiev insiste que a fórmula deve ser a mesma que a praticada para alguns consumidores europeus. A Gazprom trabalha nessa base com a italiana ENI, por exemplo. Quantos aos preços do gás para a Ucrânia, eles estão vinculados ao preço do petróleo, que é já um sistema antigo de cálculo e não sendo inteiramente justo sob as novas condições do mercado.

No entanto, para Moscou esse passo é psicologicamente inaceitável dada a retórica dos últimos meses em relação às novas autoridades do país. Tanto para a Rússia, como para a Ucrânia, aceitar a proposta da outra parte significa uma derrota aos olhos dos eleitores.”

Aleksêi Skópin, diretor do Departamento de Economia Regional e de Geografia Econômica da Escola Superior de Economia 

“A ucraniana Naftogaz não quer pagar o novo preço da Gazprom [385 dólares por mil metros cúbicos]. Afinal, a Gazprom já não tem motivos para reduzir o preço, uma vez que não existe mais o acordo de aluguel da baía de Sevastopol, onde a Frota do Mar Negro tem a sua base. Mesmo assim, a Ucrânia continua procurando obter desconto e, enquanto não for colocado um ponto final na questão da Crimeia, as acusações não vão parar.

No dia 3 de outubro, Kiev recorreu ao tribunal de arbitragem internacional de Estocolmo para que este apresente uma solução provisória em relação à primeira ação judicial da Naftogaz instaurada contra a Gazprom, sobre o preço do gás. O tribunal, em teoria, apoia a Ucrânia, mas, apesar disso, a sua sentença terá mais caráter político do que compulsório. Haverá a constatação de qual das partes tem mais razão. Estocolmo não tem bases para se pronunciar contra a Naftogaz, uma vez que não reconhece o referendo da Crimeia.”

Serguêi Pukhov, analista sênior do Centro de Desenvolvimento da Escola Superior de Economia 

“Saliento que a Rússia pode suspender o fornecimento para a Europa apenas se a Ucrânia começar a desviar gás. A declaração de Pútin sobre uma possível redução do fornecimento de gás de trânsito nada mais foi do que uma consequência do comentário de Iatseniuk.

Eu não acho que a posição de Moscou mude em relação ao preço do gás. Poderão ser revistas nuances: problemas relacionados com o trânsito do gás ou com o pagamento de parte da dívida em uma única prestação. Quanto ao preço, prazos e volumes, estes já foram definidos.

Também seria precipitado esperarmos quaisquer mudanças na política das partes depois da audiência de arbitragem de Estocolmo. O tribunal não vai alterar o contrato em favor de nenhuma das partes. O mercado é controlado por questões internas e ninguém pode obrigar a Gazprom a vender gás a um preço, e a Ucrânia a comprar a outro. Levando em conta o recente acordo com a China, surge à empresa russa a possibilidade de redirecionar a produção para a Ásia. Não se trata aqui apenas da China, mas de todos os países da região.”

 

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